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Frases de Rayme Soares

135 frases

VÓ Onde estão as pitangas, As bananeiras e as secas e verdes folhas?
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VÓ Onde estão as pitangas, As bananeiras e as secas e verdes folhas? Onde estão as taiobas e os efós? Os livros cheios de encantos por onde me revelava sonhos... Onde, os olhos azuis e verdes (acinzentados)? Onde, as mãos nas minhas ao atravessar a rua? Mamoeiros, araçazeiros e velas emergenciais... Frente ao nicho dos santos, dos prantos do menino, eu Dos sorrisos alucinadamente felizes, meus O agasalho e a gemada frente à TV sem cor e colorida Fazíamos tapeçaria, eu e meu irmão (o segundo) O beijo, o afago, o abrigo, o agasalho... Onde, onde, onde? Onde a “casinha feliz” e os contos do Lobato? Onde o som da flauta, do violino e o sabor do pão delícia? A leitura, no início da manhã, e a voz doce que lia, onde? A calça da mulher além das muralhas do tempo, onde? O batom vermelho, o ruge, os óculos, os brincos, onde? Os sapatos altos, os atos fortes, a telha velha, o pão torrado, onde? As bolsas, as pulseiras, os anéis, o anel de professora, onde? As estantes, o cristo na cabeceira da cama, o meu deleite... Tanta felicidade, tanta segurança, tanta fantasia, tanto amor... Esperei da vida uma máquina fotográfica e nada se apagou... Nada se desbota nada se resume nada estanca, mas, onde? Parece que o quintal acabou. Apenas parece... Simplicidade e sofisticação da mestra Os versos em francês da vó Li o acróstico que um pássaro escreveu pra flor Parece que o quintal acabou. Apenas parece... Onde, a postura encantadora da candura que me acalentava? Onde, a canção que fiz sendo cantada pela cansada voz? Lá no quintal da minha casa, pois assim me fazia ver, tinha o céu Parece que o céu morreu no quintal. Apenas parece...

OUTRA ESTAÇÃO Nada explica um sentimento tão grande Sentir-se nas mãos de alguém tão plenamente
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OUTRA ESTAÇÃO Nada explica um sentimento tão grande Sentir-se nas mãos de alguém tão plenamente E tudo se esvair em poucas horas Meu coração que batia aceleradamente... Será que você não percebia que era verdade Descem lágrimas dos meus olhos, ainda Ainda pássaro voando perdido Já não temos mais chance e era uma coisa linda Agora tantas estações nos separam Agora nenhuma imagem finda Pois suas pegadas fincaram e ficaram Por não suportar a partida Sonhei em viver esse imenso universo Mas não era hora; não era pra mim Eu quis ser seu e você passou Por que tinha que ser tão forte? Tinha que ser assim?

Pó Nada sei dos tempos idos Interrogações por todo “agora”
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Pó Nada sei dos tempos idos Interrogações por todo “agora” Mas toda certeza do amanhã Impulsiona e não me ancora Era tudo, o ali e lá Hoje sou o que está Nesse bojo nem me vejo Amanhã vou estar mar Ontem uma nascente insossa e pálida Um início sem nitidez A cada hoje do fértil à árida Retrata minha estupidez Sei de certo que virá Meu momento amanhecer Ontem fui o que nem sei Hoje entre o ser e o querer Não vejo dos idos tempos, o saber Nem, desse momento, o que dizer Tenho a certeza das dúvidas Onde mora o que há de ser

OUTRA ESTAÇÃO II Devaneios e anseios Um tonto que ainda crê
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OUTRA ESTAÇÃO II Devaneios e anseios Um tonto que ainda crê Que houve aquele amor O louco por você Um beijo na beira da noite Ribeira do rio do caos Quase enlouqueci no açoite Do vento nas velas das naus A firmeza ao declarar seu sentimento Repetidas vezes a confirmação Por que sua mão em minha nuca? Porque é mesmo tudo ilusão! É, é tudo exatamente assim Pra chegar, brilhar e ferir Arvorei-me a amar e paguei O preço de sozinho seguir.

