Frase de Flavio Kedson Xavier Bernardino
Cantata daquilo que não se toca Queria que minha imaginação ganhasse vida não como quem pede, mas como quem arde. Que tivesse carne. Que tivesse pulso. E que você, essa ideia com olhos, respirasse diante de mim Que sentisse seu corpo pulsar E o suor escorrer delicadamente pelo seu rosto Enquanto a minha mão segura a sua e eu fico ali, a milímetros de sua boca… Há um rosto que me habita. Um sorriso que não falha. Olhos que me reconhecem antes mesmo de existirem Uma conexão que não é explicada Mas sentida. E é estranho… porque quem lê também procura alguém agora, como se o vazio chamasse nomes que nunca foram ditos. Mas tenho medo. Medo de que, mesmo se te encontrasse no mundo, te perderia no tempo. Porque tudo corre. Tudo troca. Tudo esquece. Somos uma geração de encontros breves, de afetos rasos, de mãos que se soltam antes de sentir. E eu… eu sinto até o que não toquei. Reconheço até o que nunca veio. É estranho desejar o indestrutível num mundo que apodrece tudo. Como disse Charles Bukowski: “Até os vermes tocarão sua carne, meu bem…” E ainda assim eu quero o que nem o tempo ousa desfazer. Quero o invisível aos olhos, aquilo que ninguém pode corromper. O que sinto por você é limpo… tão limpo que às vezes me sinto sujo por não saber caber nisso. Porque o mundo ensina pressa, e eu insisto em profundidade. O mundo ensina troca, e eu insisto em permanência. Eu quis ah, como quis que nossos olhos se encontrassem como quem finalmente entende. Mas, na vida… mesmo quando há encontro, há descarte. Mesmo quando há verdade, há substituição. E o que nasce puro… se corrompe no contato com o real. Eu gostei de muitas. Mas amar… Amar foi uma só vez. E dói admitir: não saiu da imaginação. Mas era tão real que eu sentia presença. E eu queria… que fosse. Amar com o corpo inteiro no tempo, com o futuro aberto, com o presente inteiro, com o passado silenciado ainda que sangrando em cicatrizes. E você… você ficou. Não no mundo, mas no lugar onde o mundo não alcança. Intocável. Indiscutível. Inalcançável. Sei que não foi real. Não sei se existiu fora de mim ou se um dia existirá. Mas sei… com a única certeza que me resta… que, por um instante, você me ensinou o que é ser feliz. Mesmo que só na minha mente. Vivemos tudo e ao mesmo tempo, nada. Uma vida inteira em minutos. E hoje… morro um pouco toda vez que saio desse lugar. Como amar alguém que não existe? Como viver em uma realidade na qual você sabe que não se encaixa? Eu amei. Mas hoje… tento aprender a tocar o real mesmo carregando a dúvida de que o único amor que conheci nunca esteve no mundo
Flavio Kedson Xavier Bernardino
No pensador.ai desde