No céu da minha noite -
No céu da minha noite as estrelas já não brilham!
No mar do teu silêncio os barcos estão parados!
A música não soa, os Homens não partilham
os desejos nem os sonhos, e os olhos estão cansados.
E não há palavras que descrevam este suplício!
Não há angústia maior do que não termos quem nos ame!
Porque estará a vida rodeada de tal bulício?!
De não termos no destino ninguém que por nós chame?!
Que o dia em que vim ao mundo seja posto em escuridão,
cheio de nuvens, que se oiçam gritos de viúvas
e agonias vestidas d'uma imensa solidão!
Que ao largo dos meus olhos as lágrimas se agitam
e agitam-se dores pela estrada, tantas curvas,
pois no céu da minha noite as estrelas já não brilham!
Poentes encalhados -
Se um dia o meu destino se encontrar
com o amor, se um dia, por ventura,
alguém disser que me quer amar,
hei-de abandonar esta amargura.
Se me derem desse cálice a beber,
a prisão dos meus sentidos cessará,
e, por fim, o mundo inteiro irá ver
que um Poeta d'outra estirpe nascerá.
E deixarei p'ra sempre de me queixar
hei-de dar às rosas os meus olhos
e no jardim dessa promessa caminhar.
E hei-de amar os Poentes Encalhados,
hei-de repousar nas sombras, entre folhos,
e dar meu corpo ao silêncio d'outro Fado.
Saudade entreaberta -
Eu sou a vontade de Ser que não se encontra!
Sou o grito de revolta, a saudade entreaberta,
sou a noite, o dia que se levanta
na Sintra que se ergue e me desperta!
Eu sou a manhã de nevoeiro densa e baça!
A tristeza de uma mãe que se lamenta!
Sou no corpo um silêncio que me abraça!
Um pássaro no céu em rota lenta!
E há sonhos nos meus olhos de mãos dadas,
verdades por dizer, estrelas por brilhar!
Há lágrimas no meu rosto em vão cansadas.
Eu sou o verso d'um poeta solitário!
Um nocturno de Chopin que toca sem parar,
frente ao Cristo, no cimo do Calvário ...
Mãe -
Se escutasses este fado
minha mãe a esta hora
esse teu olhar cansado
não teria ido embora.
Tu partiste e eu perdi
teu regaço doce e quente
minha mãe quanto eu sofri
ao partires para sempre.
Esse teu último olhar
foi p'ra mim último beijo
minha mãe vi-te a chorar
numa ânsia, num desejo.
Minha mãe, ó minha mãe
se na vida tudo passa
por que não passa também
esta dor que ainda me abraça.
Sina -
Na minha boca há um grito
que é feito do teu silêncio
nem sei amor o que sinto
se a noite vem em segredo
como uma onda que agito.
Nas asas brancas do vento
não há vida nem morte
que o nosso amor não tem tempo
pois sinto que a nossa sorte
é filha do sofrimento.
E como uma rota traçada
tracei a sina na mão
esperei tanta madrugada
vesti tanta solidão
de ti não tive mais nada.
A solidão da Virgem -
E eis que lá no cimo daquele monte
há um Espirito magoado que me seduz,
um olhar triste, bem de fronte,
mirando o filho, morto, numa cruz!
Uma Virgem de preto guarnecida,
de mãos postas, fixas, junto ao ventre,
entre um séquito de sombras, sem vida,
no rosto, uma mágoa permanente!
Estranho quadro se alevanta no Calvário!
O Filho de uma Mãe condenado por amor
e a Mãe do Filho enrolada num Sudário.
Quando chego enfim ao Lugar de tanta dor
onde a esperança parecia arrebatada
vejo no peito de Maria a Prata d'uma Espada!
Cruz -
Tenho numa cómoda em casa
um Cristo sofredor pregado numa cruz
quem chega, fica arrepiado, não diz nada,
ao ver ali aquela imagem à contraluz!
