Ao Poeta
Poeta, eu te suponho santo,
pois se hoje há verso, já houve pranto.
Do pranto que dá medida à alegria
pariu-se o verso da tua poesia.
Santo, eu te suponho poeta,
pois sua dor não é mais secreta.
Mesmo os versos de contemplação
foram embriões na dor e na paixão.
META: METAMORFOSE
Isso ainda me mata...
A vida!
Hei de morrer disso.
Quero que a vida me mate,
para permanecer viva.
Que me desmantele,
que me dilacere e
que me desintegre.
Depois me reconstrua,
pois a vida continua.
Serei o fruto da boa morte,
em vida,
até que isso me mate...
outra vez,
e até que me mate...
de uma vez.
Leve, levito
e levo comigo cada poeira do que passou.
Lívida estou.
O que restou da poeira menos algo que fui é o que sou:
Poeira que pensou
não ser poeira.
Calma
Mergulhei numa calma esquálida,
muda,
inodora,
insossa,
pálida...
No enterro dos sentidos,
vi espectros de sonhos perdidos,
pilhados,
massacrados,
arruinados,
esquecidos...
Com o féretro das emoções, cerrou-se o dom.
Morreu o ruim e morreu o bom.
À escuridão perdeu-se o tom.
E o silêncio trouxe o som,
o gemido,
o grito,
o apito
ultrassônico
da criança
reprimida.
enquanto carta no baralho
vou tentando quebrar um galho
confundo alho com bugalho
procuro e erro o atalho
escondo cabelo grisalho
faço do ego um chocalho
lavo com lágrimas o assoalho
talho versos em cascalho
e resisto feito carvalho
Um desejo me aperta a garganta
arfando, eu vivo os dias
ar falta ao peito
arquejo
no ar.
Escrevo o aperto de um tempo
suando, aperto a caneta
a letra rejeito
ar vejo
no bar.
Estou no meio deste “sei lá”.
O que é o “sei lá”?
Ah, ele se resume a ummundodentrodeummundo...
ainda se fosse omundodentrodomundo, o conceito seria mais fácil de explicar
ou, pelo menos, de entender.
Mas sei lá...
Isto é meio que bom: o não saber.
Não, não... eu me enganei. Isso é ruim!
Ou, talvez, sei lá!
Só sei que, depois que sair desse mundo, vou pra outro ainda sem saber explicar o “sei lá”.
O outro mundo?
Ah, sei lá!