Frase de Juvenil Gonçalves da Costa
Teus olhos são a origem do tempo Juvenil Gonçalves Teus olhos são luas gêmeas em órbitas de vigília, cicatrizes de um cosmos que não dorme. Ao decifrá-las, desaprendo a física: são elas que inventam o mar, a carne, o relógio. Não há mundo além de seu eclipse. O oceano que neles navega não é líquido, mas fronteira entre o ser e o véu — ondas quebrando em espelhos onde o real se desfaz e recompõe, eterno ensaio. A lua que ali dança não é astro, é a primeira metáfora, o desejo que antecede até o verbo desejar. Constelações cravadas em tua pupila são alfabetos de um caos primordial: cada estrela, uma sílaba do nome que jamais pronunciaremos. Elas cartografam o vazio entre dois corpos, a distância entre o "eu" e o "outro" — abismo que chamamos amor, mas que, no fundo, é só o eco de um sol que se apagou há eras. Há em teu olhar a vertigem do infinito: cada piscar é um universo nascendo de um suspiro, ou um buraco negro engolindo todas as perguntas. Não é angústia, é a lei secreta — tudo que existe carrega em si o germe da própria extinção. Até o amor. Especialmente o amor. Amar-te é habitar um paradoxo: é morder a sombra de um fruto proibido cuja polpa é feita de ausência. É saber que a luz que me guia já foi apagada há milênios, e ainda assim jurar que é nova, que é minha, que é eterna. Porque teus olhos, veja bem, são relógios sem ponteiros: neles, o instante é tudo. E tudo é só um reflexo de algo que perdemos antes mesmo de nascer.
No pensador.ai desde