Estendido num "madeiro de pau santo"
a cabeça reclinada sobre o peito,
semeia nos olhares dor e espanto
quando fixam o seu corpo em vão desfeito!
Que tristeza ver seus olhos enevoados,
parece que o não quiseram matar logo
p'ra morrer antes, vendo os nossos pecados!
E um fio de sangue lhe escorre pelo rosto!
Na minha casa há um Cristo cego e louco
morrendo, há mais de dois mil anos, pouco a pouco.
Do teu silêncio -
Na verdade o teu silêncio 'inda me acusa
como a orla da manhã de Nevoeiro ...
Tudo em ti parece um grito de recusa,
nada do que trago, em mim, parece inteiro!
E o que há em nós de tão diferente do que foi?!
Diz-me p'ra que se acabe para sempre o meu penar ...
O porquê de já não sentires quanto me dói
o abandono a que votaste o meu olhar?!
Tudo agora é silencio, angustia e solidão!
Nada mais do que esperança de te ver junto a mim,
tão longe, como tu, do meu pobre coração!
O que está perto é não saber quando te vejo!
Não saber se o teu afastamento é um fim
ou se torno a sentir na minha boca o teu beijo.
O Silêncio do Papa -
Que momento tão doce
Que instante profundo
Que alegria nos trouxe
Aquele +Homem do Mundo.
Tanta gente perdida
Que na vida sofreu
Tanta esperança caída
Que da vida se perdeu.
Tantos olhos sem miragem
Tanto grito magoado
Que ao ver aquela Imagem,
Ali, ficou abandonado.
Emudeceu a garganta
Foi Presente o Passado
Frente à Virgem Santa
O Mundo ficou parado.
E aos Pés de Maria
Onde nada é Novo
Um gesto de Amor
Um +Papa do Povo.
Vida Suspensa -
Há uma voz de espuma e sangue
a gritar dentro de mim
nesta hora apetecida!
É a espuma d'um silêncio
é a fome d'um Poeta
uma esperança concebida ...
Sou meu próprio sofrimento
sou ausência integral
rasgando gestos de perdão
e cada sonho que persigo
na ilusão do alcançar
é um sonho diluído!
Eu sou a vida suspensa
sou a verdade calada
num bater d'asas caídas
p'ra que a vida renasça
na manhã clara do dia
que a mim nunca me abraça!
E já não oiço aquela voz
aquela musica triste
um quase vento no rosto
aquela angustia cansada
uma sombra crescendo, e outra
na minh'Alma parada!
Silêncios Negros -
Se a minh'Alma fosse vista a olho nú
que viriam os olhos que me vissem?!
Nada mais que cicatrizes indiscretas
no plaino abandonado que atraíssem ...
Lírios de um roxo macerado e triste
plantados ao sabor das dores que vivi
silêncios negros de tantas horas vãs
embebidos naqueles sonhos que perdi!
E uma infinita tristeza viriam
os olhos dos gentios que me vissem
se vissem p'ra lá dos lábios que sorriem...
E quando a custo um sonho me desponte,
sinto a velha Esperança que senti, de ser feliz,
mas nada acontece, no meu velho horizonte!
Pesadelo -
Por momentos julguei sentir o eco dos teus passos por entre o silencio da horas inquietas! Julguei sentir a culpa das palavras que não disse, dos momentos que perdi e dos instantes de saudade. Por momentos desejei que fosses tu, caminhando para mim como um Sol d'Inverno ...
Mas os teus passos vinham sobre a noite opaca e triste ... mesmo assim ... desejei que fosses tu!
E tudo terminou à hora do Sol-pôr ...
Meus olhos, na distância, na miragem, cheios de água e solidão, encheram-se de silencio e desenharam no horizonte das tardes quentes d'Agosto, um não sei quê de poesia ...
Ah! Que ninguém venha pedir-me "que razões!" O porquê de amar alguém que não nos quer?! Não sei! Não sei! As razões, essas, transcendem-me, ultrapassam-me os sentidos ...