Teu pai Abrir-te-ia os olhos para o translúcido muro Que frente aos teus anseios encobre
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Teu pai Abrir-te-ia os olhos para o translúcido muro Que frente aos teus anseios encobre Mas parece faltar força; é escuro E é de pedra e de barras de vermelho cobre Abriria o portão para o espetáculo Que a vida prepara pra ti Mas a prece parece ser parca E apaga o que escrevi Menina carrega meu canto Com a força da tua lucidez vocabular Menina levanta, não permita meu pranto Porque a vida quer te falar Dilua cada pedra e derreta o vermelho Só tu poderás sobre o que trago, deliberar Sou apenas a ponte do que destelho Sou teu pai que não suporta calar

A BATALHA Crava, fere, sangra; só eu Trava, cela, tranca; aqui
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A BATALHA Crava, fere, sangra; só eu Trava, cela, tranca; aqui Escarnece, bate, lincha no breu Humilha, humilha, humilha, sem fim Luzes, anjos, paz; só nós Vitórias, força, fé; que temos Vontade, conquista, verdade, coração Azuis, amor, sabedoria; venceremos! Só eu aqui no breu sem fim... Só nós que temos coração venceremos!

Anjo II Era breu o que predominava Era desagradável o momento
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Anjo II Era breu o que predominava Era desagradável o momento Era a agonia que pairava e imperava Mas deverás forte foi o seu alento No início fez-se presente como um ponto de luz E o breu era insistente aos olhos meus Chamou-me a atenção a sua paz E o que me parecia ponto fez-se exuberante luz de Deus Com algumas sábias palavras Você me convenceu Sob suas asas alvas Sua paz me acolheu Essa força em você habita Discretamente resplandece E dizer-se anjo não suscita Mas é o que acontece Diz por entre as linhas do seu texto Diz na imensidão do luminar Diz na fineza dos seus gestos Diz nos atos e no olhar

CANETA Rayme Vasconcellos Soares Trabalho calada, escrevo segredos
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CANETA Rayme Vasconcellos Soares Trabalho calada, escrevo segredos Entre dedos de formas diversas Concluo contratos ou mesmo distratos E sou companheira de muitos poetas Palavras belíssimas e até desacatos Histórias, estórias, raríssimos fatos Erros absurdos, absurdos relatos Canções geniais, históricos tratos Cartas românticas, não ligo semânticas Bilhetes, sem nada de estéticos Poemas sinceros no voar do ônibus Conselhos patéticos, recados sintéticos Trabalho calada, mas, muito, eu sei Às vezes jogada, nunca reclamei Mas inútil e borrada, largada fiquei Quando uma papelada inutilizei Trabalho calada, escrevo segredos Entre dedos de forma diversas Trabalho calada, descrevo segredos Ah, se eu falasse! Talvez morresse cedo.

MOVIMENTO As raízes dos vegetais estremeceram Os astros esquecidos explodiram
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MOVIMENTO As raízes dos vegetais estremeceram Os astros esquecidos explodiram Os ferros retorceram-se ante o vento As vestes dos teus gestos me despiram As favas e os favos favoritos Cravavam os cravos e os gritos Ouviram-se do silêncio os gemidos E os idos ecoaram os seus ritos As linhas e os espaços ecoaram Sob claves, sob tempos, sob trilhos E todas as verdades se perderam Nas linhas e nos espaços do que eu digo Nas tramas curvilíneas do teu corpo Se te assustas, eu te digo: - não me intrigo.

