Foi assim que nasceu -
Tão estranho sentir o que sinto desde quando te vi
Mas o amor sempre chega quando a gente não espera
Talvez seja a vontade de amar que um dia perdi
Quem sabe se és tu o luar da minha quimera
Foi assim que nasceu este amor que eu sinto por ti!
E Vi nos teus olhos o destino que tanto pedi
E tu nos meus olhos o amor que tanto esperaste
Nem mar, nem silêncio, nem vendavais que vivi
Não voltarei a chorar porque tu já chegaste
Foi assim que nasceu este amor que eu sinto por ti!
Esse amor que trouxe o vento -
Esse amor que trouxe o vento
Mais veloz que o pensamento
Trouxe rosas ao meu leito
E num mar de água salgada
Fez nascer a madrugada
Como um sopro no meu peito!
Esse amor que trouxe o vento
Fez nascer no firmamento
Uma estrela ilumimada
E aqueles sonhos que sonhei
Aquele amor que desejei
Fez-me andar por outra estrada!
Esse amor que trouxe o vento
É mais forte que o lamento
Que a saudade ou a tristeza
E ái daqueles que o não sentem
Na verdade é porque mentem
E só vivem na incerteza!
Esse amor que trouxe o vento
Fez nascer um sentimento
Que nos veste o coração;
Disse adeus à amargura
E não sei se foi loucura
Disse adeus à solidão!
Naquela campa -
Há um poema cansado
Nas rimas do meu sofrer
Mais um momento marcado
Pela vontade de morrer.
Há um silêncio que agito
No fundo dos meus sentidos
E o meu poema é um grito
São meus sonhos perdidos.
E o que ficou do que fomos
Está preso ao fado, à poesia
P'ra mim seremos e somos
Aquele amor que eu sentia.
Aquelas horas tão nossas
Só eu as guardo no peito
Talvez também 'inda possas,
Lembra-las tu ao teu jeito.
Naquela campa tão fria
Deixo uma rosa e um beijo
Que a Musa desta poesia
Fica virada p'ro Tejo.
À Morte de Maria Flávia de Monsaraz -
Silêncio todos os povos,
silêncio todas as raças,
todos os Credos,
todas as gentes!
Façam silêncio todas as
Almas ...
O Céu parou!
Calou-se a voz dos Astros,
as Estrelas não cintilam,
a noite cobriu os horizontes.
Em tudo há algo que doeu.
Por toda a Terra há um eco
de saudade:
" - Ficámos órfãos das Estrelas ...
... a Maria Flávia morreu!"
Os Anjos, em cortejo, a vieram
abraçar ...
E assim partiu: imutável, eterna!
Além de todas as palavras ...
Esférica, etérica, ampliada.
Na evidência Sagrada da Essência
do Ser ...
Não sou mais -
Não sou mais do que o vento passageiro
ou a brisa do horizonte que se sente
no olhar, num instante triste mas inteiro,
numa hora infeliz, fria e permanente!
Não sou mais do que um grito de infinito
por sobre as manhãs frias que nos cercam
cheias de névoa e solidão, num desejo perdido,
de não ser um daqueles que todos deserdam!
Não sou mais do que a distância imprecisa,
vagamente perturbadora que nos rodeia
de rosas negras, numa hora apetecida
de Primaveras, num sonho que se alteia!
Não sou mais do que estes versos que escrevi
nas folhas do silêncio que vou lendo
ou estas linhas que não falam de ti
porque tudo se apagou na voz do vento!
Hoje mas só hoje -
Hoje inclino-me ao fulgor dos dias luminosos
caiados de sol, cheios de noite e solidão,
inclino-me às dores, aos olhares saudosos
da minha triste juventude etérea sem razão!
Hoje! Mas só Hoje! ...
Hoje inclino-me às crianças que passeiam pela rua
cheias de sonhos e vontades, como eu já tive,
e penso na amargura que vão sentir, tão crua,
ao verem, crescendo, que sem a morte ninguém vive!
Hoje! Mas só Hoje! ...
Hoje inclino-me às guerras porque delas se faz paz,
uma paz armada, bem sei, porém uma semente,
inclino-me à fome e à tristeza de que a traz,
à dor e ao silêncio de quem a vê, de quem a sente!
Hoje! Mas só Hoje! ...
Hoje e só hoje me inclino ao coração dos homens,
por vezes, tão negros, cheios de maldade e podridão,
cheios de angustia e amargura, cheios de nuvens
que lhes encobrem a Voz de Deus e lhes tiram a razão!
Hoje! Mas só Hoje! ...
Instante de mim -
Meu amor tu não te lembras
daquelas horas, das penas,
das ilusões que a vida tem;
das tristezas sem carinho
de tantas pedras no caminho
que o teu amor me deu também.
Trago tanto por escrever
muita coisa por dizer
na solidão dos dias vagos;
dou ao Fado o meu destino
e os meu olhos de menino
trazem sonhos magoados.
