Separação Forçada -
Há um vazio que se sente
quando alguém se vái embora
alguém que toma a nossa mente,
dia a dia, hora a hora.
Há uma saudade que nos turva
quando alguém nos diz adeus
e cada estrada, cada curva
nos lembra os olhos seus.
E a distância é um tormento
a solidão é um cansaço
até nos dói o pensamento
no desejo de um abraço.
Duas vidas tão diferentes
dois destinos desiguais
dois lamentos permanentes
que não se cruzam nunca mais.
Máscara -
Trago em mim uma verdade que não quero,
uma verdade a que me dou mas nunca dei,
algo que de mim sei mas não tolero,
uma triste confissão que não farei ...
Tantas vezes que pela vida vou cantando,
mas no entanto, sinto que me morro,
e na verdade, quase sempre pela vida vou chorando,
e quem me vê sorrindo não sabe o quanto choro!
Insónias de frio -
Outono, manhã cedo,
tarde quente, ensolarada,
eu dormindo sobre o medo
e tudo igual de madrugada.
Tudo igual na vida,
noite fria, nevoeiro,
minha esperança perdida
e da morte nem o cheiro.
Da morte nem a sombra
que passa por quem leva
e åi de quem se esconda
de um destino que não chega.
Sempre chega, sempre vem,
numa tarde ensolarada
pois a vida vai e vem
numa eterna madrugada.
Aos Pés da minha Cama -
Aos pés da minha cama
há um baú cheio de versos
uma dor que é tamanha
de um poeta controverso.
Aos pés da minha cama
há um baú cheio de morte
hora a hora de quem ama
e odeia a sua sorte.
Aos pés da minha cama
há um baú cheio de vida
uma vida de má-fama
de tantas regras despida.
Aos pés da minha cama
há uma dor, triste lembrança,
mil poemas, o meu drama,
o baú da minha herança.
Ao baú cheio de versos que está aos pés da minha cama na casa do Outeiro em Monsaraz.
Chorão -
Ao pé daquela casa onde vivo
há uma árvore em vetusta solidão
da qual se escuta, ao passar, tanto gemido,
como se fora de um Poeta o coração...
Ninguém sabe de onde veio nem porquê!
O que faz ali num estático sossego?
Além da árvore que é árvore ninguém vê
que ela traz dentro de si a Poesia por apego.
Espalha pela rua a magia de um sorriso,
triste, só, ao vento, seja noite ou seja dia,
em diáfana presença procura alguém perdido
e seu corpo de silêncio embala tanta melodia.
E o que faz aquela árvore calada rodeada pela Era
no meio de uma rotunda ao pé da minha casa?!
Presença cinzelada que nada diz nem me revela,
que apenas sinto, na voz de um silêncio que me abraça ...
Que encanto dá à minha rua a alegria daquele mágico Chorão,
dança todo o dia, chora toda a noite e canta, canta e encanta ...
E minh'Alma, pejada de espanto, vê numa parede, alinhada com o chão
uma lápide de mármore que nos diz: Praceta Florbela Espanca!
Caçada -
Pelos campos, na herdade,
saem galgos a correr,
manhã cedo, uma caçada;
é noite, na verdade,
e entre frio, a chover
desce ainda a madrugada!
Há um galgo branco e leve
a correr direito ao rio
entre a névoa densa e clara,
pelos campos uma lebre
que ao saltar cheia de frio
lhe parece jóia rara!
Desce o Sol no horizonte
e no meio da claridade,
voam tordos pelo ar;
a caçada vai a monte
no silêncio da herdade
correm galgos sem parar!
Fado das Aias -
Introdução ao Fado das Aias:
"Eis que em Portugal, surgem caminhando melancólicas, no areal,
xaile traçado, vestidas de negro, as Aias da Solidão.
Mulheres que choram seus homens, junto à barra-Tejo, no cais da despedida.
Passam absortas, sombrias, solitárias, cantando a dor da separação na voz do Fado.
E há lamento, angustia e solidão ..."
IN O Último grito da Gaivota,
do mesmo autor.
FADO DAS AIAS
Traçámos nossos xailes no coração
junto ao Tejo neste cais da despedida
ai xailes, negros xailes, solidão,
herança que ficou dessa partida.
Por não ter um coração onde se acoite
o fado é um canto de incerteza
gemidos de guitarras pela noite
trinando nossas horas de tristeza.
Em horas de agonia sem razão
cantámos tantos fados que martirio
ai xailes, negros xailes d'ilusão
ai fados, tantos fados em delirio.