E há bocados de sonhos despedaçados, caídos na noite, sem fim! E tudo está gasto! Menos a dor que me atravessa nesta hora e que me deixa estático, parado a meio tempo, como se fora o principio de tudo ou o fim de qualquer coisa ...
E não peçam que me cale! É impossível ficar aqui - no silêncio! Estou farto de sombras mudas - mortas! O amanhã não existe mas é teu ...
A noite cobriu meu ser de um mar de trevas e o Pesadelo aconteceu ... o silêncio apodreceu nas minhas veias e um punhal trespassou a minha Alma!
Outros dias virão! Adeus!
Évora tão perto -
À quina do Geraldo
na Praça dos Poetas
situa-se a Igreja de Santo Antão!
A Fonte e as Arcadas,
as calçadas tortuosas,
tudo cheira a solidão ...
E há pombos nos beirais
que voam de mão em mão,
há esplanadas soluçantes
que dão assento por ali,
ao corpo, ao coração,
ao cansaço dos passantes ...
E cai o Sol sobre a Igreja!
Entardecer meigo e doce
nesta terra de suavidade ...
E ninguém leva o que trouxe
pois na Praça da cidade
nada é como se fosse!
E seja sonho ou realidade
há magia ao Luar
quando desce a luz da Lua
e passe quem passar
sentirá quanta saudade
há nas pedras pela rua.
É que aqui parou o tempo!
Cada rua é um deserto
cada canto uma demora
e o desejo é imenso
pois quem tem Évora tão perto
nunca mais quer ir embora ...
É Mentira -
É Mentira! É Mentira!
Tu não gostas de mim.
É Mentira! É Mentira!
Adeus que é o fim ...
É Mentira! É Mentira!
Os teus olhos são punhais.
É Mentira! É Mentira!
São a base dos meus ais ...
É Mentira! É Mentira!
Nunca foste uma verdade.
É Mentira! É Mentira!
Já nem sei o que é saudade ...
É Mentira! É Mentira!
Adeus já não te quero.
É Mentira! É Mentira!
Não te amo nem tolero ...
Caso perdido -
Hoje calei os gritos que trazia
à solta no eco do meu coração,
e não sei, mas sinto que me prendia
um não sei quê cheio de dor e solidão!
É em mim a dor de todos os Poetas,
amargura, silêncio, mágoa e saudade,
e não me alembro de querer este destino
que me prende a outro tempo sem idade!
As trevas d'onde vim gritam-me ao ouvido ...
Matei todos os Sonhos! Sepultei a meninice
pois nunca deixarei de ser um ser perdido!
Não fui nada porque a vida não deixou!
"- O teu destino é assim!" Alguém o disse.
E o que sobra, agora, é nem saber aonde vou ...
Amo o que não vejo -
Amo tudo o que não amo!
Por mim, por todos, por nenhum ...
E amo a vida que renego
por não me dar amor algum!
Amo a bandeira do Poeta
e o lodo que o enreda
e até amo o canto rubro
que o prende e não liberta!
Tudo é vago! Estéril como eu!
Vem a dor ... começa ... não tem fim ...
Quem me deixou descarnado e nú
num espaço oco entre ti e mim?!
É a hora crepuscular!
Entardecer sonâmbulo ...
E eis que em todos os relógios,
de repente, pára o pêndulo!
Contemplo tudo o que não amo!
E amo tudo o que não vejo!
Há nomes que já não chamo
mas há bocas qu'inda beijo ...
Ser teus pés -
Senhor! Estou perdido nestas horas
incertas que me deste ...
Enlouqueço cada canto do meu corpo,
perco-me de ti e dos sonhos que já tive!
Porque os tive não os tenho
e os que tenho, agora, são tristes,
flácidos e amargos.
Estou partido! Estou disperso!
Há correntes que me prendem ...
Diz-me Senhor se sou digno de ser teus pés!
