Frase de R. Cunha
Desamparo Eu só queria alguém que cuidasse de mim. Um colo. Um abrigo contra o mundo que me expõe como pele sem defesa. A solidão chega sem ruído, instala-se aos poucos, ocupa os vazios, faz morada no peito — e dói. Dói como peso contido, como um aperto que não encontra saída. O ar falta. Afundo devagar, sem resistência, como quem desce ao fundo do mar em silêncio. Ainda assim, há em mim uma consciência: preciso voltar à superfície. Retorno. E nada mudou. A solidão permanece. Então pergunto, não em voz alta, mas por dentro: vale a pena? Se vale, revela-me o porquê. O silêncio se estende como um vento que uiva sem me tocar. Há um vidro invisível entre mim e o mundo: vejo o movimento, a correnteza, mas não posso atravessar. Estou presa num espaço estreito, insonoro, onde a ausência de saída me torna cativa. Desperto. E ao me reconhecer desperta, compreendo: ainda estou só. R. Cunha
No pensador.ai desde