Ódio Cansado e Liso -
Odeio a Vida que Deus me deu ...
E odeio a Deus porque ma deu
sem lha pedir!
Nem um sonho, nem um AI,
eu sem nada, despido,
feito de gritos e de espanto,
sem mãe nem pai.
Odeio a Vida que Deus me deu ...
E odeio a Deus porque ma deu
sem lha pedir!
Nem um beijo, nem um canto,
eu sem vida, cansado,
feito de espinhos e de pranto,
mal-amado, mal-amado!
Odeio a Vida que Deus me deu ...
E odeio a Deus porque ma deu
sem lha pedir!
Nem um toque, nem um corpo,
eu sem ti, que mendigo?!,
pôdre na terra, morto,
ódio cansado e liso!
Odeio a Vida que Deus me deu ...
E odeio a Deus porque ma deu
sem lha pedir!
Sombras Aflitas -
Trago o meu olhar vazio
no vazio da solidão
trago o destino marcado
e o meu corpo cansado
sem Alma nem Coração.
Peço à Vida coragem
peço à Vida mais Vida
que a luz do meu olhar
tal como as ondas do mar
por mim passa de corrida.
Na ausência do meu quarto
no silêncio desta cama
nas palavras que me gritas
entre sombras aflitas
está a dor de quem te ama.
Ponho os olhos no teu corpo
é um sonho, não me iludo,
tantas horas paradas
em palavras esmagadas
que me deixam quase mudo.
Ai meu Amor -
Se o partir for
como te amar
ai meu amor
não me deixes abalar!
Se o morrer for
como adormecer
ai meu amor
como eu quero morrer!
E se o viver for
como acordar
ai meu amor
eu não quero voltar!
Não vale a pena amar Ninguém -
Não vale a pena amar ninguém
porque ninguém nos ama a nós
quando afinal se ama alguém
ficamos sempre mais sós.
Quando damos o que temos
a quem por nós não sente nada
até da vida nos perdemos
na solidão de qualquer estrada.
Que importa morrer de amor
quando damos o que temos?!
Ficamos presos numa dor
e onde vamos não sabemos ...
E passa a noite e a madrugada
recordando os olhos de alguém
esse alguém que não sente nada
não vale a pena amar ninguém!
Campo de Batalha -
Sou um campo de batalha
onde a contenda é travada
e o meu corpo é a mortalha
de uma guerra inacabada!
Um sou eu desde que nasci
com um peso sem idade
outro o Poeta que recebi
e me castra a liberdade!
Dois que em não se entendiam
num confronto imortal
dois que em mim não percebiam
o quanto o corpo era mortal!
E como a lava de um vulcão
ou a cinza da lareira
resta nada e solidão
junto à minha cabeceira!
Saudade que Agito -
Foste embora e morri
dia a dia não te vi
que triste é a nossa vida;
e na saudade que agito
a minh'Alma num grito
pede à vida outra vida!
Mas este canto na voz
não me deixa ficar a sós
e vai falando de ti;
coração do meu coração
que me grita em solidão
no mais calado de mim!
Nos poemas que cantei
quantas horas te esperei
só eu sei o que sofri;
contra ti e contra a vida
contra a dor da despedida
foste embora e morri!
Cama Vazia -
Quando os corpos se penetram
mas as Almas não se encontram
os corações, no peito, choram
e os olhos não se enxergam.
Quando as Almas não se enleiam
nesse instante de paixão
só há silencio e solidão
e até sentem que se odeiam.
Que a paixão é um caminho
mas não chega, sem amor,
cada um fica sózinho
em lençóis de linho e dor.
E a cama fica fria
mais fria fica a vida
fica a Alma em vão despida
em cada cama vazia.
No meu Corpo há um lugar -
No meu corpo há um lugar
onde alegrias se aninharam
onde amores se encontraram
onde esperei o teu olhar.
E na loucura de te encontrar
dei o corpo a tantos cantos
chorei dores, chorei prantos
na distância o teu olhar.
Cortei os pulsos ao Sol-posto
não me lembro de o fazer
só me lembro de te ver
a palidez, rubra, no rosto.
Mas um dia quis morrer
na minha cama d'ilusão
e dei meu corpo à solidão
morri cansado de sofrer.
A Morte -
A morte é um campo de alfazema e alecrim,
um canteiro d'açucenas, rosas brancas,
traz um cheiro de malvasia e jasmim,
pairando triste de amargura, sobre as campas!