Tão longe do amor p'la barra fora,
por mares, navegando sem perdão,
deixaram tantas Almas em penhora
e fizeram de nós Aias-Solidão.
P.S/ O Fado nasce da saudade, a saudade da distância
e a distância do sonho de navegar ...
(In)confidência -
Minh'Alma
cansada e sem pudor
é onde a sós
estou contigo
meu amor!
É sede, sim,
uma longa tortura,
uma fome de mim,
ó meu amor,
tenho sede de ti!
E tanta dor persiste
na alegria de versejar
pois teu amor insiste
em partir e não voltar!
Minha Vida é Solidão -
Minha vida é solidão
no cansaço da navegar
nela afogo o coração
como um náufrago no mar.
E mal cheguei à vida
não sabia que era assim
tanta gente, só, perdida
num caminho sem ter fim.
Fui galgando como um rio
tive pressa de chegar,
tantas dores, tanto frio
na loucura de m'encontrar.
Mal disse a minha vida
na procura de uma luz
alma aberta, alma ferida,
sob o peso de uma cruz.
Encadeamento -
Hoje é véspera de amanhã
e eu não sou véspera de nada
como a tarde e a manhã ...
O meu ontem é passado
o teu hoje é uma espada
e o meu corpo está cansado ...
Anteontem foi mentira
estar só uma verdade
e minh'Alma tão perdida ...
Rubra Cor -
Tarde fria, sonolenta ...
E cai o dia, breve instante
num segundo de dolência!
Eu juro que não sei
quem sangrou o peito ao Sol poente
que inunda o horizonte
e o agoniza lentamente!
Tarde rubra, encantada
que deixa tantos escolhos
de uma intima lonjura
no silêncio de meus olhos ...
Tragédia de um Adeus -
Meu amor o teu silêncio
faz parar meu coração,
numa triste madrugada
minha fria solidão
numa cama já cansada!
Meu amor terás meu corpo,
nos teus olhos meu olhar
e no silêncio das palavras
esta ânsia no mar morto
será eco de um cantar!
E os teus olhos, meu amor,
cor das longas ventanias,
olhos fundos como os meus
dois martírios pelos dias
na tragédia de um adeus!
Pétala de Solidão -
Trago ao peito, ainda, uma pétala de solidão,
única que resta da flor airosa que já fomos,
agora, murcha, seca e morta pelo chão,
entregue ao pó da vida de onde somos!
Eu fui pó e nunca vida,
o que resta e nunca flor ...
O que sobra de uma esperança perdida
pois a vida nunca teve por mim amor!
E não há como salvar aquela flor,
jaz morta, apodrecida, pisada pelo chão,
que aos olhos da loucura, enlouquece a própria dor.
E que triste dor ardente
que consome de amargura
o olhar de toda a gente ....
Coragem -
Quem de entre vós me explica o porquê do meu destino? !
Esta insofrida nostalgia que me veste de lamento!
Este estar no mundo, à deriva, sem caminho,
que me seca, dia a dia, na raiz do pensamento ...
Quem de entre vós terá coragem
de me dizer: "tu és no mundo um despojado,
feito apenas de aparência, boa imagem,
mas no fundo, um pobre e triste desgraçado! "
Coragem! Vocês inda precisam de coragem!
Viver a vida que me deram,
isso sim é ter coragem, o resto, é paisagem ...
Posso ser no mundo um pobre e triste desgraçado,
mas sei o que é na vida ter coragem,
porque ela, frente ao mundo, foi meu escudo no passado!
Razão -
Quando um dia eu morrer, que sorte,
não quero terra, campa ou jazigo,
para que não se acoitem à minha morte,
só de cinza pretendo ser vestido!
Que arda o fogo no meu corpo,
queime a dor que me viveu a existência,
pois só assim, sobre tábuas enfim morto,
será cinza a solidão em permanência!
E se p'ra matar esta fria solidão
o único caminho for morrer,
então, semeio a morte no fundo da razão!
E assim, já tenho uma razão para morrer,
é preciso libertar meu coração
da amarra que é pensar em não sofrer ...
Fui -
Fui da vida um deserdado
sem ter terra p'ra pisar,
um mendigo tão cansado
sem ter colo p'ra chorar.
Fui da vida um aborto,
um filho indesejado,
um barco sem ter porto,
à deriva, ancorado.
Um filho da madrugada!
Um filho da noite escura
a quem a vida não deu nada ...
Inda assim vivi a vida!
E fui um passo de loucura
num passar de despedida ...
