INSÔNIA
Deixe amor que a noite passe silenciosa
E apenas a noite, do que contém a noite,
Do que sustém a noite,
Do que mantém a noite, do que convém a noite
E se esse silencio for bastante pra nós
For constante pra nós, importante pra nós
O silencio da noite nos dará um sinal
Assim se a noite silenciosa se perder
Silenciosamente nos subterfúgios
Das sombras das noites que fomos,
Deixe amor que a noite passe silenciosa
E se perca silenciosa na noite levando consigo
A ansiedade do que não consigo
Além de sussurros e suspiros
Sob a luz dos astros e o enigmático silencio da noite
Que a noite passe silenciosa
Diante da noite que a noite nos propõe...
PREFÁCIO
Trinta anos atrás eu amanhecia,
Encantado com as espumas
Que as ondas provocavam
Ao baterem impertinentes contra o quebra-mar
E politicamente radical
Com os cachos dos meus cabelos castanhos
Ou o black power do meu irmão; eu era um contestador
Há trinta anos atrás a gente sorria mais fácil
E era mais fácil ser politicamente radical
Há trinta anos atrás bastava um sonho,
Uma postura e a ilusão da democracia;
As utopias revigoravam nossa ideologia
Há trinta anos atrás,
Eu só tinha trinta anos
E trinta Anos era uma eternidade,
Agora eu tenho duas eternidades
E este desejo que arde
Como se eu tivesse treze anos
Cronologicamente o meu cérebro não se deu conta
Que passou tanto tempo
E meu coração não se deu conta de seus efeitos.
Ainda me encanto com o alvorecer,
Com os tons de cada estação,
Com os pássaros, com o que vejo ou só imagino...
Com essa coisa nova que tilinta, que sussurra, que sopra,
Que canta, que me desperta
Que me faz correr como se eu fosse um menino
E então qualquer momento é uma eternidade...
E eu sonho... é o meu destino...
Eu sonho...
POÉTICA
Disperso meu olhar em ouro turvo
Desperto aturdido e atônito
Ainda existo, ainda existe o mundo
Das coisas vãs e supérfluas, antônimo
Quem se dedica a tal amor profundo
Nuvens magentas salpicam o horizonte;
O outono dourado dos faustos mitos
Desfolham sem alardes as florestas
A calmaria duma brisa no infinito
Sussurra a estação dourando em festa
A relva tem a idade dos delírios
Pluma leve pros tombos do passado
Momentos lacônicos de paixão suavizados
Pela insanidade de um lírico visionário
VERDE OU AZUL
Ainda acontece como se minha alma
afugentasse a calma...
Já adolesci faz tempo, faz tanto tempo
Que as tardes agora ardem de saudade
De algo que agora caminha nesse teu caminhar...
Quero entender toda a magia do verde ou azul
Que agora abriga a minha alma...
Sabe o que é ser tão triste, tão triste,
Profundamente triste de felicidade...
Ainda acontece caminhar sobre as águas...
Esta coisa divina me leva
Como se todas as coisas fossem novas,
Como se paixão fosse novidade
Fico na expectativa de que todos os dias sejam sábados
De que o céu tenha esse azul ou o mar tenha esse verde
E o que se perde entre o olhar e o sentir vire encanto
Sonho que todos os dias sejam sábados
E que todos os sábados sejam assim,
Mágicos, verdes ou azuis eu não sei...
Ou não tenho certeza mas hoje é sexta feira
E amanhã já é sábado de novo...
CORPOS SANTOS
Acho que ainda não é meia noite,
Quem dividiu a noite eu não sei,
Mas está tudo bem silencioso,
Está meio medroso, o carro preto veio...
Todavia eu procuro umas palavras,
Eu procuro umas palavras,
Umas palavras eu procuro.
Além do muro onde me escondo
Um mocho grasna seu agouro fúnebre,
Esse silêncio tenso tem o timbre do mais triste escuro
O carro preto... o carro preto às vezes é prata,
Às vezes é vermelho, as vezes é branco
Para cobrar vem como um raio
Vem como um relâmpago
Acho que ainda não é meia noite e o pipocar da vida
Abrindo feridas em tantos corpos santos;
Jazem no asfalto anjos sem mantos sob a luz da lua
Seus corpos tatuam pra afastar o medo
Eu procuro palavras... eu procuro palavras
Pra descrever a morte
Acho que ainda não é meia noite...
Quem dividiu a noite pra mim ainda é segredo
Nesse contexto. me parece, morrer é muita sorte
E viver não passa que morrer de medo
PILARES
Às vezes quando o que temos é o que nos traz medo tememos pelo que Temos e pelo medo;
Às vezes quando o que temos é só um segredo
O que temeremos?
Nada vale tanto espanto
O mundo tem suas pilastras;
Nada fica solto ao vazio,
Temos cabos e andaimes
O mundo tem um fundo de verdade nas suas mentiras
O mundo tem suas pilastras,
O que nos sustenta é exatamente o que nos faz cair...