A morte é um anjo que esvoaça pelos Céus,
é um lírio, é um grito de vingança,
é a porta que nos leva um dia a Deus,
o silencio d'um adulto ou um choro de criança!
A morte é o claustro denso d'um convento,
a tela d'um pintor, pintada ou em branco,
o espaço que viaja, cada átomo do tempo,
é a pauta que se lê e dá suporte ao canto!
A morte é apenas o silencio da passagem,
destino que nos espera, ali, mais adiante,
todos a seu tempo, não é miragem,
verdade que nos despe, mais perto ou mais distante!
Por Instantes -
No meu corpo, por instantes,
visto as dores de quem vive
num doer que é constante
por um amor que nunca tive.
Bailam dores nos meus olhos
como as flores pelo vento
como espadas e abrolhos
baila em mim o pensamento.
E bailas tu no meu cansaço
baila a vida e a saudade
no vazio do meu regaço
bailo eu com a cidade.
E verás, quando algum dia,
tu souberes que eu parti
como até na terra fria
esperarei, amor, por ti ...
Numa Pátria de Poetas Desterrados -
Numa Pátria de Poetas desterrados
só se vê deambular gente proscrita
corpos frios em pedra funda,
voz dorida, cor do fado,
assim vivem tantas vidas ...
Eu lamento ser desterrado
também eu gente proscrita
minha cruz é pedra funda
minha voz calou o fado
e até minh'Alma está perdida ...
Dizem que a vida não acaba!
Que é eterna e não tem fim!
Mas que mentira tão piedosa!
Pois há gente que nos mata
com palavras, de uma forma fabulosa...
É solene o meu cansaço
é pesado o meu lamento
dou à vida o que não tenho
pois no peso do que faço
está a morte de onde venho ...
Estou de Volta -
Estou de volta!
Não sei se alguma vez parti ...
Estou de volta!
Fui amado, esquecido, fugi ...
Estou de volta!
No silencio das tardes
transparentes que perdi ...
Estou de volta!
Nem sei o que senti ...
Entre quatro paredes densas
numa eterna e profunda solidão,
estou de volta, mas morri!
Triste Fim -
Quando um dia a minha dor
já não for p'ra ti amor
um motivo p'ra pensar;
quero em ti adormecer
quero em ti poder morrer
digo adeus, parto a chorar!
Mas eu não posso partir
sem pensar no que há-de vir
lá longe dentro de mim;
é partir, é não te ver
nunca mais por ti sofrer
é p'ra nós um triste fim!
Numa tarde em que chovia
não era noite, era dia
alguém te disse que eu morri;
um do outro longe enfim
vais saber que mesmo assim
'inda espero, amor, por ti!
Quando Passo entre as Gentes -
Quando passo entre as gentes
essa gente que não sente
quanto dói meu coração;
sinto o peso do Passado
como alguém que é exilado
no silencio em solidão.
Quando passo entre as gentes
sinto em mim que novamente
me condenam sem ter fim;
eu sou eu e hei-de ser
nunca me vão entender
por ser eu por ser assim.
Não é fácil ser quem sou
eu nem sei porque me dou
a quem tão perto não me sente;
visto a cor da solidão
como a dor de uma prisão
quando passo entre as gentes.
O meu Corpo é um Navio -
O meu corpo é um navio
que se arrasta nas marés
pelos mares sem ter frio
à deriva sem ter Fé.
Os meus olhos dois lamentos
dois cansaços que me assaltam
dois martirios, dois tormentos
duas velas que se apagam.
Num caminho sem destino
dei-me à vida sem pensar
tantas dores no caminho
tanto espinho em meu olhar.
O meu corpo é um fado
que está preso à tua imagem
meu destino está marcado
teu amor é uma miragem.
Ontem -
Ontem a Morte que parecia só miragem
é hoje um campo de papoulas carmesim
é os passos de um romeiro em viagem
nos últimos dias que o encaminham para o fim.
Ontem a tristeza que parecia não ser nada
é hoje a roupa que carrego sobre o corpo
do silêncio que fica nas paredes desta casa
ou dos olhos que se fecham no teu rosto.
Ontem a vida que parecia tão real
é hoje um acto de vazio e contrição
é um eco de amargura, um eterno vendaval
porque o Ontem, afinal, já não volta à nossa mão.
Eu:
- ... dizes não me ver há muito tempo
pois eu esperava não te ver nunca mais!
P.S./ A uma quina do destino ao reencontrar fortuitamente alguém que dizia que me amava e partiu sem despedidas...
Fúria Lavrada -
Há dias que desejamos estar mortos!
