Não digo que sou um Vascaíno doente, pois doente é quem não é Vascaíno.
Frases de Carlos Drummond de Andrade
498 frases
É fácil falar em nome do povo, ele não tem voz.
Morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígio. Mãe, na sua graça, é eternidade.
A palavra Minas Minas não é palavra montanhosa É palavra abissal
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A palavra Minas Minas não é palavra montanhosa É palavra abissal Minas é dentro e fundo As montanhas escondem o que é Minas. No alto mais celeste, subterrânea, é galeria vertical varando o ferro para chegar ninguém sabe onde. Ninguém sabe Minas. A pedra o buriti a carranca o nevoeiro o raio selam a verdade primeira, sepultada em eras geológicas de sonho. Só mineiros sabem. E não dizem nem a si mesmos o irrevelável segredo chamado Minas.
Prece de um Mineiro no Rio Espírito de Minas, me visita, e sobre a confusão desta cidade
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Prece de um Mineiro no Rio Espírito de Minas, me visita, e sobre a confusão desta cidade onde voz e buzina se confundem, lança teu claro raio ordenador. Conserva em mim ao menos a metade do que fui na nascença e a vida esgarça: não quero ser um móvel num imóvel, quero firme e discreto o meu amor, meu gesto seja sempre natural, mesmo brusco ou pesado, e só me punja a saudade da pátria imaginária. Essa mesma, não muito. Balançando entre o real e o irreal, quero viver como é de tua essência e nos segredas, capaz de dedicar-me em corpo e alma, sem apego servil ainda o mais brando. Por vezes, emudeces. Não te sinto a soprar da azulada serrania onde galopam sombras e memórias de gente que, de humilde, era orgulhosa e fazia da crosta mineral um solo humano em seu despojamento. Outras vezes te invocam, mas negando-te, como se colhe e se espezinha a rosa. Os que zombam de ti não te conhecem na força com que, esquivo, te retrais e mais límpido quedas, como ausente, quanto mais te penetra a realidade. Desprendido de imagens que se rompem a um capricho dos deuses, tu regressas ao que, fora do tempo, é tempo infindo, no secreto semblante da verdade. Espírito mineiro, circunspecto talvez, mas encerrando uma partícula de fogo embriagador, que lavra súbito, e, se cabe, a ser doido nos inclinas: não me fujas no Rio de Janeiro, como a nuvem se afasta e a ave se alonga, mas abre um portulano ante meus olhos que a teu profundo mar conduza, Minas, Minas além do som, Minas Gerais. *** Amém.
Também nos importa o que o mar trás consigo até a arrebentação.
Foi-se a Copa? Não faz mal. Adeus chutes e sistemas. A gente pode, afinal,
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Foi-se a Copa? Não faz mal. Adeus chutes e sistemas. A gente pode, afinal, cuidar de nossos problemas. Faltou inflação de pontos? Perdura a inflação de fato. Deixaremos de ser tontos se chutarmos no alvo exato. O povo, noutro torneio, havendo tenacidade, ganhará, rijo, e de cheio, A Copa da Liberdade.
Não há tempo consumido nem tempo a economizar. O tempo é todo vestido
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Não há tempo consumido nem tempo a economizar. O tempo é todo vestido de amor e tempo de amar. O meu tempo e o teu, amada, transcendem qualquer medida. Além do amor, não há nada, amar é o sumo da vida.
Futebol se joga no estádio? Futebol se joga na praia, futebol se joga na rua, futebol se joga na alma.
Cada irmão é diferente Sozinho acoplado a outros sozinhos
Meu amigo, vamos sofrer, vamos beber, vamos ler jornal, vamos dizer que a vida é ruim,
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Meu amigo, vamos sofrer, vamos beber, vamos ler jornal, vamos dizer que a vida é ruim, meu amigo, vamos sofrer. Vamos fazer um poema ou qualquer outra besteira. Fitar por exemplo uma estrela por muito tempo, muito tempo e dar um suspiro fundo ou qualquer outra besteira. Vamos beber uísque, vamos beber cerveja preta e barata, beber, gritar e morrer, ou, quem sabe? beber apenas.
