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Frases de Carlos Drummond de Andrade

498 frases

A. impossibilidade de participar de todas as combinações em desenvolvimento a qualquer instante numa grande cidade tem sido uma das dores de minha vida. Sofro como se sentisse em mim, como se houvesse em mim uma capacidade desmesurada de agir. Entretanto, na parte de ação que a v…
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A. impossibilidade de participar de todas as combinações em desenvolvimento a qualquer instante numa grande cidade tem sido uma das dores de minha vida. Sofro como se sentisse em mim, como se houvesse em mim uma capacidade desmesurada de agir. Entretanto, na parte de ação que a vida me reserva, muitas vezes me abstenho e outras me confundo. […] A ideia de que diariamente, a cada hora, a cada minuto e em cada lugar se realizam milhares de ações que me teriam profundamente interessado, de que eu certamente deveria tomar conhecimento e que entretanto jamais me serão comunicadas — basta para tirar o sabor a todas as perspectivas de ação que encontro à minha frente. O pouco que eu pudesse obter não compensaria jamais esse infinito perdido. Nem me consola o pensamento de que, entrando na confrontação simultânea de tantos acontecimentos, eu não pudesse sequer registrá-los, quanto mais dirigi-los à minha maneira ou mesmo tomar de cada um o aspecto singular, o tom e o desenho próprios, uma porção, mínima que fosse, de sua peculiar substância.

Convite Triste Meu amigo, vamos sofrer, vamos beber, vamos ler jornal,
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Convite Triste Meu amigo, vamos sofrer, vamos beber, vamos ler jornal, vamos dizer que a vida é ruim, meu amigo, vamos sofrer. Vamos fazer um poema ou qualquer outra besteira. Fitar por exemplo uma estrela por muito tempo, muito tempo e dar um suspiro fundo ou qualquer outra besteira. Vamos beber uísque, vamos beber cerveja preta e barata, beber, gritar e morrer, ou, quem sabe? beber apenas. Vamos xingar a mulher, que está envenenando a vida com seus olhos e suas mãos e o corpo que tem dois seios e tem um embigo também. Meu amigo, vamos xingar o corpo e tudo que é dele e que nunca será alma. Meu amigo, vamos cantar, vamos chorar de mansinho e ouvir muita vitrola, depois embriagados vamos beber mais outros sequestros (o olhar obsceno e a mão idiota) depois vomitar e cair e dormir. (Em: Brejo das Almas)

ENTRE O SER E AS COISAS Onda e amor, onde amor, ando indagando ao largo vento e à rocha imperativa,
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ENTRE O SER E AS COISAS Onda e amor, onde amor, ando indagando ao largo vento e à rocha imperativa, e a tudo me arremesso, nesse quando amanhece frescor de coisa viva. Às almas, não, as almas vão pairando, e, esquecendo a lição que já se esquiva, tornam amor humor, e vago brando o que é de natureza corrosiva. Nágua e na pedra amor deixa gravados seus hieróglifos e mensagens, suas verdades mais secretas e mais nuas. E nem os elementos encantados sabem do amor que punge e que é, pungindo, uma fogueira a arder no dia findo.

Poema Canção Amiga Eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça,
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Poema Canção Amiga Eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça, todas as mães se reconheçam, e que fale como dois olhos. Caminho por uma rua que passa em muitos países. Se não me vêem, eu vejo e saúdo velhos amigos. Eu distribuo um segredo como quem ama ou sorri. No jeito mais natural dois carinhos se procuram. Minha vida, nossas vidas formam um só diamante. Aprendi novas palavras e tornei outras mais belas. Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças.

AMOR E SEU TEMPO Amor é privilégio de maduros estendidos na mais estreita cama,
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AMOR E SEU TEMPO Amor é privilégio de maduros estendidos na mais estreita cama, que se torna a mais larga e mais relvosa, roçando, em cada poro, o céu do corpo. É isto, amor: o ganho não previsto, o prêmio subterrâneo e coruscante, leitura de relâmpago cifrado, que, decifrado, nada mais existe valendo a pena e o preço do terrestre, salvo o minuto de ouro no relógio minúsculo, vibrando no crepúsculo. Amor é o que se aprende no limite, depois de se arquivar toda a ciência herdada, ouvida. Amor começa tarde.

