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Frases de Ricardo Maria Louro

1.100 frases

⁠Sou Eu - Há um muro de silêncio entre nós, é a hora em que a terra já não gira,
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⁠Sou Eu - Há um muro de silêncio entre nós, é a hora em que a terra já não gira, tu e eu, dois corações tão sós, corpo de promessa, olhos de mentira. Sou eu, esta voz de quem te ama, no olhar, na solidão, perdida, sou eu, sou aquele que te chama, neste corpo que arrefece, sem vida. És tu, o meu grito de revolta, a minha esperança no amor, tão longe, meu barco sem destino, sem rota, pelo mar, sem fim, onde se esconde?! E oiço na noite a voz do impossível, e avanço devagar na luz que dorme, sou eu, num suspiro inesquecível, és tu, um terror que me consome.

Senhora da Graça - Num altar feito de pedra Está a Senhora da Graça
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Senhora da Graça - Num altar feito de pedra Está a Senhora da Graça Reluzente e majestosa; Seu olhar é como a hera Não se cansa e abraça Cada casa onde mora. Nesse altar de azul vestida Com um manto de cetim Com seu filho no regaço; Tal a graça concebida Que estando perto, frente a mim, Quase sinto que a abraço. Seu olhar sereno, é doce, É em nós timbre de mel Como o de uma Mãe real; Mas que graça à vida trouxe A Senhora tão afável Que quis ser Mãe de Portugal. Como um verso feito em prosa Como a noite que não medra Ou o tempo que não passa; Reluzente e majestosa Num altar feito de pedra Está a Senhora da Graça.

⁠O que mais gosto - Sobrancelhas como as tuas difícil é havê-las
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⁠O que mais gosto - Sobrancelhas como as tuas difícil é havê-las são laços de fitas pretas a prender duas estrelas. Os teus olhos cor da noite trazem Céus enluarados quando em noites pela rua são cantados como fados. As tuas mãos de silêncio trazem nos gestos dois fados são ninhos d'andorinhas a chilrear nos silvados. Teu passar inebriante espalha ternura no ar na tua voz trannsparece uma guitarra a trinar.

⁠Leme - Na rua do meu silêncio há um grito de saudade
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⁠Leme - Na rua do meu silêncio há um grito de saudade é como o Céu tão cinzento nos dias da tempestade. Quando sopra qualquer vento na minh'Alma há muita dor pois na raiz do pensamento sempre baila o nosso amor. E no cais de qualquer porto há sempre alguém que se demora bailam saudades no meu corpo como as dores de quem chora. Alguém chora e não agarra este meu sentir tão louco sou como um barco sem amarra que se afasta pouco a pouco.

⁠Barco antigo - No cais da minha saudade Atracou num barco antigo
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⁠Barco antigo - No cais da minha saudade Atracou num barco antigo Que julguei não ver jamais; Um amor de pouca idade Que o destino decepou Em agrestes temporais. A noite calou meu ser Senti perto dor e perigo Senti medo do passado; Era o medo de te ver Porque em mim nada mudou Só a voz neste meu fado. O barco chegou à praia Fez-se perto aquele grito Que deu voz ao alto mar; E na proa que desmaia Nesse barco que aportou Vi um braço a acenar. Nada trouxe de verdade Afinal estava perdido E nós ficámos iguais; Do cais da minha saudade Foi-se embora o barco antigo Que julguei não ver jamais.