Se eu soubesse que esquecendo
apagava o que fui sofrendo,
acredita, seria o fim;
nunca mais me encontrarias
porque afinal tu não merecias
nem um instante de mim.
Esta noite -
Lado a lado, frente a frente,
nós, a Morte, o destino e a saudade!
Quem diz que não sofre, mente,
pensando que vive em liberdade!
Não passa tudo d'um instante
entre o desejo de ficar e ter que partir;
o ritmo é binário, constante,
vivendo a vida da vida a fugir.
Olha docemente em teu redor,
a vida não acaba, simplesmente,
quem nasce p'ra morrer não é pior
do que quem vive infeliz no meio da gente.
Esta noite tocarás para as estrelas,
esta noite, tocarás ao som do vento ...
Tudo porque as Estrelas são belas
e a vida não passa d'um momento!
Perguntei ao teu olhar -
Perguntei ao teu olhar
se tinhas por mim amor
mas dissestes a chorar
não perguntes por favor.
Quando a Alma nos agita
e as palavras contradizem
as verdades que não ditas
só os olhos no-las dizem.
Mas se os olhos nunca mentem
porque o faz a tua boca
que eles digam o que sentem
pois a vida é tão pouca.
O silêncio também fala
quando tira a voz da gente
quando a tua boca cala
o teu rosto nunca mente.
Aquela Ponte -
Ainda hei-de encontrar
aquele amor que não vivi
aquele toque que não senti
alguém que me há-de amar.
Hei-de ser o Sol poente
que arde no horizonte
hei-de ser aquela ponte
onde passa toda a gente.
E hei-de ser todas as coisas
do principio ao fim da vida
uma esperança concebida
como são as coisas doidas.
Mas porém se não chegar
esse amor de que vos falo
acreditem vou espera-lo
bem no fundo do meu olhar.
É inútil acreditar -
É inútil acreditar
quando alguém já nos mentiu
fere sempre até sangrar
da mesma forma que já feriu.
Uma espada de dois gumes
que trespassa até matar
duas chamas num só lume
é inútil acreditar.
É inútil acreditar
em olhos que já mentiram
insistem sempre até magoar
num amor que não sentiram.
Mas um dia há-de haver fim
o que começa há-de acabar
nessa história, ai de mim,
se voltar a acreditar.
Mais vida -
I
A vida é um mistério sem tamanho
Às vezes uma pressa que nos cansa
Quem ama por amar tem tudo ganho
A vida é um poema que nos alcança.
A vida é como um rio que segue o leito
O sonho no olhar de uma criança
Um forte coração dentro do peito
A vida numa palavra é confiança.
REFERÃO
E um dia hei-de dar mais voz à vida
Saber que a solidão não é mais forte
Romper qualquer amarra com a morte
E um dia hei-de dar mais vida à vida!
I I
Há vida no olhar de quem se ama
Na boca quando fala uma verdade
No corpo de um poeta feito lama
Há vida em cada gesto de saudade.
Há vida num silêncio feito grito
Num pássaro que voa sem destino
No eco de um adeus que não foi dito
Há vida em cada passo do caminho.
Desabafo sem medo -
Eu canto porque o meu canto é da cor
do sangue,
porque o meu sonho é maior que o mar
e porque a vida tem de cumprir-se!
E outros dias virão!...
E com eles outros versos
menos amargurados, mais sentidos,
como pedras primeiras, bem alicerçadas,
na reconstrução de vidas destruídas!
A tristeza dos dias tumultuosos secará,
a fonte dos meus olhos minguará
e o poeta poderá enfim cantar...
Conversão -
É loucura não saber de onde se parte
sempre que se parte de algum lado,
para amar, precisamos de ter arte,
ser fortes p'ra fugir do que é errado!
Tantas vezes que afinal nos enganamos
com olhos que nos olham sem verdade
porque erradamente acreditamos
que esses olhos são olhos de saudade!
Deixa Deus falar-te ao ouvido
só Ele te pode encaminhar na vida
e mostrar-te qual é o teu sentido ...
Entrega em oração o teu penar
e abre o Coração a Esse Amigo,
pois Ele, jamais te irá abandonar!
(Des)Campanha politica -
Há p'las ruas da cidade
Muitas caras em cartazes
Uns sinceros, com verdade,
Outros disso tão incapazes!
Quem são uns ou quem são outros
Não me cabe a mim saber
Mas que saibam aqui todos
Há um ratado a bem d'zer!
Que haja ratos na cidade,
Já sabemos, teem manhas!
Mas comem por maldade
Os cartazes das campanhas?!
Ainda há uns impecáveis
Limpos, claros, sedutores,
Mas os mais indesejáveis
São rasgados por doutores!
Foi só um o maltratado!
Até um dente lhe faltou!
Mas quem seria o irritado
Que ao seu charme se curvou?!
Ora deixa lá Henrique
Que o teu nome já é Sim
Que este gesto prejudique
Quem traçou nele o seu fim!
