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Frases de Wislawa Szymborska

17 frases

As três palavras mais estranhas Quando pronuncio a palavra Futuro, a primeira sílaba já pertence ao passado.
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As três palavras mais estranhas Quando pronuncio a palavra Futuro, a primeira sílaba já pertence ao passado. Quando pronuncio a palavra Silêncio, destruo-o. Quando pronuncio a palavra Nada, crio algo que não cabe em nenhum não-ser.

alguns - ou seja nem todos. nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
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alguns - ou seja nem todos. nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria. sem contar a escola onde é obrigatório e os próprios poetas seriam talvez uns dois em mil. gostam - mas também se gosta de canja de galinha, gosta-se de galanteios e da cor azul, gosta-se de um xale velho, gosta-se de fazer o que se tem vontade gosta-se de afagar um cão. de poesia - mas o que é isso, poesia. muita resposta vaga já foi dada a essa pergunta. pois eu não sei e não sei e me agarro a isso como a uma tábua de salvação.

ABC Jamais saberei o que A. pensava de mim.
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ABC Jamais saberei o que A. pensava de mim. Se B. acabou por me perdoar. Por que razão fingia C. que tudo estava bem. Qual a quota-parte de D. no silêncio de E. O que esperava F. se acaso algo esperava. Por que fingia G. sabendo de tudo. O que tinha H. a esconder. O que queria I. acrescentar. Se o facto de eu estar por perto, teve algum significado para J. e K. e para o resto do alfabeto.

Museu Há pratos, mas falta apetite. Há alianças, mas o amor recíproco se foi
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Museu Há pratos, mas falta apetite. Há alianças, mas o amor recíproco se foi há pelo menos trezentos anos. Há um leque — onde os rubores? Há espadas — onde a ira? E o alaúde nem ressoa na hora sombria. Por falta de eternidade juntaram dez mil velharias. Um bedel bolorento tira um doce cochilo, o bigode pendido sobre a vitrine. Metais, argila, pluma de pássaro triunfam silenciosos no tempo. Só dá risadinhas a presilha da jovem risonha do Egito. A coroa sobreviveu à cabeça. A mão perdeu para a luva. A bota direita derrotou a perna. Quanto a mim, vou vivendo, acreditem. Minha competição com o vestido continua. E que teimosia a dele! E como ele adoraria sobreviver!

Torturas Nada mudou. O corpo sente dor,
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Torturas Nada mudou. O corpo sente dor, necessita comer, respirar e dormir, tem a pele tenra e logo abaixo sangue, tem uma boa reserva de unhas e dentes, ossos frágeis, juntas alongáveis. Nas torturas leva-se tudo isso em conta. Nada mudou. Treme o corpo como tremia antes de se fundar Roma e depois de fundada, no século XX antes e depois de Cristo, as torturas são como eram, só a terra encolheu e o que quer que se passe parecer ser na porta ao lado . Nada mudou. Só chegou mais gente, e às velhas culpas se juntaram novas, reais, impostas, momentâneas, inexistentes, mas o grito com que o corpo responde por elas foi, é e será o grito da inocência segundo a escala e registro sempiternos

Despreparada para a honra de viver, mal posso manter o ritmo que a peça impõe. Improviso embora me repugne a improvisação.
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Despreparada para a honra de viver, mal posso manter o ritmo que a peça impõe. Improviso embora me repugne a improvisação. Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas. Meu jeito de ser cheira a província. Meus instintos são amadorismo. O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humihante. As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.

Depois de toda guerra alguém tem que fazer a faxina. As coisas não vão
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Depois de toda guerra alguém tem que fazer a faxina. As coisas não vão se ajeitar sozinhas. Alguém tem que tirar o entulho das ruas para que as carroças possam passar com os corpos. Alguém tem que abrir caminho pelo lamaçal e as cinzas, as molas dos sofás, os cacos de vidro, os trapos ensanguentados. Alguém tem que arrastar o poste para levantar a parede, alguém tem que envidraçar a janela, pôr as portas no lugar. Não é fotogênico e leva anos. Todas as câmeras já foram para outra guerra. Precisamos das pontes e das estações de trem de volta. Mangas de camisas ficarão gastas de tanto serem arregaçadas. Alguém de vassoura na mão ainda lembra como foi. Alguém escuta e concorda assentindo com a cabeça ilesa. Mas haverá outros por perto que acharão tudo isso um pouco chato. De vez em quando alguém ainda tem que desenterrar evidências enferrujadas debaixo de um arbusto e arrastá-las até o lixo. Aqueles que sabiam o que foi tudo isso, têm que ceder lugar àqueles que sabem pouco. E menos que pouco. E finalmente aos que não sabem nada. Alguém tem que deitar ali na grama que cobriu as causas e conseqüências, com um matinho entre os dentes e o olhar perdido nas nuvens.

Discurso na seção de achados e perdidos Perdi algumas deusas no caminho do sul ao norte, e também muitos deuses no caminho do oriente ao ocidente.
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Discurso na seção de achados e perdidos Perdi algumas deusas no caminho do sul ao norte, e também muitos deuses no caminho do oriente ao ocidente. Extinguiram-se para sempre umas estrelas, abra-se o céu. Uma ilha, depois outra, mergulhou no mar. Nem sei direito onde deixei minhas garras, quem veste meu traje de pelo, quem habita minha casca. Morreram meus irmãos quando rastejei para a terra, e somente certo ossinho celebra em mim este aniversário. Eu saía da minha pele, desbaratava vértebras e pernas, perdia a cabeça muitas e muitas vezes. Faz muito que fechei meu terceiro olho para isso tudo Lavei as barbatanas, encolhi os galhos. Dividiu-se, desapareceu, aos quatro ventos se espalhou. Surpreende-me quão pouco de mim ficou: uma pessoa singular, na espécie humana de passagem, que ainda ontem perdeu somente a sombrinha no trem.

Quatro bilhões de pessoas nesta terra, e minha imaginação é como era. Não se dá bem com grandes números.
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Quatro bilhões de pessoas nesta terra, e minha imaginação é como era. Não se dá bem com grandes números. Continua a comovê-la o singular. Esvoaça no escuro como a luz da lanterna, iluminando alguns rostos ao acaso, enquanto o resto se perde nas trevas na deslembrança, no desconsolo. Mas nem Dante captaria mais. Que dirá quando não se é. Nem mesmo com a ajuda de todas as musas.

Agradecimento Devo muito aos que não amo.
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Agradecimento Devo muito aos que não amo. O alívio de aceitar que sejam mais próximos de outrem. A alegria de não ser eu o lobo de suas ovelhas. A paz que tenho com eles e a liberdade com eles, isso o amor não pode dar nem consegue tirar. Não espero por eles andando da janela à porta. Paciente quase como um relógio de sol, entendo o que o amor não entende, perdoo, o que o amor nunca perdoaria.