ANJO Senti o bater de tuas asas Sobre a tempestade que se armava
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ANJO Senti o bater de tuas asas Sobre a tempestade que se armava Asas de anjo, asas morenas e claras Quando a solidão me rondava Senti, mesmo de longe senti A feminina beleza inquieta De torneado corpo fluía A tua fervura discreta Sinto na tua indelével beleza De dentro, de fora o que agora Faz-me ter toda certeza Que és filha sã da natureza Estou entre tua imagem e tua leveza Um anjo, um ser pleno e intenso Se calo é porque onde quer que esteja É em ti que repouso o que penso Eu vi teus contornos que chamam Calei pra não destoar Dos sentimentos que envolvem os anjos Que são luzes e me fazem sonhar Sinto na tua inexorável atração Que tudo que ronda é pureza Sei que és anjo então Dispo-me e deixo que vejas!

O Livro e Eu Lépido ou triste busco por ele Para um entrave ou uma nova chave
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O Livro e Eu Lépido ou triste busco por ele Para um entrave ou uma nova chave Para um dialogo ou um dia longo Funcionando como uma clave Ele: o livro, vivo, vivo, livro Dele, o sumo e o insumo que refaz Ele o crivo e eu dele o mesmo E faz, e desfaz, e sem mais ou me apraz É místico, metafísico o que sinto Todo livro é mágico Se não pra mim, pra outrem Nunca casto; estático. Todo livro seduz e se torna ativo Nunca li um que me deixasse inerte E somos vivos: eu e o livro E tudo se reverte ou se inverte O livro é o instrumento do processo Para um planeta intenso De onde emerge o submerso Por onde resvala o que penso Leio o livro, sinto o livro Ouço o livro, calo o livro Canto o livro, recito o livro Fecho o livro, abro e sirvo Do que um “morto”, mais vale um valente livro!

MINHA CECÍLIA Quão forte é essa mulher Fui presenteado por Deus
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MINHA CECÍLIA Quão forte é essa mulher Fui presenteado por Deus Minha professora primeira Minha Cecília tão mãe No “visseiro” teu cheiro me assegurava Um dia inteiro de sonhos e rios De poesia, contos e beleza Dos passeios no “quente e frio” Dizem-me: criado por avó Ah se soubessem dos encantos de sê-lo Não seriam pejorativos na fala Talvez por um momento só Se todos pudessem percebê-lo Não calariam o que não me cala.

ALICE Ali se fez a maré; Ali se fez o que me apraz;
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ALICE Ali se fez a maré; Ali se fez o que me apraz; Ali se fez um balé; Ali onde Alice faz muito mais! É o imã da imaginação; Da livre Alice é o que há; Onde se curva despretensiosa canção; Pois são tantos os vôos a alçar! Alice é “bárbara” no que representa; Nas maravilhas do seu país; No que abarca toda a beleza; No que pelos olhos nos diz! É “bárbara” aos olhos da mãe; Inteira aos olhos dos pais; Onde se curva despretensiosa canção; Porque é ela uma semente de paz!

JULIANA Os olhos vêem mais que um homem subindo a ladeira Ao relatar o acontecido, dos olhos: água, sal e dor
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JULIANA Os olhos vêem mais que um homem subindo a ladeira Ao relatar o acontecido, dos olhos: água, sal e dor Onze anos; quase doze, mas é para o espírito que se esgueira À tona vem, ao ver o homem, todo o seu esplendor Talvez cansado, mas o homem vai trabalhar Mas ela vê, lê, crê e superlativa o que pesa O que pesa nos ombros, no lombo, no caminhar E ela relata, entorna o que na página da sua alma reza. Ele chora o que ela chora o que dela aflora E ele sorri triste ou feliz; ele sorri Mas nele dói o olhar que ela tem dele Do sofrimento, do tormento e fala do que há de vir A ladeira, o peso dos livros e a leveza das palavras Nada existiria sem aquela face rubra que retrata a alma alva E tudo vale apena diante daqueles olhos que não deveriam chorar Mas é subindo a ladeira que o homem busca o que salva É trabalhando que o homem quer fazer Juliana sorrir É caminhando que o homem quer fazer Juliana caminhar É na subida que o homem mostrará pra ela o luzir Mas que ela seja feliz ali, aqui ou onde quiser estar.

