ESSE ISSO
Isso... isso que eu sinto,
isso que não tem nome,
que a mente consome,
que domina a vontade,
desafia a realidade,
que me nega à verdade.
Parece preso esse isso dentro de mim.
Mas não.
Sou eu a finita prisioneira do “isso” sem fim.
BEIJO AUGUSTO
Como eu aguento?
Essa pergunta me vem, às vezes…
fica incerto tempo
e desaparece.
Voltará?
Perguntas e vontades voltarão?
Ou viraram altocúmulos?
Estratos? Cirros talvez…
Quero nimbos,
seguidos de relâmpagos e chuva forte!
Não saber é o que não aguento.
É isso que eu não aguento: não saber!
O que, como, para onde…
qual é o rumo mesmo?
Nau sem norte… já disse isso?
Pois repito.
Gosto de repetir algumas coisas
para me convencer da resposta, essa que não sei
resposta errada
resposta certa
como qualquer resposta sempre foi: certa E errada
nunca uma única coisa
pois verdade é isso mesmo: quimera
pantera, fera, véspera do escarro
mas nunca companheira inseparável.
A verdade é qualquer coisa menos a realidade
é equação algébrica:
X – REALIDADE = VERDADE
Se a realidade for maior que qualquer coisa,
a verdade terá um formidável enterro
E é assim que eu aguento, sem aguentar de saudades
daquilo que eu sei que existe, mas não vejo
da verdade, às vezes, positiva
daquilo que me revelou,
nada mais revelando, além do beijo
do augusto anjo.
Líquido Seco
Líquido, desfaz-se e busca a solidez,
na solidão eterna de um momento líquido.
- Barman ou Bauman?
- Ambos, por favor!
Há pontas, há ondulações,
há mágicos atritos que arranham e acariciam.
Líquido seco que o caos acalma,
que a calma tinge de guerra,
com a cor do sangue, sem a dor da alma.
A língua morre aos poucos,
entrega-se à morte do mundo que não vive.
Língua morta de uma mente viva
que nunca morre, que nunca dorme,
que sangra na taça.
Inspiro no passado e expiro no futu... não, no passado também!
O futuro não existe.
O tempo está limitado pela sensação de um suposto presente...
que acabou de passar!
O presente não existe.
A cada instante, sou apenas o resultado de um passado assimilado
e insistente.
Permito-me conceber um futuro e me concedo um presente.
Mas, ao abrir esse presente, lá encontro o passado, eternamente.
Estranhamente, a vida acontece dentro do presente, ainda embalado.
O passado são apenas as memórias dos presentes que abri.
O futuro será consequência, quando se transformar em passado.
E foi o passado certamente a causa, mesmo sendo a consequência...
O que é fato é que o ato que causa a consequência vive no presente,
eternamente.
Folhas e pontos
Gostaria que as folhas nunca fossem de ponto,
ponto que marca tempo,
o tempo que não me pertence;
obtuso ponto que me amarra ao tronco
desse açoite das horas.
Gosto das folhas que seguem o vento,
vento que as liberta
dos galhos fixos do tempo.
Com o tempo, elas chegam ao ponto
de, como o tempo, irem embora.
À LUCIDEZ
Dentro de mim há um enigma.
Olho para fora, busco a cura.
Não resisto, quero a loucura,
essa que cura, loucura benigna.
Pois quando louca, sinto-me sã,
salva da lucidez que me enlouquece,
dessa lucidez que me adoece.
Quero a loucura cega, surda e vã.
Sim, vã! Pois o que faz sentido maltrata.
O significativo não mais me arrebata.
Vou-me ajustar a essa vida insana.
Não resisto! Tiraram-me a gana!
...
Não, não é isso! Fui leviana!
Quero a lucidez, a mais cara loucura.
Volto à lucidez e me entrego à tortura.
Que doa, que maltrate ou que me mate,
mas confio à lucidez o meu resgate.
Tanto penso, que quase não existo.
Na existência do meu pensamento
está a essência da minha inexistência.
Então não penso,
para pensar que existo.
Pensando que não penso,
pretendo existir além de todo o pensamento.
Nunca diga nunca, porque o sempre não existe,
pois nada é absoluto.
Se nada é absoluto, o nada mesmo não existe.
Então algo é absoluto.
Se algo é absoluto, nem tudo é relativo
Mas o tudo também não existe, pois é absoluto
Seria o tudo, então, o algo absoluto?
Foi um marcador de muitos textos que eu não havia lido.
A cor do marcador? Não importa.
A vida do marcador é marcada por marcar, seja lá qual for a cor.
O que importa é que marcava, era marcante, e marcou!
Todos os textos seriam lidos agora com esse marca-dor.