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Frases de António Prates

759 frases

⁠Mote Num ponto do infinito há um planeta azulado,
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⁠Mote Num ponto do infinito há um planeta azulado, enquanto gira de lado visto de longe é bonito… Diz-se aqui no Galapito que há lá um certo animal que se faz um maioral e pensa que sabe tudo, como um grande cabeçudo da poeira Universal. Glosas I Diz o povo aqui da Corte, do lugar aonde estou, que o ponto p`ra onde vou é sítio de gente forte… Vou entrar no Pólo Norte para ver se ali medito, um prazer que necessito P`ra gelar o meu sentido e passar despercebido num ponto do infinito. II É ali no pedregulho, que aqui comparto e vejo, onde está o Alentejo que descansa sem barulho… Há quem diga que é orgulho, há quem diga que é um fado, que se leva descansado, nas guerrilhas desse mundo, e vejo que lá ao fundo há um planeta azulado. III Confesso estou curioso p`ra chegar ali depressa, onde dizem que a cabeça tem um dom meticuloso… Viajando o céu viçoso avanço no céu estrelado, o percurso é encantado, o destino bate certo, no azul que fica perto enquanto gira de lado. IV Quero ver a cor das serras, nessas grandes altitudes, e passar desertos rudes que apagam outras terras… Também quero ver as guerras, para ver se eu acredito no que a Corte me tem dito e não quero acreditar, mas olhando esse lugar, visto de longe é bonito. V Com a nave desengatada vejo algumas claridades, talvez sejam as cidades da parte mais abastada… Noto a porção anilada, durante o soar de um grito, que soa como um apito e zune como um consolo. - Vamos ver esse bajolo! Diz-se aqui no Galapito. VI A nave sorri em festa pelo azul dos oceanos, que exibem aos humanos a frescura que lhes resta… Dizem que à hora da sesta esse anil é divinal, no austro de Portugal, onde está uma cicatriz, toda a nave aponta e diz que há lá um certo animal. VII O Galapito avança mais para ver mais à vontade, e reparo outra verdade destapada por sinais... São fumaças colossais vindas lá do corpo astral… Penso que algo está mal nesses tons que não se somem, e que ficam mal ao Homem que se faz um maioral. VIII Vejo a Lua olhar p´ra mim como uma Deusa do céu, a sorrir de corpo ao léu e a benesse não tem fim… É ditosa em ser assim, com um ar sempre amorudo… Enquanto me quedo mudo, penso nessa criatura, que é pomposa na figura e pensa que sabe tudo. IX Lá em baixo oiço trovões, ou estouros das disputas, que são o maná das lutas e o pesar dos corações… Entre as muitas criações, de cariz grave e agudo, avisto o animal taludo entretido nessa esgrima, que diviso aqui de cima como um grande cabeçudo. X Finalmente, o meu destino, entre a sombra dos chaparros, nesses campos tão bizarros dos meus sonhos de menino... Dou um salto repentino para as mãos dos chaparral, onde tudo é sempre igual e onde não me sinto só, como um grãozinho de pó da poeira universal.

⁠Jogados à sorte do sol que procuram, promovem jornadas de campo e de praia... Arrancam nos carros, lá vão prá gandaia,
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⁠Jogados à sorte do sol que procuram, promovem jornadas de campo e de praia... Arrancam nos carros, lá vão prá gandaia, rumo ao desencontro daqueles que aturam. Alugam-se quartos, parques de campismo, ocupam-se as casas em tempo de férias... jogados à sorte, são tantas as lérias que fazem do povo um hino ao turismo. Cozem-se mariscos, bebem-se cervejas, jogados à sorte, durante a viagem... Param no caminho, vão ver a barragem, motivo de tantas e tantas invejas. Nas festas d'aldeia voltam às raízes, levam as crianças na palma da mão... Vão ver os velhotes que ainda lá estão, jogados à sorte e são mais felizes.

⁠Lá nas sábias entidades Desse vasto território Faz-se algo apelatório
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⁠Lá nas sábias entidades Desse vasto território Faz-se algo apelatório Para o dom das caridades Falam essas sumidades Deste rumo deprimente Como quem esteve ausente Daquilo que bem conhece E o povo é quem padece Nas garras de certa gente. Um arrumo nos casacos Um esgar, um arrepio Um prenúncio deste frio Num trejeito de macacos A aragem nos sovacos O tremor em corpos sãos O mancar dos anciãos No tributo à voz do vento Cede a prova do momento Com o frio das suas mãos. Os ossos do dia-a-dia Nas alturas de carência São ensino, por excelência Pela sua antinomia Além da ortopedia E do cerne da matéria A corrente da artéria Mostra fracas cartilagens Para aquelas personagens Que se fartam de miséria. Todo o lobo na matriz Da raiz da sua essência Tem talento e apetência pra fazer o que não diz Dentro dessa bissectriz Da paisagem dividida Uma parte é dirigida Ao engano da verdade Enquanto a outra metade Gere o pão da sua vida. Companheiros de matilha Aliados da má-língua Fazem jus à sua míngua Com aleives na quadrilha Tudo soa a maravilha Aos cordeiros aparentes Forjam logros indecentes A troco do seu proveito E a torto e a direito São por vezes inocentes. Brilham como divindade Dos altivos campanários No mais visto dos cenários Da estranha sociedade Talvez por necessidade Das vaidades assumidas As prosápias exibidas Não se mostram em segredo Enquanto este povo ledo Tem as palmas estendidas.

