Pular para o conteúdo

Frases de Teresa Coutinho

11 frases

Pensei demais sobre como seria tornar-me cinzas e acabei perdendo tempo de vida pensando
Continuar lendo

Pensei demais sobre como seria tornar-me cinzas e acabei perdendo tempo de vida pensando e agora ainda, porque penso sobre pensar. Sem dar conta da verdade, cinzeiro sou desde já pela metade, e cada segundo vivido em ato de pensar torna-se metamorfose de cinza. Se metade sou cinzeiro e se tanto penso de tudo, quanto será o pouco que resta de mim?

Somos seres em vão em busca de propósitos. Essa viagem interior
Continuar lendo

Somos seres em vão em busca de propósitos. Essa viagem interior que todo o ser faz, perdendo-se no labirinto da crise existencial. É demasiado querer, essa descoberta sem fim, porque somos instantes, metamorfoses constantes sem chances de sair do vício. Mas há males cujos bens são melhores, e basta a loucura da vida para que que nenhum mal seja pior. Apenas sejamos o que somos, pois quem vive para ser outro sem ser aquele que é, jamais se sentirá vivo.

Não sei saber tudo o que se sabe, é que o vento traz e leva, então o que há, logo esvoaça.
Continuar lendo

Não sei saber tudo o que se sabe, é que o vento traz e leva, então o que há, logo esvoaça. Dei por tudo a viajar no tempo, a vida, principalmente. E desde aí que o vinho é mais saboroso e o cigarro mais atraente. De repente, tudo é leve, breve, um universo caótico de instantes aparentes, um reflexo paralelo de nós mesmos. Relevemos revelares, porque tudo o que é dado como certo, tende a ser secretamente torto.

Da minha janelinha vejo a luz entrar. O quarto está iluminado
Continuar lendo

Da minha janelinha vejo a luz entrar. O quarto está iluminado de amanheceres e entardeceres. Espreito a vista e admiro o espetáculo que encena a vida. O tempo vadia pelas energias vibrantes, alegres e bonitas, assobiando paz imensa. Ouço o jazz latino cantando nas ruas e os seus bailaricos embriagados. Sinto o cheiro do mar e do amor no vento. O suor escorre-me nu, já só tenho um cigarro. Estou contente.

O amor sempre me soou a rouqidão e a segredos por trás de sussurrares, mesmo na hora de fazer cair as paredes do quarto.
Continuar lendo

O amor sempre me soou a rouqidão e a segredos por trás de sussurrares, mesmo na hora de fazer cair as paredes do quarto. E o sabor era muito vário, mas quase sempre de fumador. No ritmo, as irregularidades eram as minhas prediletas, umas vezes o coração chegava mesmo a parar. Nunca houve momento despido de afeto e romance, nem mesmo quando as turras duravam dias, pois o amor sempre cumpria o dever de sentar. Desde sempre, guardo o amor na gaveta da escrivaninha, onde às vezes se arrepende de ir a minha saudade.

A sabedoria não pode ser ensinada, porque a sua verdadeira doutrina está na comunhão com a experiência.
Continuar lendo

A sabedoria não pode ser ensinada, porque a sua verdadeira doutrina está na comunhão com a experiência. Que o medo não nos impeça de dar passos largos e compridos, ou de encher o olhar de brilho; resvalemos e abramos rasgões no corpo e na alma, embriaguemo-nos de coragem para sentir desgostos e solidão. É detestável passar pela vida com tanto rigor e apenas espreitá-la, sem nunca entender o seu desordenamento e olhá-la reparando. Somos escravos da morte, então, recorramos ao mais alto dos cumes da nossa criatividade e façamos dela a nossa libertação.

Enfraquecido pela acidentada inclinação da dúvida, matou-se. A caminhada do entendimento era infinita e as pegadas pesavam. Cada passo que dava à frente,
Continuar lendo

Enfraquecido pela acidentada inclinação da dúvida, matou-se. A caminhada do entendimento era infinita e as pegadas pesavam. Cada passo que dava à frente, era outro que ficava pra trás; assim que o sabia, logo se desmoronava. Que brutalidade, a morte ser brotada das sementes da razão. Ser cultivado é libertar-se! Mas, ser-se livre sozinho é… lenta mente morrer de solidão. Então, para quê viver num universo de ideias estéreis, onde o ignorante é mais valorizado do que o próprio sábio…? «qual homem, qual quê, aquele ali é louco!» Quantos loucos geniais, «marginais!»… Ah…! Morrer de morte subtil, sentir vivaz o sangue escorrer dos pensamentos, a vibração da alma rugir o que ficou no silêncio, fazendo a dança dos espasmos percorrer o corpo. Morre-se sim, de epidemia filosófica! Não porque é mais digno do que tornar-se igual aos outros, mas porque a liberdade é tamanha e não cabe em prisões.

