Amargura -
Ai de mim que estou cansado
de viver além da vida
eu nasci p'ra dar ao fado
tanta amargura perdida.
Eu vivi sem ter nascido
porque o mundo não me quis
vou morrer sem ter vivido
e que mal à vida fiz?!
Os teus olhos não são mais
que uma faca de dois gumes
dois silêncios, dois punhais
ao sabor dos teus ciúmes.
Os meus versos são herança
p'ra deixar a quem se esquece
que afinal até a esperança
já não resta a quem padece.
A Vida é mentira -
Tenho o corpo cansado
tenho os olhos despidos
trago o rosto molhado
tantos sonhos perdidos.
Trago o peito vazio
trago sangue e solidão
trago sede, trago frio
por sentir esta paixão.
E trago nada na mão
por nada ter junto a mim
já nem sinto o coração
talvez seja o meu fim.
E porque a vida é vazia,
tudo dá e tudo tira,
num impulso despi-a,
porque a vida é mentira.
Sou Cadáver -
Sou cadáver de um Poeta
a quem parou o coração,
sem ter nada, sem ter meta,
a caminho da solidão.
Sou cadáver de mim mesmo
sem vontade nem opção
e as palavras que escrevemos
nunca hão-de ter razão.
Porque os mortos já não dormem
os mortos já não sonham
aos cadáveres já não doem
aqueles que os não amam.
E aqui estou sem querer estar
só já vivo p'ro que der
e a quem me quer consolar
digo sempre, sou cadáver.
Pesares -
São tantos os pesares que a vida dá
que, não há quem, sobre a terra permaneça
agarrado à saudade! Também ela passará
quando a memória de nós se desvaneça!
Porque a saudade come à mesa da memória
e a memória alimenta-se da vida
e a vida dá lugar à nossa história
e a nossa história, um dia, será tolhida!
E só a morte nos salvará
deste mundo injusto e infiel
onde nada, além do escuro, nos tocará!
A vida é amante do vazio, mãe da solidão,
neta do cansaço com um toque de cruel,
gerada por quem, nunca teve um coração!
Cama de Linho -
O teu corpo é um grito
que está longe do meu leito;
e a minha cama calada
com barras feitas de nada
procura em mim o teu jeito.
O meu corpo é noite escura
sem o toque da tua mão;
e a minha boca fechada
e a minh'Alma cansada
de solidão em solidão.
E o que trago ou não trago
ponha Deus no meu caminho;
peço ao destino outra vida
e peço à Morte guarida
na minha cama de linho.
Velhos Sinos de Santo Antão - Évora -
Há lamentos à deriva pelos montes
como nuvens que passam pelo Céu
solidão como água pelas fontes
e alegrias que o destino não me deu!
Não há regaço onde me chegue nem acoite
nem capa que me possa agasalhar
visto roupa carregada pela noite
e dores carregadas de luar!
Ó velhos sinos de Santo Antão,
por quem dobram, quem morreu?!
Foi a dor da solidão
que no meu peito apodreceu!
Morreu, morreu, morreu! Não partiu!
'Inda vive, triste, nos meus olhos ...
Todos choram, ninguém viu,
que de mim pende como folhos!
Nos olhos do meu rosto
sede rápidos a beber
e levai a ombros o meu corpo
quando eu da vida me perder!
Ó velhos sinos de Santo Antão,
por quem dobram, quem morreu?!
Quem vai no pinho desse caixão,
quem vai nele para o Céu?!
Alguém que um dia já viveu,
alguém que um dia foi alguém
que estava vivo e que morreu
e que agora é ninguém!
Pela Praça vai passando,
no ataúde, um coração,
por quem dobram sem descanso
os Velhos Sinos de Santo Antão!
Coração Cansado -
Meu coração está cansado
tão cansado de te amar ...
Só quer estar a teu lado
até a vida terminar!
Mas há um grito abandonado
na solidão do meu olhar,
o meu coração, coitado,
está cansado de te amar!
E era tarde, noite morta,
eu ainda não dormia,
alguém bateu à minha porta ...
Era um rosto de esperança ...
O teu corpo de Poesia,
o teu jeito de criança ...
Faltas -
Porque há dias que não se repetem
porque há faltas que não se perdoam
há erros que não se cometem
e palavras que não se entoam!
Porque é que nunca mais são horas?!
