COMO ÍNDIO
O que acontece de repente
Quando ela se pinta diante do espelho,
Batom, sobrancelhas e cílios...
Tomara que caia justinho,
Cambraia estampada,
Nem lembra dos filhos
O que fantasia, tão bela diante do espelho
Com poses e closes pra postar no face,
O marido disfarça, fingindo reler um jornal antigo,
Mas instiga, seus risos e bicos,
Meu amigo malandro metido a filósofo
Dizia que mulher é como índio
Quando se pinta quer guerra
E a vejo tão bela com a escova
E um decote generoso
Falando em lift e massagem
E uma taruagem na coxa,
Poxa ninguém é de ferro e parece provocação,
Mas tem a tal “maria da penha”
O que fazer com o ciúme
Se trejeitos e excesso de perfume
Me fizerem perder a cabeça?
Meu amigo dizia por experiencia própria
Que mulher é como índio
Quando se pinta quer guerra...
LUÍZA LUIZ E LUZIA
Ela sabia que era homem quando vinha a noite
Ela sabia que era homem quando vinha o dia
Ela só não queria ter essa certeza quando via Luzia
Sonhava ser mulher para estar em seu braços,
Luzia também pensava que era homem
Quando vinha a manhã
Quando vinha o cheiro de hortelã
Que a horta expandia
Luzia e Luíza se conheceria
Ambas sabiam que eram homem
E o que consome a alma consome o que é proibido
Ambas se desejavam mas quem seria o marido
Luzia cuidaria ainda muito tempo da horta
Luiza ainda assaria muitas tortas
Mas até que o primo Luiz de uma das duas entrou na história
E a marra de macho das duas desabaria,
Mas, más línguas juraria que a mais fêmea da história era Luiz
E do trio era ele o mais feliz...
Tenho sonhado com a lua em todas as suas fases, um céu estrelado estrelas cadentes riscando os momentos fazendo imaginar-se os mais belos desejos, fantasia é uma nave tripulada pelas imaginações mais férteis; então eu me vejo sob um céu bem próximo, estrelas de todas as grandezas; tem uma dançarina que se exibe num balé e de vez em quando roda nas pétalas de alguma estrela... nesse mundo eu procuro as esquinas, os horizontes, mas parece que há um deslimite; a bailarina ensaia uma valsa na fase cheia da lua sobre uma praia de luz uma plateia surge não se sabe de onde e aplaude efusivamente; a bailarina é carregada por um raio de luz e os meninos representam “Amoramora, este tango é meu...” então a bailarina surge do meu lado com uma roupa de plumas e paetês, declama a última estrofe e some ante o meu deslumbramento diante os primeiros raios de um alvorecer...
Quero voltar pra África, mãe...
Quero voltar pra Mãe-África ...
Não quero mais saber de canavial,
Não quero mais saber,
De cana ou de engenho,
Não quero mais saber,
De presentes do senhorzinho...
Vi meu irmão no tronco,
Meu pai na plantação,
E meu irmão mais novo,
Tem olhos claros e cabelo louro...
Mãe, sinhá anda esquisita pro meu lado,
Senhorzinho deu-me de presente
Um cordão de ouro,
Ando sentindo enjoos,
Não sei do que se trata
Mas acho que não é coisa boa
Será que tem a ver com os banhos
Que tomo com o senhorzinho na lagoa?
Mãe o que é miscigenação?
Senhorzinho falou algo parecido,
tirou o meu vestido
E disse que era parecido com paixão...