⁠Oração à Senhora da Graça - Senhora da Graça Mãe dos desvalidos,
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⁠Oração à Senhora da Graça - Senhora da Graça Mãe dos desvalidos, dos sem esperança, caídos em busca de um caminho de Fé e confiança! Escuta a oração, a prece, a petição, que deixamos a teus pés neste instante de solidão. Senhora que não descansas que proteges as crianças no ninho do teu regaço, abençoa a nossa mágoa e alumia a escuridão que em tantas horas sem vida nos invade o coração. Deixamos a teus pés, Senhora da Graça, as dores e os cansaços, os medos e as tristezas, todos os sem fé, cada dor dos nossos Passos, quem nos ama e nos odeia. Tudo, Senhora, sobre o vosso altar, junto à vela que se ateia ao critério do vosso olhar! Senhora cheia de Graça, no teu encanto, no teu sorriso, o Olhar de Deus esvoaça e eu encontro um sentido! Meu porto! Meu amparo! Minha casa! Torna as nossas dores mais leves e o nosso acreditar com mais esperança. Senhora da Graça, lança sobre nós bençãos de amor, de paz e confiança!

"⁠S. Miguel" perdeu a espada - É mentira é mentira É mentira o que ela diz
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"⁠S. Miguel" perdeu a espada - É mentira é mentira É mentira o que ela diz Aldrabona, mentirosa Vê-se logo no nariz! Interessou-se por alguém Que eu não quis e não a quer Muito pura, muito casta Tinha fome, quis comer! Ai coitada, pobrezinha Foi p'ra Lagos e voltou S. Miguel como previsto Nem com um dedo lhe tocou! Ou o Santo perdeu a ponta Ou ela está desesperada ... Mas todos sabem na verdade Que o S. Miguel perdeu a Espada! Será que o Santo é maricas Ou a velha está usada?! Destas velhas, destes Santos É melhor não esperar nada ...

⁠Nã passes tã fria - Nã passes tã fria à minha igreja Que me dexas triste, sem acção,
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⁠Nã passes tã fria - Nã passes tã fria à minha igreja Que me dexas triste, sem acção, A conversa é forte, c'mas cerejas Vê lá se cais num cagalhão! Nã! Nã passes tã fria por alí Que assim até perdes a razão Anda, anda daí até aqui Talvez, 'inda tenhas salvação! Mas tu já não tens a salvação Nas costas tens uma marreca Só já te resta o cagalhão E uma vida de pileca!

⁠Olha - Olha o tempo que passou e nada aconteceu
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⁠Olha - Olha o tempo que passou e nada aconteceu vê a vida que voou no olhar de quem sofreu! Olha as vezes que disseste "este amor não é p'ra nós!" tantas coisas tu fizeste que p'ra sempre estamos sós! Olha a esperança que não veio que caiu em solidão no silêncio do teu seio no vazio de um coração! Tudo passa e arrefece até a dor de quem não fomos na verdade não se esquece do olhar de quem amámos!

⁠Cegos de Amargura - Às vezes procuramos o que temos na iminência de inventar felicidade
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⁠Cegos de Amargura - Às vezes procuramos o que temos na iminência de inventar felicidade e ali está, ao nosso lado, não a vemos, cegos de amargura e de saudade! Somos da História um filho do meio à procura d'um lugar que não é nosso procuramos o que temos, que já veio, vida que respiro mas não toco! É tão estranho estar vivo e parecer morto estar alegre e sentir uma tristeza que nos invade de lés-a-lés o corpo deixando a Alma revestida d'incerteza! Será loucura acreditar na felicidade?! Será a felicidade feita de loucura?! Nada existe sem um pouco de saudade porque a saudade é feita de ternura ...

⁠Perdas - Há silêncios magoados Que nos trazem solidões
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⁠Perdas - Há silêncios magoados Que nos trazem solidões Amarguras lado a lado Em par dos corações. E há olhares cansados E há vidas sem destino Tanta gente sem passado Tantas perdas no caminho. O que há eu já não sei O que sinto também não Porque a vida a que me dei Não passou de solidão. E ao viver de mão em mão Vivi silêncios magoados E a par do coração Amarguras lado a lado . Há verdades que ficam por dizer Olhares que falam sem falar Tanta coisa que fica por viver E a vida não pára de passar ...