A castidade com que abria as coxas e reluzia a sua flora brava Na mansuetude das ovelhas mochas,
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A castidade com que abria as coxas e reluzia a sua flora brava Na mansuetude das ovelhas mochas, e tão estreita, como se alargava. Ah, coito, coito, morte de tão vida, sepultura na grama, sem dizeres Em minha ardente substância esvaída, eu não era ninguém e era mil seres em mim ressuscitados Era Adão, primeiro gesto nu ante a primeira negritude de corpo feminino Roupa e tempo jaziam pelo chão E nem restava mais o mundo, à beira dessa moita orvalhada, nem destino.

Quero Quero que todos os dias do ano todos os dias da vida
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Quero Quero que todos os dias do ano todos os dias da vida de meia em meia hora de 5 em 5 minutos me digas: Eu te amo. Ouvindo-te dizer: Eu te amo, creio, no momento, que sou amado. No momento anterior e no seguinte, como sabê-lo? Quero que me repitas até a exaustão que me amas que me amas que me amas. Do contrário evapora-se a amação pois ao não dizer: Eu te amo, desmentes apagas teu amor por mim. Exijo de ti o perene comunicado. Não exijo senão isto, isto sempre, isto cada vez mais. Quero ser amado por e em tua palavra nem sei de outra maneira a não ser esta de reconhecer o dom amoroso, a perfeita maneira de saber-se amado: amor na raiz da palavra e na sua emissão, amor saltando da língua nacional, amor feito som vibração espacial. No momento em que não me dizes: Eu te amo, inexoravelmente sei que deixaste de amar-me, que nunca me amastes antes. Se não me disseres urgente repetido Eu te amoamoamoamoamo, verdade fulminante que acabas de desentranhar, eu me precipito no caos, essa coleção de objetos de não-amor.

Turno à Janela do Apartamento Silencioso cubo de treva: um salto, e seria a morte.
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Turno à Janela do Apartamento Silencioso cubo de treva: um salto, e seria a morte. Mas é apenas, sob o vento, a integração da noite. Nenhum pensamento de infância, nem saudade nem vão propósito. Somente a contemplação de um mundo enorme e parado. A soma da vida é nula. Mas a vida tem tal poder: na escuridão absoluta, como líquido, circula. Suicídio, riqueza ciência... A alma severa se interroga e logo se cala. E não sabe se é noite, mar ou distância. Triste farol da ilha rosa.

Eterno! Eterno! O Padre Eterno, a vida eterna,
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Eterno! Eterno! O Padre Eterno, a vida eterna, o fogo eterno. (Le silence éternel de ces espaces infinis m'effraie.) — O que é eterno, Yayá Lindinha? — Ingrato! é o amor que te tenho. Eternalidade eternite eternaltivamente eternuávamos eternissíssimo A cada instante se criam novas categorias do eterno. Eterna é a flor que se fana se soube florir é o menino recém-nascido antes que lhe dêem nome e lhe comuniquem o sentimento do efêmero é o gesto de enlaçar e beijar na visita do amor às almas eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma [força o resgata é minha mãe em mim que a estou pensando de tanto que a perdi de não pensá-la é o que se pensa em nós se estamos loucos é tudo que passou, porque passou é tudo que não passa, pois não houve eternas as palavras, eternos os pensamentos; e [passageiras as obras. Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um [mar profundo. Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos [afundamos. É tentação a vertigem; e também a pirueta dos ébrios. Eternos! Eternos, miseravelmente. O relógio no pulso é nosso confidente. Mas eu não quero ser senão eterno.

"O amor que move o Sol, como as estrelas" " ser busca outro ser, ao conhecê - lo
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"O amor que move o Sol, como as estrelas" " ser busca outro ser, ao conhecê - lo acha a razão de ser, já dividido. São dois em um:, sublime selo que à vida imprime cor, graça e sentido. "Amor - eu deisse - e floriu uma rosa embalsamando a tarde melodiosa no canto mais ocluto do jardim, mas seu perfume não chegou a mim"

A Um Ausente Tenho razão de sentir saudade tenho razão de te recusar.
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A Um Ausente Tenho razão de sentir saudade tenho razão de te recusar. Houve um pacto implícito que rompeste e sem te despedires foste embora. Detonaste o pacto. Detonaste a vida geral, a comum aquiescência de viver e explorar os rumos de obscuridade sem prazo sem consulta sem provocação até o limite das folhas caídas na hora de cair.