Diz-me se sou digno de ser teus passos!
Se posso, ao menos, carregar a tua cruz ...
Se eu nascesse amanhã -
Se eu nascesse amanhã, talvez minha vida
não fosse tombada, inútil e vã,
e meu olhar, ao ritmo do amor, brilhasse,
se afinal eu nascesse amanhã!
A saudade é o grito de quem parte,
de quem fica, o grito, é solidão ...
Mas se afinal eu nascesse amanhã
teria a dor que tenho no meu coração?!
De que seriam feitos os meus passos?!
Teria a mesma infância - triste e órfã?!
Por certo, seria tudo tão diferente,
se afinal eu nascesse amanhã!
Não me conheço! Nem sei quem sou!
O silencio faz de mim loucura sã
e mais não posso ser do que viver só
nesta dor de não nascer amanhã ...
Voz p'ra cantar -
Talvez Deus soubesse bem
ao dar-me voz p'ra cantar
que no cantar ponho também
o meu destino a soluçar.
E os tormentos que me afectam
hei-de canta-los um a um
entre os olhos que me enjeitam
sinto os teus e mais nenhuns.
sinto a noite, a madrugada
numa cama sem segredos
não há sonhos, não há nada
no meu peito só há medos.
E p'ra sempre hei-de cantar
já não quero o que passou
nada temos p'ra falar
entre nós tudo acabou.
P'ra lá do mar -
Eu nasci p'ra lá do mar
onde a morte tem lugar
e a vida não se vê;
como a água está na fonte
há em mim um horizonte
cheio de sombras e porquês!
O porquê de eu ser assim
um tormento sem ter fim
uma vida sem Destino;
como um barco sai do cais
e à mercê dos temporais
perde os sonhos no caminho!
O porquê de eu não amar
o porquê de eu só chorar
desde a hora em que nasci;
na viagem que é a vida
fui bailando à deriva
tantas vezes me perdi!
Porque trago este destino
cheio de sombras no caminho
cheio de noites a nascer;
eu vivi p'ra lá do mar
onde a morte tem lugar
e tanta vida há por viver!
Não leves a mal -
Não leves a mal, meu amor,
a tristeza que ponho nos versos,
não é mais do que toda a dor
a do aroma dos cravos
que deixaram teus beijos...
Não leves a mal, meu amor!
Não leves a mal, meu amor,
mas o meu amor arrefeceu
cai chuva do Céu sem cor
e não se define o que morreu
tudo em nós só fala em adeus ...
Não leves a mal, meu amor!
Não leves a mal, meu amor,
mas o que era já não é
e o que foi não tem sabor
só me alembra a noite fria
em que em ti perdi a Fé ...
Não leves a mal, meu amor!
Outro amor -
Tu foste mentira
Não menos verdade
Mas não era de mim
Que tinhas saudade.
Tiveste saudade
d'Alguém que não eu
Por isso é verdade
Nosso amor morreu.
E morreu o que fomos
Diante do povo
Ser o que somos
É sermos de novo.
E o povo só viu
Que secou uma flor
P'la dor que sentiu
Nasceu outro amor ...
Breve -
Nos meus olhos não há vida!
Criança fechada
de sonho em sonho
de sonhar calada ...
Grito por dentro
tudo me prende
saudade das rosas
que levou o vento!
Que sabor agreste ...
Corpo inútil, sem empenho.
Está frio!
Morte breve!
Fosse o que fosse -
Fosse o que fosse não era tédio
Nas asas loucas do vento
Uma dor sem ter remédio
Um desejo ou um lamento.
Fosse o que fosse não eras tudo
Temos agora a mão fechada
Na verdade não me iludo
Eras tudo sem ser nada.
Fosse o que fosse o coração
Era mais que a dor sentida
E do tédio à solidão
Damos mais sentido à vida.
E afinal este desgosto
Nem uma lágrima me trouxe
Estava em pé mas estava morto
Fosse lá isso o que fosse.