Nada mais que eu diga
mudará nossos destinos
nada mais que eu faça
mudará o sentimento
meu melhor momento
é me sentir bem pequenino
tua ausência é o meu maior tormento
Já fui feliz um dia
ou pensei que era
mundo de fantasia,
mundo de quimeras
agora sigo aflito nessa ansiedade
só o instante da tua presença traz felicidade
MUCAMA
Quem é teu dentista,
Teu ortopedista,
Quem torneou tuas pernas
Quem fez essa cintura de violão
Onde eu tocaria as mais lindas canções
Quem esculpiu teu rosto ,
Quem fez teus lábios propondo desejos ardentes?
Mucama algum dia teus seios furarão
O linho do teu vestido
E a minha frágil resistência vai ruir
E daremos nossa contribuição
À miscigenação com mulatos e mulatas...
Mucama que Deus me perdoe,
Mas hoje preciso de ti na cabana do canavial,
Terás um anel de ouro e um vestido de seda,
Nada que se compare com tua pele de cetim,
Mas quero te ter como minha senhora e princesa...
Estar bem perto de nada é um deserto
Estar do outro lado da lua é uma incógnita
Estar do outro lado da rua é um ponto de vista
Do outro lado da vida não há visita,
Está bem perto de tudo é um sonho,
Do outro lado do sonho tem favelas,
Tem chinelas de dedo, tem o medo, tem balas perdidas
Do outro lado tem a avenida Brasil
Rápida e inconsumível
Do outro lado da avenida Brasil
Tem o mundo tem a novela
Tem Carminha na arte da vagabundagem...
Do outro lado a turma do plin plin...
Camila disse que o camelo é o bicho mais bonito
Fico imaginando alguma filosofia nisso,
Mas pra quem estivesse na selva
Os bichos mais feios seriam o tigre ou o leão...
Camila disse que o camelo é o bicho mais bonito
Pra mim o bicho mais bonito é o tigre e o leão,
Mas eles lá na selva e eu os vendo aqui da minha televisão
O que eu diria da tartaruga
Depois de duzentos anos de rugas,
Camila seria a fêmea do camelo?
Então eu diria que camelo é o deserto mais bonito da solidão...
PERAS
Agora só quero uma varanda
Um céu com estrelas e discos-voadores,
Só quero andores floridos,
Forrados com toalhas de renda
E sacros hinos reavivando a fé
Só quero o bafejar lilás
Dos deuses da poesia
E a alegria de sofrer pouco,
Só quero fingir que sou louco
E enganar psicólogos e psiquiatras,
E a mim mesmo pensado que sou normal
Quero pegar tua mão
E sentir a emoção de três décadas atrás
Falar as coisas que eu disse aos dezoito anos
Como se então os teus seios de peras
Amamentassem ainda os meus desejos...
Deixa eu te mostrar meu verso
Porque sou poeta
e toda lágrima ou sorriso eu escrevo
Deixa eu mostrar meu universo
Feitos de manhãs e madrugadas
As namoradas que eu pensei que tinha
Só me trouxeram desertos
As namoradas que eu jamais terei
De longe eu as amo
As namoradas sem amores são todas minhas
Quando perco uma destas namoradas
Pra alguém eu me alegro
Porque elas perderam um amor ausente
Mas terão paixão por perto
ELA GOSTA
A dúvida é um rinoceronte dentro do guarda roupa,
Um hipopótamo na geladeira
Um elefante no armário
Paquidermes pisando minha desconfiança
Ontem ela descascava chuchu na pia
O baby doll intimamente nas suas partes
O decote com seus seios na maior alegria,
E a mobília bramia...
Anteontem eu filmei seu andado,
Seu banho, o sabonete desliza demais...
Sua calcinha salmão é muito atrevida,
O que caberia debaixo dessa cama?
Perfuro o colchão com espetos
E o negão vira lama...
Ela reclama e se faz de ofendida
Mas no fundo ela gosta,
Infla o seu ego o meu ciúme,
Reclamo do perfume,
Investigo o celular e o facebook,
Imagino o que vai na sua cabeça,
Ela fica indignada, mas no fundo ela gosta,
Este é o meu maior medo, no fundo ela gosta...
Era uma caminhada silenciosa todo o peso do morto dividido por quatro ,elevado às presenças e semblantes, às tantas potencias... quem faria tantos cálculos? O orgulho do finado pesaria pelos coturnos de todos os exércitos, multiplicado por todos os pelos do bigode de Hitler e tudo brilharia como os botões do batalhão nazista que venceria a Europa; . mas era uma caminhada silenciosa sem sons metálicos de fuzis ou baionetas, era uma caminhada silenciosa, era uma caminhada silenciosa. Alguém procuraria no fumê do Chanel da viúva, um traço de tristeza na sua roupa preta, nas suas pernas bem torneadas, provavelmente esquecidas na política bélica de estratégia de guerrilha; quem pensaria em guerra diante de tanta beleza? O féretro desceu, desceu a bandeira, uma salva de festim que só tornou depois tudo ainda mais silente. As pernas da viúva tinham prazer pela vida...