⁠A noite escuta o mote afeiçoado ao Céu que sobressai do varandim: um cante com um mote apaixonado,
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⁠A noite escuta o mote afeiçoado ao Céu que sobressai do varandim: um cante com um mote apaixonado, no amor do Anastácio Joaquim. A bela cede ao cante, à bela prosa, ouvindo os provençais no trovador; um mago, um dom Juan, um Rubirosa, que inflama os altos versos do amor. Apruma a sua voz pela planície, num modo açucarado e tão sucinto, e enquanto diz da vida o que não disse, traduz a inspiração de um Borba tinto. O tom em dó maior - forte e conciso - aflora a rouquidão que não lhe acode, e diz: amor... amor…, nesse improviso, por entre as largas pontas do bigode. A bela afaga o nardo, emocionada, com a voz que se evapora no relento, e entre uma janela escancarada, recolhe aos cobertores do aposento.

⁠Se esta chuva não parar durante esta madrugada, amanhã não faço nada
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⁠Se esta chuva não parar durante esta madrugada, amanhã não faço nada e tenho a terra pra cavar. Se esta chuva não parar o terreno fica alagado, e não posso semear o que não está semeado. . Se estou apoquentado durante esta madrugada, canto uma letra dum fado ou um cante à minha enxada. Esta chuva vem molhada e promete a boa vida... Amanhã não faço nada, nem cuido da minha lida. Talvez tome uma bebida enquanto a chuva durar... Cai a chuva bem caída e tenho a terra pra cavar.

⁠Meço as palavras a eito neste meu jeito contido mas sinto falta de jeito
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⁠Meço as palavras a eito neste meu jeito contido mas sinto falta de jeito para rimar sem sentido. Este mundo parece ter uma estranha semelhança destinada a fazer ver o que o homem não alcança. Em cada história contada tudo se conta e resume à vantagem retirada do proveito e do ciúme. Quando o pensamento é reles e tortura a nossa voz proferimos mal daqueles que proferem mal de nós. Oiço falar em progresso aos que me falam de cor mas depois de ouvir lhes peço que me falem mais de amor. O amor que queima e tece as saudades repartidas é amor que não se esquece nem por duas ou três vidas. Se o Homem tivesse arte para ver o lado oposto via paz em toda a parte e lavava mais o rosto. Todos nos falam de Deus com sublimes teorias rogam em nome dos céus os seus favores e manias. Se além da vida há eterno e se Deus nos dá sentença imagino que o inferno é maior do que se pensa. Deus nos dê o seu perdão e qualquer coisa divina porque as voltas que se dão são sempre a mesma rotina.

⁠Criança que és bela, Sem nome nem raça... És um ser que passa
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⁠Criança que és bela, Sem nome nem raça... És um ser que passa Nesta vida singela... I Beldade inocente, O sofrimento a consome... Sem rumo, com fome Na sociedade doente... Dizem que és gente Sem norte nem estrela... Esta criança é aquela Que não tem futuro... Mergulhada no escuro, Criança que és bela... II Tão terna, tão pura, Tão cheia de vida... De cabeça erguida Derrama frescura... Segue esta aventura, Cresce na morraça... Na rua e na praça, À chuva e ao frio... É só um vadio Sem nome nem raça... III Não sabe brincar, Tem outro juízo... Falta-lhe o sorriso Para se alegrar... Já farta do azar Que sempre a abraça... É gente sem graça Que é ignorada... Consciência pesada, É um ser que passa... IV Passa pelo mundo Que é tão desigual... Ou é marginal, Ou é vagabundo... É sempre segundo, Eterna mazela... Chora na viela Pelo que não tem... É sempre ninguém Nesta vida singela...

⁠Após o conluio feito no sinédrio, seguiu-se o homem, do que é capaz, sobrando o espelho dado por Caifás
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⁠Após o conluio feito no sinédrio, seguiu-se o homem, do que é capaz, sobrando o espelho dado por Caifás aos muitos que bebem do mesmo remédio. O povo, inseguro, ignora a preceito, as frases de Cristo, na sua missão; o seu a seu ego, em cada oração, pra ter mais orgulho em cada defeito. Nem sempre a história os justos premeia, nem sempre o juízo é como previsto; se hovesse eleições no tempo de Cristo talvez Barrabás governasse a Judeia. Confundem-se os justos com os vendilhões, num vasto plenário de todas as cruzes: acendem-se as trevas, apagam-se as luzes, e fecham-se as portas dos bons corações.