Um bizarro bairro de desmaiadas cores estende-se vago pela colina, rompendo-se solto de movimento,
Continuar lendo

Um bizarro bairro de desmaiadas cores estende-se vago pela colina, rompendo-se solto de movimento, como pinceladas delirantes de um esboço engolido pela natureza. Já no escuro, cá fora, de baixo, vejo-o beijar a noite em êxtase de estrelas, e ouço gemidos de moribundos que se esvaem nos ventos leves. Como vivem felizes sob o lume que não se extingue, tão cheio de luar, embebido num infinito prazer… E todavia bocejava constantemente, entre os desbotares de gozo e de cansaço, como se de um sonho se tratasse… Os pássaros avançam em meu redor e invadem-me aromas de árvores e flores, abraçam-me as tintas, os sopros e o calor, e eu, tal e qual… amortalhado de impressões, e nelas a inacessível confidência dos meus sentidos. Já não sei quem sou, nem de onde venho, ora para onde vou. Enfim perdido na inconsistência dos sonhos… Flutuando, eu que me achava deitado no rochedo, adormecido à tardinha… Junto a mim, em mim, a fronteira entre o ilusório e o tangível. Em cada esquina, divagações… E a vida que corre como um poema…

Esse vinho de sabor a rolha, bebi-o todo. Sorvi beijos delirantes na boca
Continuar lendo

Esse vinho de sabor a rolha, bebi-o todo. Sorvi beijos delirantes na boca daquela garrafa menstruada, fiz amor com aquela que, para mim, era a mais bela e barata das poesias. A fantasia bastava-me. Ah…! Se não fosse o delírio bêbado, qual seria o meu consolo, o meu conforto, o meu abrigo? Maior tortura do que morrer, seria viver, ou pensar na existência, ou recordar o que ela foi. Qualquer um choraria esta infelicidade se vivesse dentro dela… Mas eu não, eu prefiro acalmar a alma com versos tintos. Assim, tudo o que tenho para recordar é deliciosamente esquecido. Sinto pena das pobres almas bem vestidas, que calçam passos apressados e doidos na direção do metro, das suas casas para o trabalho e do trabalho para as suas casas. Essa multidão que corre e não me repara, nem desdenha, esses são os verdadeiros tristes falidos, as verdadeiras almas mortas. Esses corpos fabricados pelos convencionalismos saturam o ar com a exuberância superficial dos seus perfumes, que não impedem a propagação do real cheiro podre de si mesmos. As suas más caras, imersas em máscaras de maquilhagem, instintivamente recordam-me palhaços, só que estes não fazem rir. Coitados… Dão pena… Debruçados, carregando nas costas todas as obrigações que o quotidiano obriga, amaçados pelo tempo que se vai estreitando cada vez mais, e cada vez mais esses filhos do tempo vão morrendo, suicidando-se passivamente, parecendo felizes nos negócios, com avultada fortuna, casamento consagrado e várias propriedades magníficas. Enfim… Ridículos! Ridícula dormência. Nas montras tudo os atrai, tudo se vende e tudo se compra. Esquecem-se que os vendidos são eles, e que o que gastam não é dinheiro, mas tempo de vida. Fazem daquilo que possuem, o que são, afinal, se é isso que lhes ensinam, como poderia ser de outra forma? Mas, quem sou eu para iniciar a revolta contra os princípios-modelo da sociedade capitalista? Comprem! Comprem mais! Gastem mais! Sejam ignorantes completos das coisas da vida! Trabalhem, coisifiquem-se suas máquinas-objeto! Morram sufocados pelo ocultamento de vocês mesmos! Sejam infelizes! Para todos os efeitos, sou um mero bêbedo que ninguém vê e ouve… A verdade é esta: está frio e é noite, as ruas estão húmidas da chuva. Onde irei dormir hoje? Penso demasiado… Preciso de vinho.

⁠Certo dia, infligi-me à inevitabilidade da tortura: estive a pensar, a pensar… E senti-me abismar precipitado
Continuar lendo

⁠Certo dia, infligi-me à inevitabilidade da tortura: estive a pensar, a pensar… E senti-me abismar precipitado num tempo que foge ao dos ponteiros. Imerso no relógio reflexivo, escapuli-me, sem esforço, para o ininterruptamente absurdo – onde tudo se torna evidente e a pureza das coisas alcançável. O prazer da minha própria companhia tornou-se doloroso, (ninguém nos explica verdadeiramente nada...); havia incorporado tic tac’s pensantes, tais filosofias agudas, cortantes, que tanto me ferem a sensibilidade. Por vezes, quando sofro o suficiente para me tornar um homem novo, tento ser capaz de retornar, evitar a poesia, ser mais terreno. Mas o meu mal é ser poeta, mesmo sem o querer. É longa a distância entre reconhecermo-nos… A verdade é que, cada instante de poesia, por mais que doa, também satisfaz.