⁠Praia Deserta - Naquela praia deserta deixei outrora um amor
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⁠Praia Deserta - Naquela praia deserta deixei outrora um amor e a solidão que me aperta veste o meu corpo de dor. Passou o tempo e a idade naquela praia deserta só não passou a saudade que no meu peito me aperta. O que ficou foi tão pouco que tudo em mim se consome gritei então como louco gritei ao vento o teu nome. Parti depois sem pensar da solidão que me aperta deixei meus olhos no mar daquela praia deserta.

Hão-de lembrar-se de mim - ⁠Hão-de lembrar-se de mim quando quiserem ver-me, e eu, volvidos tantos anos, estiver morto,
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Hão-de lembrar-se de mim - ⁠Hão-de lembrar-se de mim quando quiserem ver-me, e eu, volvidos tantos anos, estiver morto, hão-de lembrar-se de mim quando não poderem ter-me, porque a terra já desfez meu pobre corpo! Hão-de lembrar-se de mim ao verem nos meus versos amargura, tristeza, dor e solidão e hão-de sentir como traição dos vossos beijos um punhal profundo cravado no coração! Hão-de lembrar-se de mim, acreditem, ao ler-me, e sei que me lerão, porque já terei valor, "Rei morto, Rei posto!", todos me terão amor! Mas se afinal, em vida, ninguém pôde querer-me, vale a pena dar valor a quem chegou ao fim?! Quando as lágrimas correrem hão-de lembrar-se de mim.

⁠Única Razão - Na imensa tempestade do ser que sou há redemoinhos d'ilusões agrestes ...
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⁠Única Razão - Na imensa tempestade do ser que sou há redemoinhos d'ilusões agrestes ... Mas é este não saber aonde vou que me faz ser mais um entre Ciprestes! E há sombras de cedros por mim fora, de mim a mim, um não sei quê de solidão, chegar é a certeza d'ir embora procurando outro caminho p'ra razão! Razão?! Qual razão?! A única razão que me faz trazer de longe este sentir é não conhecer o meu próprio coração! E não reconheço os olhos de minha mãe, não reconheço os braços, que um dia, a sorrir, me deram, por destino, este caminho também!

⁠Filho do Passado - E há silêncios na rua do meu medo por entre as vagas ondas d'um Sol abrasador
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⁠Filho do Passado - E há silêncios na rua do meu medo por entre as vagas ondas d'um Sol abrasador e páira pelo ar o suspiro d'um segredo deixando em quem lá passa desamor. Sou na vida um deserdado sem esperança um filho do Passado só e triste Alguém que já perdeu a confiança numa vida que não vive, só resiste. Sou um filho da poesia, endiabrado, a pausa entre as notas que faz a melodia a memória d'um mendigo rejeitado que vai matando a vida dia a dia. Sou alguém qu'inda se lembra do ter sido uma culpa que não tem pai, bastarda, os olhos d'um desenganado, vencido ou até o Pranto de Maria Parda.

⁠Tem cuidado - Tem cuidado com quem diz gostar de ti! Muitas vezes é o tempo de criar
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⁠Tem cuidado - Tem cuidado com quem diz gostar de ti! Muitas vezes é o tempo de criar uma teia de mentiras aqui e ali deixando-te à mercê de bocas sujas a falar. Na verdade, de promessas está o inferno cheio, de gente que por lá perde a sua Alma, coitado de quem trái o bem alheio, será abandonado por quem ama ... E quem jura e rejura em falso, por seu mal, nesta vida pagará essa mentira, do inferno lhe há-de vir um catarral! Nada mais há a dizer do que obrigado! A roda do destino, não pára, sempre gira, por isso, meus amigos, tenham cuidado.

⁠Marafada - Lá vai ela p'la calçada vai tão bela e formosa
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⁠Marafada - Lá vai ela p'la calçada vai tão bela e formosa onde será a barracada dessa triste mentirosa! A cabeça está vazia nas mãos leva mentira no passar de cada dia mais parece a pomba-gira ... ... e gira ... gira ... gira ... tão rodada que ela é! É rodada a pomba-gira mesmo igual ao que ela é! Lá vai ela marafada p'ra lixar algum amigo lá vai ela endiabarada fujam todos, é perigo!