"A religião ocupa espaço infinito dentro do homem, sem que este perca as limitações humanas."
Sempre necessitamos ambicionar alguma coisa que, alcançada, não nos faz desambiciosos.
Sentimos saudades de momentos da vida e momentos de pessoas.
Que é ser? É ter um corpo, um jeito, um nome? Tenho os três. E sou?
Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida. Poucas amam ou encontram um amor verdadeiro. Às vezes encontram e, por não prestarem atenção nesses sinais, deixam o amor passar, sem deixá-lo acontecer verdadeiramente. É o livre-arbítrio. Por isso, preste atenção nos sinais. Não…
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Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida. Poucas amam ou encontram um amor verdadeiro. Às vezes encontram e, por não prestarem atenção nesses sinais, deixam o amor passar, sem deixá-lo acontecer verdadeiramente. É o livre-arbítrio. Por isso, preste atenção nos sinais. Não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: o amor.
Não recomponhas tua sepultada e merencória infância. Não osciles entre o espelho e a
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Não recomponhas tua sepultada e merencória infância. Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação. Que se dissipou, não era poesia. Que se partiu, cristal não era. Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Estão paralisados, mas não há desespero, há calma e frescura na superfície intata. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam. Espera que cada um se realize e consume com seu poder de palavra e seu poder de silêncio. Não forces o poema a desprender-se do limbo. Não colhas no chão o poema que se perdeu. Não adules o poema. Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço.
Das mil maneiras de amar, ó pais, a secreta é mais ardilosa
Certas palavras não podem ser ditas em qualquer lugar e hora. Estritamente reservadas para companheiros de confiança, devem ser sacramente pronunciadas em tom muito especial lá onde a polícia dos adultos não adivinha nem alcança.
Amor foge a dicionários E a regulamentos vários.
Carta Há muito tempo, sim, que não te escrevo. Ficaram velhas todas as noticias.
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Carta Há muito tempo, sim, que não te escrevo. Ficaram velhas todas as noticias. Eu mesmo envelheci: Olha, em relevo, estes sinais em mim, não das carícias (tão leves) que fazias no meu rosto: são galopes, são espinhos, são lembranças da vida a teu menino, que ao sol-posto perde a sabedoria das crianças. A falta que me fazes não é tanto à hora de dormir, quando dizias "Deus te abençoe", e a noite abria em sonho. É quando, ao desperta, revejo a um conto a noite acumulada de meus dias, e sinto que estou vivo, e que não sonho. (Lições de coisas)
MUNDO VASTO MUNDO SE EU ME CHAMASSE RAIMUNDO
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MUNDO VASTO MUNDO SE EU ME CHAMASSE RAIMUNDO SERIA UMA RIMA NÃO UMA SOLUÇÃO.
Essa ferida, meu bem, às vezes não sara nunca. Às vezes sara amanhã.
FAVELÁRIO NACIONAL Quem sou eu para te cantar, favela, Que cantas em mim e para ninguém
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FAVELÁRIO NACIONAL Quem sou eu para te cantar, favela, Que cantas em mim e para ninguém a noite inteira de sexta-feira e a noite inteira de sábado E nos desconheces, como igualmente não te conhecemos? Sei apenas do teu mau cheiro: Baixou em mim na viração, direto, rápido, telegrama nasal anunciando morte... melhor, tua vida. ... Aqui só vive gente, bicho nenhum tem essa coragem. ... Tenho medo. Medo de ti, sem te conhecer, Medo só de te sentir, encravada Favela, erisipela, mal-do-monte Na coxa flava do Rio de Janeiro. Medo: não de tua lâmina nem de teu revólver nem de tua manha nem de teu olhar. Medo de que sintas como sou culpado e culpados somos de pouca ou nenhuma irmandade. Custa ser irmão, custa abandonar nossos privilégios e traçar a planta da justa igualdade. Somos desiguais e queremos ser sempre desiguais. E queremos ser bonzinhos benévolos comedidamente sociologicamente mui bem comportados. Mas, favela, ciao, que este nosso papo está ficando tão desagradável. vês que perdi o tom e a empáfia do começo? ... Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)