Horas de quê?! De qualquer coisa!
Se te atrasas, se te demoras,
o silencio da morte já me poisa ...
Estar vivo é não saber que se vive!
E eu? Perante mim todos tremem!
Se tou vivo - vivi!- se tou morto - já estive!
Em mim os sonhos não ressoam ...
Porque há dias que não se repetem
e há faltas que não se perdoam!
Cegamente -
Se os meus olhos não te vêem
como vêem toda a gente
desta vida nada têem
hão-de amar-te cegamente!
Ao viver não sei por quem
fui cegando pouco a pouco
fui mais cego que ninguém
ao amar-te como um louco!
E a minh'Alma fez-se cega
como um cego que não vê
tanto tempo à tua espera
à espera não sei de quê!
E em cada madrugada
já não dói o teu desdém
se eu p'ra ti não fui nada
tu p'ra mim não é ninguém!
Inscripção aos Vivos -
Dos Mortos:
Nós Mortos enterrados
neste chão feito de pó
já tivemos um passado
fomos vivos como vós!
Já fizemos da vaidade
certo grito moribundo
mas talvez a eternidade
seja mais que um triste mundo!
Aonde vais ó caminhante
aonde vais tão apressado
não prossigas mais avante
também tu estás condenado!
Por aí tantos passaram
foram muitos, tanta gente
só à Morte se aninharam
nenhum ficou lá para sempre!
Parece longe a vossa Morte
tambem a nossa parecia
num instante vai-se a sorte
e lá morrem qualquer dia!
Mas acreditem que morrer
não é tão mau como se diz
é mais simples que viver
à deriva por aí!
Nós Mortos que aqui estamos
neste pó em solidão,
por vós, vivos, esperamos,
algum dia neste chão!
(No cemitério de Évora)
Busto de Celeste -
Ó Celeste que nasceste ao Sol-poente
por caminhos, estradas ermas a cantar,
quero ouvir um fado na tua voz ardente
que me leve pela vida a pairar!
Canta um Fado ao Sol-nascente!
Tua vida é um poema à beira-mar,
teu olhar é uma seara reluzente
e teu rosto traz a formosura do luar!
Levas no olhar a presença dos Poetas,
como o Sol que tomba, sempre, junto ao mar
ou as rosas que espalham mil matizes pelo ar!
Canta Rosa-Branca esse canto de Profetas
que a tua voz dissipa a tristeza mais agreste
e dá ao Sol-nascente aquela força que nos deste!
(Para Celeste Rodrigues)
Os olhos frios de meu pai -
Meus olhos doem ao lembrar
alguém em mim que nunca vai
só lembram a naufragar
os olhos frios de meu Pai!
Que lembrança maldita
que tenaz crueldade
a minh'Alma despida
sofreu de tenra idade!
Passa a Vida, passa o tempo
o destino e a saudade
só não passa o sentimento
dos seus olhos de maldade!
Se em meus olhos não há água
porque fica e nunca vai
a dor daquela mágoa
dos olhos frios de meu Pai!
Coração Real -
Foi sonho ou realidade?
E que diferença há?! ...
A realidade também passa,
e, quando passa,
parece que foi sonho.
O sonho quando está,
parece tão real que,
quando passa,
põe em causa a própria
realidade ...
Afinal, a realidade,
é apenas aquilo que está
no coração ...
Medo -
Por um inferno de medo
caminho só e absorto
e nem o quarto ou o leito
já me guardam o corpo!
Não há palavras de alento
não há carinhos de mãe
não há feridas que o tempo
não lamente também!
Somos dois mundos perdidos
duas almas desiguais
dois sonhos esquecidos
que não se viram nunca mais!
Realidades tão distintas
verdades tão cruéis
não peço que tu as sintas
apenas quero que as guardeis!
Na minha cama de rendas
de brocados e cetins
'inda espero que tu venhas,
de noite, ao toque dos clarins!
Mas tenho medo de esperar
tenho medo que não venhas
tenho medo de pensar
que de mim já nada tenhas!
Esta certeza que tenho
cresce-me à noite no peito
e eis que parto e não venho
desse inferno de medo!
Esta Vida de Deus -
Deu-me Deus esta vida que não quero!
Um coração que se perde em ilusões
enleado numa teia de solidões,
que não quero, não desejo, nem tolero.