⁠Hei-de rir-me - Diz o povo e muito bem Quem vê caras não vê corações
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⁠Hei-de rir-me - Diz o povo e muito bem Quem vê caras não vê corações Mas o povo diz também Que se apanham os aldrabões. Quem vive alegre de traição Ou de promessas sobre os Mortos Há-de morrer do coração Apodrecendo-lhe nos corpos. Pobre gente da intriga Cuja língua é veneno São mais tristes que a lombriga Que lhes vai no pensamento. Hei-de rir-me dessa gente Ao vê-los tristes por aí Hei-de vê-los de repente Caídos onde eu caí.

⁠Ao passar pela vida - Ao passar pela vida Não levei nada na mão
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⁠Ao passar pela vida - Ao passar pela vida Não levei nada na mão E ai da minh'Alma perdida Ai do meu pobre coração. E houve momentos de comunhão E houve instantes de poesia Tantas horas de emoção No viver do dia-a-dia. Só a mim levei comigo E foi muito ou talvez não Que das saudades contigo Só ficou a ilusão. Agonia consentida Lastro de pura solidão Ao passar pela vida Não levei nada na mão.

⁠Bota - Abaixo - Bota-abaixo as bocas sujas Que vagueiam pelo lixo
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⁠Bota - Abaixo - Bota-abaixo as bocas sujas Que vagueiam pelo lixo E adoram pôr-te culpas P'ra fugirem, bota-abaixo! Aos que juram com maldade Sobre os mortos, bota-abaixo! A quem trai uma amizade, Denúncia, bota-abaixo! Quando pensam que te enganam O que fazes?! Bota-abaixo! Quando há nomes que te chamam Fazes bem: bota-abaixo! Fica longe da gentalha Desses ninhos que é só lixo Bota-abaixo essa canalha Tu não queres nem papas disso!

⁠Aplaudam - A alegria de um olhar A doçura de um gesto
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⁠Aplaudam - A alegria de um olhar A doçura de um gesto Um anseio, terno e calmo Que trazemos na mão Para poder aconchegar ... Um aplauso soluçante Num empedrado frio Um destino viajado Um cetim agreste Num desejo constante ... A água da infância Numa fúria por dentro Num mundo que não tive Com cheiro d'açucenas Em eterna permanência ... Aplaudam minha dor Riam do eu que vivi E com espanto e alegria Vejam que em meus olhos Ainda há amor ...

⁠Paisagem - Quando subo a Monsaraz há uma paisagem que penetra na minh'Alma combalida,
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⁠Paisagem - Quando subo a Monsaraz há uma paisagem que penetra na minh'Alma combalida, abrevio por instantes a viagem e fixo a água pelos campos adormecida! E recordo por momentos a infância ... Nada além de Estevas havia por ali! Nada mais que a solidão em permanência na era desses tempos que lá vivi. Que saudade Deus meu, da tristeza pura que invadia Monsaraz, pelo Inverno, e adornava pelo Verão sua planura. Contemplo aquela Vila! É um barco! E guardo ainda nos meus olhos o eterno pôr-do-Sol que sempre vi no mês de Março!

⁠Cristo Vivo - Mas num momento de pura Poesia o Monte transformou-se em Azinheira
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⁠Cristo Vivo - Mas num momento de pura Poesia o Monte transformou-se em Azinheira das vestes negras, solitárias de Maria surgem vestes brancas numa Glória derradeira! Da noite escura fez-se o dia claro o Sol no Céu desponta, dança entre as nuvens, e a Mãe de Deus, num silêncio terno e raro revela que seu Filho está vivo entre os Homens! Vi então a prata dessa Espada no seu peito diluir-se pelo espaço em Raios de Luz levando a cada Coração os Olhos meigos de Jesus! Então, alevantando-me do leito, fixei aquela Cruz que tenho em minha casa ... Emudeci de espanto! Ele já não estava!