Apátrida -
Trago a vida de um vencido
neste corpo de mortal
um sonho em vão, perdido,
de ser alguém em Portugal!
Nunca fui - qu'importa tal?!
Porém, desde o berço até à morte,
ser poeta, triste sorte,
de um povo que me quer mal ...
E o que fazer ao que sonhei?!
Guardar no coração - talvez!
Destino ou maldição - não sei!
É expectativa despojada!
É dor que ninguém vê
numa voz indesejada ...
Aceita a Vida -
Quando a vida está cansada
dá-lhe espaço p'ra te ver
porque a alma vem do nada
exausta de sofrer.
Onde há dor e amargura
só há luto e solidão
não há espaço p'ra ternura
nem lugar p'ro coração.
Não te esqueças que é loucura
insistir no que não deu
dar valor ao que não dura
é viver do que morreu.
Esquece os sonhos que perdeste
acredita no que virá
esquece a vida que não tiveste
e aceita aquilo que ela dá.
Saudade Parada -
Trago a alma já cansada
no viver da madrugada
num sonho que morreu,
trago ao peito uma loucura
no esperar de uma ternura
que da vida se perdeu.
Levo no corpo a solidão
vazio e dor na minha mão
num passar de despedida,
ai minha vida sem nada
minha saudade parada
numa sombra esquecida.
E em cada noite escura
sinto em mim outra amargura
na cama onde me deito,
e adormeço a persistência
de sentir a tua ausência
à deriva no meu peito.
Cegueira -
Entre a dor que sentimos
e a solidão que vivemos
às vezes descobrimos
que da vida nos perdemos.
Na ausência que deixamos
no vazio que remoemos
afinal o que esperamos
da vida que não temos?!
A que temos e não queremos,
silencio cáustico onde vais? ...
A que temos porque a temos?!
Tendo muito queremos mais!
E o tempo passa, vai passando,
a vida é longa, prolongada,
alguém nos ama, vai amando,
e nós não vemos, não vemos nada ...
Queixas de um Mendigo -
Sou um grito de revolta
na voz de um condenado
um passaro sem rota
um mendigo desprezado.
Sou a cal da sepultura
no enterro da solidão
alguém morto, sem ternura
esquecido num caixão.
O dia quente que morreu
a noite fria que chegou
mataram quem esqueceu
de esquecer o que chorou.
Foi em vão a minha vida
foi em vão acreditar
foi minh'Alma proibida
da alegria de sonhar!
Velhas Pedras da Cidade - Évora -
Velhas pedras da cidade
que outrora já foi Moura
"Ruas-Frades" por piedade
que o passado não perdoa.
Velhas pedras da cidade
que o silêncio não calou
passe a vida ou a idade
pois o tempo as consagrou.
Velhas pedras da cidade
são cansaços do destino
são poemas sem vaidade
de poetas sem caminho.
Velhas pedras da cidade
- cinza fria que não sente -
não se esqueçam da saudade
no olhar de toda a tente.
Reencontro o Coração -
Meus olhos já não choram
pela vida que passou!
No passado o que perderam?!
Entre nós tudo acabou ...
O que viram foi traição
no desejo de um abraço
mas só lamento e solidão
lhes puseram no regaço.
É tão longo o dia claro
e tão breve a noite escura
que esta vida a que me agarro,
é mentira, é loucura.
Quem não sente o coração
não entende o que é a vida
vai aos tombos pelo chão
vai morrendo dia a dia.
Passa o tempo devagar
passa a vida que passou
é loucura não amar
mas é louco quem amou.
É loucura ter saudade
de quem vive no coração
no silêncio da cidade
e na raiz da solidão.
A saudade que eu tinha
era saudade de mim
a saudade era minha
eram saudades sem fim.
Cai o Sol no Alentejo
pelos campos solidão
passo a Ponte sobre o Tejo
e reencontro o coração ...
Cautelosa e Serena -
Quando a morte vier
cautelosa e serena
haverá luto e solidão
no sentir de quem souber
que o seu toque deixa pena
no pulsar do coração!
Quando a morte vier
ninguém sabe quando virá
talvez traga algum encanto
no olhar de quem lhe der
aquilo que ninguém dá
a saudade como um canto!
Quando a morte vier
vem com ela outro destino
vem com ela outra vida
e se alguém a não quiser
terá dor no seu caminho
ao partir sem despedida!
E é mentira quem disser
que o morrer já não importa
só a vida que passou
quando a morte vier
de repente fecha a porta
e quem era terminou!