O que nos sustêm são as abstrações
Amor, ódio,paixão, esperança, alma ,
O ar que respiramos e fé...
Nada fica solto no vazio,
Ou melhor o vazio fica solto no nada...
Temos pilares que nos sustentam
E o que nos sustem é o que nos faz cair e ninguém vive sem isso... ;
À GENTE BONITA DO MORRO
Onde anda o morro do samba,
De gente bamba, dos grandes poetas...
Onde anda aquela gente fina
Que tirava rima da dor mais profunda,
Mas tinha o prazer na luta diária,
De fazer parte da classe operária,
Onde anda o malandro do chapéu de massa,
Onde anda a essência do Rio de Janeiro;
Onde bate agora o coração do meu país?
Estou cheio de tantos imbecis,
De Dj e MCs que propagam a droga,
O crime e a prostituição
Esse monstro invadiu nossas comunidades
Recrutou os meninos, saqueou a cidade
E se escuda atras dessa gente honesta
Essa raça que faz do funk um merchan pro crime,
Que recruta crianças, que embrutece e reprime
Levando a esperança e manchando a história;
Nos turvando a glória
Dos anos dourados que um dia o morro viveu...
AUGUSTO E EU
Entre mim e augusto existe o tempo e a imensidão; outonos dourados que derramaram pétalas e desfolharam árvores avolumando a relva que adubaram o solo e esconderam os vestígios dos que perambularam, dos que caçaram, dos que fugiram, ou simplesmente se perderam ao acaso... em busca de um senso, de um espírito, de algo surreal que dê sentido à isso; e o que me faz pensar que eu sou augusto? Ah, eu não sei, algo, uma presunção megalomaníaca, fantasmas, os demônios que escarravam os seus poemas, os vermes... eu não sei... augusto e e, caminhamos... um pântano sinistro galhos e raízes como esqueletos dos que perecem num purgatório que habita na nossa própria essência. Alta madrugada e eu esfacelado na minha sensibilidade diante das agruras que sangram a alma de qualquer ser com fôlego e tato, diante desse cotidiano maldito; Augusto gargalha algum poema com farpas, entrementes onde estive esse tempo? este plasma indócil vagou pelos desertos da África; colhi fome, miséria e inanição; a Etiópia cingiu minh'alma e tingiu minha pele. O deserto habita o meu silencio e povoa o meu coração. augusto me olha deste abismo inexplicável de abstrações que serve de pilar à poesia; caminhamos juntos entre a lógica e o absurdo, tudo que explica perfeitamente o que não somos de uma forma coerente a se fazer dissolver o que é real nesse universo de moléculas, átomos e estrelas; mas eu tenho os meus sonhos, sonhos como chuvas, como rigorosos invernos e nessa realidade árida, só me resta chover...
Felicidade?
-sabe essa procura incessante,
Essa luta desgastante, esse turbilhão de emoções :incertezas, receios, insegurança...
Esse vai e vem incessante da luta do cotidiano na batalha por realizações. ..
Quando tudo isso passar algum dia, você vai dizer: ah, eu era feliz e não sabia...
Devo inventar palavras pra te dizer o que sinto
ou mentir muito pra te dizer verdades
na minha idade, na minha idade nada é muito certo
e tudo anda perto da insanidade,
nasci com trinta anos; aos vinte eu já tinha sessenta
agora me encontro adolescente na terceira idade
DOLCE AMORE MIO
Um dia eu apareço no teu sonho
E te mostro o tamanho do meu coração,
Um dia eu te mostro
Como a minha paixão é densa...
Pensa numa coisa imensa sobre outra coisa
E entra e sai...
E entra e sai e coisa numa coisa intensa
Compensa qualquer sacrifício
Esse é o meu ofício,
É um vício, é ócio, são ossos do ofício...
Um dia eu apareço e te mostro
Um dia eu te mostro o mastro da minha paixão,
Navio a cortar vagas,
A vagar no cio desse teu desejo,
Um dia eu apareço...
Um dia eu apareço, dolce amore mio...
VOZ DA POESIA
Às vezes o meu olhar sobe o morro
Quando morro de saudade
E a razão pede socorro...
Eu já fui tão feliz um dia
Que a raiz que me sustenta,
E a luz que me ilumina
Se inclina pra colina
E colore a tarde de salmão, rosa e dourado...
Eu ponho de lado o meu orgulho
Às vezes e sem querer fazer barulho
Eu canto um samba;
Algo que batuca no meu peito
Eu não tenho jeito,
Eu sou escravo desse amor...
E de outros amores que eu não soube,
Mas li em algum poema
Ou assisti em algum cinema
Eu sou a voz da poesia
Mas tenho medo do seu cântico,
Eu que já fui feliz um dia
Prefiro ser sozinho do que ser romântico...