Há muito que nesta Praça
Não se vê que haja Lei
O que irritou foi teres Graça
Só por teres o ar d'um Rei!
Fiz um poema -
Fiz um poema:
Rimei esperança com virtude
saudade com cegueira
distância com regresso
nada com vazio
e água com poeira!
Fiz um poema:
Rimei silêncio com amor
alegria com paixão
medo com pavor
e o teu olhar
com coração!
Sino da Fome -
Quando se ouvem badaladas
Desse sino solitário
Fala a fome das consagradas
De Santa Helena do Calvário!
No silêncio da cláusura
Entre o dia e a penumbra
Grita o sino por ternura
Contra a fome que se apruma!
E as Trindades vão soando
E a fome vai batendo
Toca o sino de quando em quando
E à Abadessa vai morrendo!
E não há quem não pereça
Ao saber que num Sudário
Morre a última Abadessa
De Santa Helena do Calvário!
Aquela Cruz -
Lá no alto, aquela Cruz
tem um Cristo cansado;
pobrezinho, não tem luz
abandonado, ó Bom Jesus
por mal do nosso pecado!
E uma tão bela Mulher
chorando ao ver tanta dor;
disse, não posso viver
sem a vida me dizer
porque mataram o meu Senhor!
Tristemente Jesus morreu
numa tarde sem amor;
e uma voz se ouviu do Céu
vem a Mim ó Filho Meu
que esse mundo só traz dor!
E os homens desde então
por este gesto numa Cruz;
puderam ter em comunhão
a cada Passo da Paixão
o Corpo e Sangue de Jesus
Outro dia -
I
É triste sentir que a esperança é coisa rara
ninguém encontra um caminho ou direcção
tanta gente que se dá e só embala
saudades, lado a lado, a par de coração!
E quando passam todos há silêncio
na raiz da noite tudo é em vão
e já ninguém se esconde, é permanente
viver amargurado em solidão!
Refrão
Mas sei que a vida traz sempre um caminho
creio no amor mais forte que o vazio
pois sinto que sonhar não é fantasia ...
Porque pomos tantas dores no destino
se a vida vai passando como um rio
nas margens do silêncio, dia-a-dia!
II
Há tantos ódios pelo mundo a dançar
penetrando o amanhã, 'inda por vir
e é fácil ser diferente, basta amar
como o Sol que se levanta a sorrir!
A esperança nunca morre, diz o Povo,
a vida nunca acaba, diz a esperança!
O que falta a cada Homem é amar de novo,
sorrir, acreditar, voltar a ser criança...
Um Piano na Sala -
Na solidão dos dias cansados,
num apanágio de silêncio,
há um Piano na Sala ...
O barulho das gentes
vai e vem e volta sem sentido!
Nos rostos cansados, severos,
que a parede proclama,
suspendem-se os gestos
de quem está.
No ar ... o Piano ... a musica ...
... a voz suspensa, calada,
dos estáticos homens
e a voz dos que vivem, sentem
e falam ... tudo no espaço
em torno do Piano!
Há Poesia no ar ...
E a musica ... sempre a musica
... união entre mundos!
Dor sem rosto -
Sou na vida um filho triste
sou um pobre solitário
sem presente nem passado
a viver neste Calvário.
No silêncio dos meus olhos
inclinados para o chão
trago medos, deixo culpas
nos caminhos da paixão.
Desde a hora em que nasci
que a minh'Alma ferida canta
que o destino me enrolou
uma corda na garganta.
Na fraqueza dos meus braços
sobre o peso desta cruz
já não rezo, só já canto,
porque eu ó Bom Jesus?!
Pela Rua da Amargura
vou sofrendo sem falar
tantas vezes minha mãe
tu me vens aconchegar!
Cobras Condenadas -
Quando se acredita em alguém
que diz ser verdadeiro
e grita amar-te a uma voz
não se percebe como vem
a calúnia e o mau cheiro
da mesma boca contra nós.
É mentira e nós não vemos
mas até desconfiamos
quando jura sempre em falso
dessa LAIA não seremos
e é por isso que deixamos
que se enterre passo-a-passo.
E depois quando te afastas
conta tudo à sua maneira
porque pensa que te enterra
o teu silêncio serão facas
porque a matas na fogueira
da mentira onde ela BERRA.
Essas cobras venenosas
com bom ar e elegância
que vagueiam por aí
morrerão todas ranhosas
do veneno e da ganância
que destilam contra ti.
Quando Deus sangrou as rosas -
Quando Deus sangrou as rosas
golpeou a Primavera
às escarpas deu as rochas
e ao silêncio uma quimera.
Todo o vento é poeira
quando a esperança fica presa
aos escolhos da cegueira
que a vida nos põe à mesa.
E nas minhas mãos vazias
trago um mar feito de pedra
trago tudo o que não vias
o sonho de quem eu era.
Mas a vida continua
cheia d'Almas ansiosas
nosso amor nasceu da Lua
quando Deus Sangrou as rosas.