Há noites em que choramos em vão!
Dizem que vivemos nos corpos ...
Mas da vida só vejo podridão.
Há horas que somos vermes sem casa!
Há segundos que sufocamos um grito!
Dizem que a vida não está gasta ...
É mentira! Eu não acredito.
Há gente qu'inda pensa em ser feliz!
Há outras que só estancam o sangue!
Sabem aquilo que a vida não diz ...
Vê-se nos olhos, seu rosto, exangue.
Há viúvas que choram seus mortos!
Há filhos que odeiam seus pais!
Há pais que sepultam seus corpos ...
Dão à terra, seus filhos, como animais.
Há dias em que o pranto seca na face!
Há noites que se ouve uma voz impiedosa!
Acredita-se em Deus como se isso bastasse...
Mas tudo termina em morte vagarosa.
Súplica Vã -
Quem me dera dormir e não acordar mais
nessas horas em que o sono me trespassa
quem me dera ser a causa dos teus ais
nessas noites, em que só, tu não me abraças.
Se tu soubesses meu amor, ai se tu soubesses
quanto espero ver ainda o teu olhar
não ias pela vida como quem esquece
que um dia nos amámos sem esperar.
Se eu pudesse meu amor, ai se eu pudesse
se eu pudesse ser um pranto em tua voz
chorava a noite que me dói e arrefece
quando longe o teu olhar me deixa só.
Se tu pudesses tocar o meu lamento
que se veste de loucura e solidão
este luto que me pesa, meu tormento
teria a cor das aves, brancas, ao serão.
Quando o Amor Acontece -
Quando o Amor nos acontece
damos à vida outra vida;
o coração o reconhece
e a vida até parece
não passar tão de fugida.
Quem não ama não entende
que o amor é coisa rara;
e ai de quem nunca pretende
numa estrada que se estende
dar à vida mais que nada.
Mas quem espera sempre alcança
vai-se a dor e o quebranto;
e ai dos olhos de quem ama
quando o nosso nome chama
traz um brilho no encanto.
Quando a vida até parece
ser eterna despedida;
eis que alguém nos aparece
eis que o amor nos acontece
damos à vida outra vida.
Eu tenho um Fado -
Eu tenho um fado na mão
tua culpa, meu pecado
mas não te peço perdão
por me dar assim ao fado.
Eu tenho um fado na mão
tua culpa, meu pecado.
Eu tenho um fado na voz
que se amarra no teu Seio
agora estamos mais sós
amor que foi e não veio.
Eu tenho um fado na voz
que se amarra no teu Seio.
Eu tenho um fado no peito
que só canto por te amar
meu corpo, ferido, no leito
'inda espera o teu olhar.
Eu tenho um fado no peito
que só canto por te amar.
Eu tenho um fado na Alma
que é dolencia e solidão
um fado que não me acalma
e que me rasga o coração.
Eu tenho um fado na Alma
que é dolencia e solidão.
Pão -
Há tantos barcos ancorados
no cais de uma paixão
tantos olhos rejeitados
na raiz de um coração.
Há tantos corpos mutilados
que procuram salvação
tantos Homens aninhados
em lençóis de solidão.
Há tantos olhos enganados
sem porquê nem razão
vivem dias parados
trazem mágoas na mão.
Há tantos gestos de culpados
que se culpam sem razão
na verdade há muitos lados
p'ra quem precisa de pão.
4 Letras -
Quatro letras me recordam o amor
embaladas no meu corpo de paixão
quatro pétalas caídas tem a flor
esperando ter ainda uma afeição.
Quatro dores se me dão à despedida
quatro zangas me separam desse amor
quatro mastros nos são dados pela vida
tantos sonhos numa barca além da dor.
Quatro Povos nos deram solidão
quando a vida amanheceu e começou
quatro vozes nos sangraram o coração
mal o fado p'las vielas se espalhou.
São quatro esses lamentos qu'inda canto
pelas noites que me abraçam ao serão
são quatro as minhas culpas que levanto
na tristeza dos meus versos d'ilusão.
Um Tempo -
E o Tempo pára-me por dentro!
E o Tempo pára-me por fora!
E há em mim um Tempo cadente,
há em mim um Tempo Passado,
sem vida nem encanto
de mim esquecido, perdido, calado!
E o Tempo finge não ser Tempo!
E o Tempo deseja não ser Tempo!
E há por mim alguém que grita,
há alguém na minha cama,
um lamento que se alinha, que se agita,
conforme agita a voz de quem me chama!