Deu-me a Vida, um Deus, em que já não tenho Fé!
E p'ra quê acreditar nos Evangelhos?! ...
Passa o Tempo! E porque faz de nós tão velhos?!
É a vida tal qual aquilo que ela é! ...
Estou perdido, agora tudo é vão,
minha dor, este silencio, tudo calado ...
Eu sou filho d'um desígnio do pecado!
Mas, porém, que pecado foi o meu?!
Onde errei? Porque me fere o coração?!
Porque me deu Deus esta vida que me deu?!
Cinismo -
Foi na Praça do Geraldo
que uma Moça se perdeu
encontrou o seu Amado
e aos encantos não cedeu!
Era pobre o tal Amado,
Ela rica, assim se diz,
contra aquele pobre coitado,
Porcos, Barahonas, Cordovis!
Não insistas nesse amor
não importa quanto andes
esta gente só traz dor
Cabras, Noronhas e Fernandes!
Até o Padre da Paróquia
que mal sabia d'zer o terço
vem à Praça fazer troça
do rapaz que não tem berço!
A Moça que era esperta
disse a Todos que era Crente
e mal viu a Porta aberta
fugiu logo desta Gente!
Pretensiosos Sociais
levam tanta rabecada
mas ficam sempre iguais
parece que não foi nada!
Há-de a história repetir-se
não haver a quem acudam
das bocas há-de ouvir-se
só os Nomes é que mudam!
Vivemos dia-a-dia debaixo do Céu
e em cima da Terra, porém, quando morrermos,
o nosso corpo irá para debaixo da Terra
e a nossa Alma para cima do Céu!
As cicatrizes da Vida só mostram quem fomos
e de onde viemos, não o que somos nem para
onde iremos ...
Um Grito -
Os meus versos são um grito
no rumor do sofrimento
como as ondas mar revolto
são um grito, um grito solto
para lá do pensamento!
Os meus versos são o resto
o que fica desse grito
quando vejo que perdi
um amor que não vivi
para lá do infinito!
Os meus versos são o berço
da saudade em que me agito
do que fui e já não sou
do que dei e já não dou
os meus versos são um grito!
Eis-me -
Num acesso de loucura
vim à vida sem vontade
sempre cheio de amargura
sempre cheio de saudade.
Cansado como a noite
cheio de noite e solidão
sem um colo onde me acoite
levo o silencio na mão.
Ai que tristeza contida
ai que martírio maior
ai é tão longa esta vida
cheia de dias sem cor.
Ai veneno que me deste
ai que silencio de morto
ai solidão tão agreste
que me corre no corpo.
Tanta gente perdida
tanta boca fechada
tanta gente despida
tanta Alma calada.
Adeus vida que me foge
sem nunca me ter tocado
venha a morte que me toque
e me possua em pecado.
Ai se eu pudesse morrer
com a luz do teu olhar
eu voltaria a nascer
só p'ra voltar a te amar.
Visão Errada -
Eu sou a visão errada que há de mim
carregada de silencio e de saudade,
solidão que desde o berço não tem fim
no quarto da minha fria claridade.
Eu ando na vida como nasci - Nu!
Nu de sentimentos! Nu de afectos!
E alguém me escuta?! Sim, talvez tu,
tão longe dos meus sonhos quietos.
Tudo muda ... passa a vida tão depressa ...
... passas tu e passo eu ... cansado ...
... se me escutas - meu amor - regressa.
Já disse adeus, adeus a tanta gente
- tantos corpos que eu amei - Passado -
mas meus olhos, vão querer-te para sempre!
Só -
Ai esta saudade de mim
cautelosa e serena
esta loucura sem fim
que me enche de pena!
Ai solidão desmedida
que ninguém pode tocar
este estar SÓ na vida
que ninguém pode acompanhar!
Ai esta noite sem Lua
este saber que me perdi
este arrastar pela rua
esta carência de ti!
Ai este silencio vazio
este sofrer no caminho
estas dores do frio
que me deu o destino!
Verdades Cruéis -
Em noites triste, caladas,
quando a vida parece morta,
há silêncios pela estrada
e ninguém bate à minha porta!
Em dias floridos, com vento,
passam flores a cismar,
passa a vida, passa o tempo
e até me canso de esperar!
E eu triste vou também
com minha dor a pesar,
vai a vida a morte vem
à minha porta a chegar ...