Mal o meu olhar perdera a pureza
Tereza já se despia
a noite mal anoitecera
ainda ingênua,
uma lua tímida no céu de chumbo
parecia o fim do mundo
o que cairia,
a chuva alagaria a rua,
a tribo dos vagabundos
de todos os mendigos
de pontes e de marquises
o que seria da chusma,
minha madre Teresa de Calcutá,
calcula a minha agonia,
Tereza presa nos meus braços
o paço guardado por vigias
o chumbo alagando o Ganges
a rua parecia o rio...
sonhei contigo a noite toda
e acordei faminto,
as vezes penso que sou adolescente,
que sou um menino...
e toco e toco e canto e grito o teu nome
princesa toma um banho
lava o rosto, esquece o mal jeito
sou um sujeito desprezível
mas te desejo, doce, accessível
mas não uma cadela
me diga não sempre que for possível,
sempre que for possível não cuspa não
o amor é meio sujo
mas não é intragável nem perecível
sonhei contigo a noite toda,
foi foda acordei sozinho...
ESQUECE
Não se esqueça de mim
Não esquece a roupa no varal
Não esquece tem sal no feijão
Não esquece a vida
As contas de água e de luz,
Não esquece segunda é feriado nacional
Não esquece o gari vai passar,
O dentista o plano funeral,
Não esquece a ração
E as vacinas dos gatos,
Os retratos CPF e título de eleitor,
As cobranças boletos e faturas,
Não esquece as mensagens fonadas,
Não esquece o galego, e o dinheiro do queijo
Quebra pedra, o boldo e o mastruz,
Nõo esquece as ervas...
Não esquece o dízimo e missões
Não esquece o fogão aceso,
O ferro ligado, torneira pingando
E se houver tempo para todas as pequenas coisas
Esqueça de ser feliz...
AS MINHAS ASAS
Antes de olhares minhas cãs
Veja meu olhar de esmeraldas
Que rolavam nas correntezas de rios profundos
Com águas cristalinas onde garimpavam
O tesouro de uma vida
Ou a ilusão pelo prazer de uma paixão
Onde muitos se jogaram por pura desilusão
Ou se amaram clandestinamente em suas margens
Dando margem as mais belas
Histórias de paixões proibidas...
Os meus cabelos clarearam pelo êxtase
De nossos corpos que se fundiam
Com o pacto de uma única alma...
Olhes meus membros que vasculharão
Teu corpo como um mineiro
Em busca de diamantes...
A minha boca declamar-te-á
Os mais belos sonetos eróticos...
A minha língua sorverá a tua alma
Que correrá feito uma corsa
enlouquecida no cio pelas savanas
E voará sob minhas asas
Do céu ao inferno
E falas de algo eterno
Só pelo prazer que se esvai em alguns instantes
Então olhas com desdém as minhas cãs
E nem percebes as minhas asas...
EU, O LOUCO E O ANJO
O louco cata o lixo na tarde
Sem saber porque a tarde se esvai,
O anjo cata o louco no lixo
Sem se importar com o tempo
Eu assobio a sinfonia da eternidade
Porque já fui louco,
Já fui anjo
E agora penso que sou Deus...
A OUTRA MARGEM
Se eu soubesse de mim há muito tempo
não teria perdido tantos ocasos;
me perdi nos olhos de gurias farsantes, acanhadas e recatadas;
em seus sorrisos de pérolas,
ou nos perfumes de rosas campestres de suas presenças.
Do outro lado do rio, onde caía todas as pipas,
onde se escondia o resto do arco- Iris
e o sol cochilava no final de tardes tépidas de verão
morava um outro eu.
Mas vovó falava de um lobisomem daquele lado.
Eu chegava à sua margem e acenava àquela silhueta magra do outro lado;
a noite sonhava com uma trilha de pegadas gigantes
e imaginava uma figura horrenda
acordava afobado, rezava o credo
e corria pro lado de mamãe na outra cama .
um dia um balão caiu no outro lado do rio
e incendiou parte das minhas fantasias,
mas eu já conhecia o perfuma campestres de rosas
e o sorriso de pérolas de algumas gurias.
Agora percebo que as pipas gostam de transpor fronteiras
e as vezes o vento sopra para o nosso lado;
os ocasos jamais se perdem,
eles ficam de uma forma ou de outra guardados em nossos olhares
e quanto aquela silhueta magra
que me acenava do outro lado do rio;
o meu outro eu, me impõe uma única dúvida:
quem é a outra margem??
