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Frase de Juvenil Gonçalves da Costa

O Cântico do Cadáver Juvenil Gonçalves Encontrei-te, cadáver, no leito de limo, Vestido de folhas, coroado de espinhos. Teu riso era vago — sem lábios, sem fim E teus olhos comiam o céu sobre mim. Cantavas com vermes um hino sem nota, Com versos que o tempo em teu osso anota. Cada costela — uma clave sombria, Teu crânio — tambor da melancolia. “Fui rei”, murmuravas, “de um reino de nada, Tive amantes, palácios, medalha dourada. Agora me escuto, em silêncio profundo, Pois quem jaz conhece o real desse mundo.” Teus dedos partidos apontam os vivos, Caminham sonâmbulos — tolos, cativos. Riem da morte, e por ela são ridos, Brindam ao gozo — já estão esquecidos. Afastei-me em pranto, mas levo teu canto: A carne apodrece, o orgulho é espanto. E toda verdade que o homem levanta É pó que a minhoca, paciente, encanta.

Juvenil Gonçalves da Costa

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Pensador.com

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Olhar profano Juvenil Gonçalves Teu olhar, açoite e prece,
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Olhar profano Juvenil Gonçalves Teu olhar, açoite e prece, Labareda em tom sombrio, Entre o céu que me enaltece E o inferno onde me fio; És luxúria que me impele, Olhar de cachorro no cio. Fere, inflama, envenena, És astro em desvario; És serpente que envenena Com veneno doce e frio. És pecado em forma plena, Eucaristia do desvio. No templo da tua face Arde o culto proibido; Teu olhar, quando me abraça, É altar de amor bandido. Nele o anjo perde a graça E o santo cai corrompido. Por ti rasgo o Livro Santo, Profano a fé que te evoco; Pois me tomas pelo encanto Que se oculta em teu sofoco. E o que era virtude, em pranto, Faz-se brasa em fogo louco. Ó delírio que me assalta, Labirinto sem saída; Quando teu olhar me exalta Desmantela a minha vida. Nele a morte se ressuscita E o inferno vira guarida. Se sou servo ou penitente, Nem o céu define o fio; Pois me entrego inteiramente Ao prazer que desafia o brio. E tudo começa novamente No olhar vagabundo no cio.

O AVESSO DO POEMA *JUVENIL GONÇALVES * O avesso do poema
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O AVESSO DO POEMA *JUVENIL GONÇALVES * O avesso do poema é o que sobra quando o verso cai, quando a rima escapa, e a palavra — nua — fica olhando o poeta de frente. É o silêncio que não coube no poema, a rascunhada dor que não virou metáfora, o eco do que não se disse mas insiste em arder na ponta do lápis. O avesso da poesia é o poema quando termina — ou quando nunca começou. Juvenil Gonçalves

O Relógio e a Lâmina Juvenil Gonçalves Nas entranhas do tempo, um relógio sangrava,
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O Relógio e a Lâmina Juvenil Gonçalves Nas entranhas do tempo, um relógio sangrava, Cada tic uma lágrima, cada tac uma cava. Em mármores frios, a ampulheta virada Vertia seu pó sobre a carne cansada. A lâmina, imóvel, sobre o altar do instante, Brilhava em silêncio — vestal cortante. Não corta a pele, mas sim a memória, E inscreve nas veias a cicatriz da história. No espelho estilhaçado de um ontem perdido, Vejo o reflexo de um ser já partido. Sou o que fui — e por ser, já me ausento, Um nome sussurrado no sopro do vento. A morte não grita, apenas aguarda, Com olhos de sombra e face bastarda. É mãe e madrasta, no mesmo compasso, Nos embala em silêncio — no mais frio regaço. Ó tu que respiras, crês que és inteiro? Não passas de sombra num véu passageiro. O relógio e a lâmina — gêmeos em dor — Contam teus passos em direção ao torpor

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O sábio e o Idiota apaixonados Juvenil Gonçalves Dizem que o sábio é prudente, e o idiota é sem noção, mas bota um amor na frente e se igualam na paixão! É um tropeçando em sonho, outro perdido em ilusão... O sábio, que lia estrelas, chora por causa de flor; o idiota, que lia nada, vira poeta do amor! Ambos babando besteira, sem medo, vergonha ou pudor. O sábio, que em tese ensina que o mundo é só ilusão, liga de noite pra amada chorando igual um bobão; o idiota, que já chorava, vira o rei da lamentação! Amor, esse bicho danado, não olha a nota nem a razão; ele laça sábio e idiota com a mesma corda na mão. E faz dos dois um só tolo brincando no mesmo chão!