Tons de outras luzes em outros firmamentos,
avestruzes em coberturas de grandes apartamentos,
sou quase criança e as danças induzem ao sentimento,
minha terceira face, mamute com asas de borboleta
minha terceira face borboleta com presas de mamute
seios grandes, seios pequenos, seios de todos os anseios,
amo as mulheres tristes e as alegres
eu as torno tristes para amá-las
pernas finas, pernas grossas
, pernas para todos os palermas,
tons de outros horizontes, de outros ontens , de outros totens
minha terceira face na primeira margem do sétimo céu
meus primeiros beijos com desejos de lua de mel
AO MENOS UM POEMA
Ao menos um poema todos os dias
A jia e as estrelas, a via e as represas inspirariam
O luxo e a luxuria são mendigos ante nobres sentimentos
Andar de pé no chão, sentir a terra
Sentir o farfalhar da relva...
A selva te engole com seus elevadores.
Vidraças que refletem o firmamento
E o que é firme nesse movimento de viver?
No mínimo um poema todos os dias
E o que me inspiraria se não alvorecer
Se o galo não cantar, se o asno não zurrar
Se a vaca não mugir, se o pássaro não gorjear
Se o rio silenciar a calmaria infinita
Apenas um poema...
E se a neblina não neblinar,
Se a brisa não soprar
Se não acontecer nenhum crime passional
Nenhuma loucura de amor, uma insanidade qualquer...
Apenas transtornos banais do cotidiano
Como mortes no trânsito e engarrafamentos
Filas quilométricas para pagamentos
Pego minha senha,
Minha sina assassina
Te jogo da penha rezando a ladainha
Te jogo da cobertura com a ternura angelical de um querubim
Com a leveza de um mamute
E a suavidade de um crocodilo faminto ,,
Josefa vai valer à pena é um poema...
O ASTRO, A OSTRA E AS OUTRAS
Uma gota é uma mentira a mais num mar de ilusão,
meu coração é conta-gotas de qualquer paixão
O que me ilude alude ao astro, à ostra, ás outras...
a luz que vem de cima reluz no astro
O que se ergue de baixo pra cima é o mastro,
veleja minh’alma feito embarcação
O mar é tão imenso penso, penso, o mar cabe no meu coração
A ostra é alimento,o astro é sentimento, as outras eu não sei não...
Caymmi caymmiria bela filosofia:
“quão belo é o mar...”
Versos singelos, apologia a imensidão,
E a ostra tão pequenina lá no fundo do meu ser
A ostra é uma estrela de quinta grandeza que vive a me aquecer
AÇUCENA
Um dia eles se casariam,
Mas o rio levou seu corpo
E das rosas que ela colhia
Às margens do rio
Germinou açucena...
Ele ficou tão triste,
Que virou poeta
E quando morreu
Transformou-se em beija-flor
E sai as margens do rio
Beijando as flores,
Procurando Açucena.
Daqui a um século como agora, olhar-me-ei no espelho, estupidamente sereno, impávido sem me preocupar com o IRA, O ISLÃ, Israel ou Palestina, a guerra das religiões que tentam impor suas doutrinas através do terror e carnificinas, toda essa complexidade humana que em nome de um Deus que é bom generoso e imaculado e emana luz. Daqui a um século, como todos os dias, olhar-me-ei no espelho procurando qualquer traço desse ser divino, que diz que sou imagem sua e semelhança, no entanto sou indolente, indiferente se na áfrica crianças morrem de inanição, se no Brasil são vítimas de drogas e prostituição e diante do espelho só me incomoda o meu cabelo em desalinho, os meus pés de galinha, as marcas indeléveis deixadas pelo tempo, o reflexo desse vidro enigmático que absorve a minha existência e rouba a minha identidade, tanto que todos os dias me olho no espelho, todos os dias há milênios olho no espelho e me pergunto tendo o silêncio frio e implacável como resposta: quem sou eu?
Quantos raios de sol tem uma manhã? Você tinha uma manhã em cada olho e os pássaros cantavam para despertar os desejos adormecidos sob seu travesseiro de penas, então o sonho estendia seu tapete vermelho e a felicidade casaria com o prazer, era a magia da vida, que doura a adolescência, prateia a juventude e tenta desesperadamente camuflar as dificuldades, então os pássaros se debatem numa gaiola de ouro, ou são despenados para uma fantasia, mas o carnaval é passageiro e os brilhos das fantasias ficam esquecidos no barracão; então de todos os sonhos realizados há uma inexplicável insatisfação incompreensível para a alma ou que nos negamos a admiti: os pássaros querem voar... os pássaros querem voar...
O PÂNTANO
Quando os olhos lacrimejam
A solidão já se perdeu nos pântanos
E a alma já foi devorada pela alcateia...
Então a neblina cai fria,
Perolada por um ou outro
Raio furtivo de luar
Que escapam por entre as nuvens,
As manhãs são raríssimas,
Uma ou outra lembrança
De um passado longínquo,
A essência humana é esse pântano;
Uma criança frágil caminhando
Num terreno íngreme e pedregoso
Sob olhares famintos de lobos...