O abismo me veio em forma de grito,
Aflito eu olhei procurei o infinito
Sonhar é cair na imensidão
Não tenho teto e nem tenho chão...
O meu juízo viaja no rastro de um cometa..
.meu caminho é Alfa e Ômega
Paixão é o meu desvio, minha perdição...
O CARA
Eu sou o cara que está longe
Quando estou perto
Eu sou o cara errado
Quando estou certo
Eu sou um cara louco num deserto
Seu olhar vai além do horizonte
Nunca acerta meu nome
Nunca sabe o que eu curto
Desconversa, desvia o olhar
Menciona: “que lindo crepúsculo”
É a senha pra dizer que já é tarde
Arde no meu peito, dói nos meus músculos...
Sou o cara mais perto do que está bem distante,
Sou o cara mais certo das suas incertezas,
Chocolates é sua fraqueza,
Poesia é até covardia;
O negócio é que gosto do seu jogo,
Quero imaginar que seria difícil,
Todo edifício saberia;
Espionam por frestas e janelas;
Sairia no face, no globo repórter depois da novela...
Ela sobe serena e segura, um riso no canto da boca,
Sabe que está no meu peito,
Permite que eu olhe da escadaria...
Eu sonho, não sou de ferro, quem não sonharia?
Entre um trago e outro no beco, sob os olhares dos tolerantes, dos que acreditam que podem nos salvar, mas ignoram que sobre esses telhados travam-se batalhas apocalíptica; os projeteis sibilam na madrugada como um aviso, até que um ou outro corpo jaz inerte e ensanguentado. O mal está bem armado e equipado; fala suave, manso e sereno em nome da paz.
Sobre os telhados os espíritos vagueiam invisíveis e insaciáveis em busca de vítimas, mas a fumaça delineia seus vultos maquiavélicos arquitetando o mal.. Entre um trago e outro as luzes que pontilham a colina são referencias para os males de uma sociedade injusta. Durante todo dia a turba caminhava como uma manada de búfalos enlouquecida, mas até mesmo a loucura tem seus momentos de temor e lucidez; calaram diante de um batalhão seus gritos de ordem ou de desordem; na verdade são imbecis comandados por uma oposição sequiosa de poder. Pensam que fazem a história. Entre um trago e outro nos becos das favelas, a juventude definha nas suas alucinações; uma fuga louca de uma realidade cruel e implacável, o que não deixa de ser um sinal apocalíptico. A rapaziada “esperta” acende seus cachimbos, cheira seu pó, tem sua alucinação; os projeteis sibilam na madrugada, é uma troca de satisfação de lado à lado; tudo dentro da normalidade. É a normalidade; quem quer saber disso, o que importa é o poder.
CAPITAL DO MUNDO
Quando olhei as escadarias da penha,
Nos meus delírios
O mundo lá de cima seria meu
Os lírios do campo e todos os lírios da minha rima
A contemplar o mundo como um deus
Meu Deus que povo feliz,
Que vê o mundo sempre de cima
Da Penha, dos olhos do Cristo,
Da Tijuca, do Pão de Açúcar
E todos os manjares que a gente degusta...
Por isso bahias, paraíbas, e pernambucos
Sejam brancos ou mamelucos
Falam como eles, se vestem como eles...
O Rio é a capital do mundo,
O mundo quer ser carioca
Esse povo relaxado e feliz
Que manga das dificuldades
Gargalha com as necessidades
E brinca de guerra nas favelas
Morre de balas perdidas
Ou se suicida mas vai pro céu...
FAGULHAS
Esses grãos brilhantes,
Diamantes vãos
A enfeitar a noite a ilusão...
A adornar a solidão
A salpicar o teu poema com fagulhas
Você que delira a contemplar estrelas
Tê-las é delírio,
Lírio é flor do campo
Eu canto as dores do mundo
As alegrias não...