CARRETEL DE LINHA (Carlinha) Pele de lã, longe (Branquinha, seja minha)
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CARRETEL DE LINHA (Carlinha) Pele de lã, longe (Branquinha, seja minha) Enigmaticamente não chega E tudo lhe faz rainha Quando aparece, cega E cego, navego na rede Um pescador não nega O que de fato lhe mata a sede Carretel de branca linha Tece o tecido da flor Encarcera a vontade minha De sentir do seu corpo o olor Negros cabelos distantes Percebo a avidez dos ventos Por seus fios brilhantes Quem sabe isso fosse um alento.

Lavei o rosto para não permanecer Com a sujeira daquelas palavras Sujei as mãos ao remover o fel
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Lavei o rosto para não permanecer Com a sujeira daquelas palavras Sujei as mãos ao remover o fel Das tramas sinistras e veladas Levantei os pés para sair do brejo Articulei as juntas quando me encolhi Pra sair das “glórias” que não invejo Eram só inglórias quando as vi Foi sair e saber de longe do meu nome Foi sair e perceber que nada perdi Deixar que se consumissem os que não me consomem Os que não mais me consomem São ferozes entre si e a si comem Foi sair e ter tempo pra cantar, voar, luzir...

Passagens e paisagens O teu jeito incomoda Tua palavra descontrola
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Passagens e paisagens O teu jeito incomoda Tua palavra descontrola Teu fazer aborrece Teu prazer trava nervos Teu andar desequilibra Tua postura toma espaço O teu texto mostra fibra Quem não suporte, há Quem não suporte, vá Quem não suporte, trinca Quem não suporte, cica Fazer o quê? Passagens e paisagens... Vai!

Quando me dizem: estranho. Sou Quando me dizem: tacanho. Vou Quando me dizem: pequeno. Engulo-os
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Quando me dizem: estranho. Sou Quando me dizem: tacanho. Vou Quando me dizem: pequeno. Engulo-os Quando me dizem: medroso. Despertam-me Quando me dizem: gato. Não rosno Quando me dizem: forte. Não mostro Quando me dizem: sul. Nem norte Quando não dizem: nada. Observo-os Quando me dizem: tudo. Acho pouco Quando me dizem: insano. Menos louco Quando me dizem: tosco. Acho tosco.

REVELAÇÃO Eu vi um poço sem luz Caí ali no poço sem paz
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REVELAÇÃO Eu vi um poço sem luz Caí ali no poço sem paz Por entre as entranhas do medo Era sem barco, sem vela, sem cais Prostrei-me no confessionário Falei do que havia no fim Busquei religiões, inúmeras Por infindas ladeiras subi Nada encontrei; eram vãs palavras Deitei pra não ver o sol Não mais ver o céu; não ver nada Fantasmas no derredor Os tornados me emudeciam Deixaram-me tonto e perdido Perdi o prumo, me afastei dos meus anjos Mas aos céus clamei decidido Águas e lágrimas desciam correntes Meus joelhos calaram no chão Nada me causou espanto Diante da revelação.

LOUCURA Tenho vontade de me dar por inteiro Para aliviar meus anseios e receios
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LOUCURA Tenho vontade de me dar por inteiro Para aliviar meus anseios e receios (Mas isso me parece loucura. Será?) Por todos a quem eu tenho, sem medir veios Será loucura, eu querer tê-los sob o meu acolher? Fazer por merecer; não vê-los sofrendo Ao menos por onde enxerga a minha mente Desejo de estar lá e cá e angustiosamente... Seria um alívio diante das agruras Seria o alcance do que não fenece Seria o alicerce de tantas estruturas Seria um querer louco; um louco querer? Mas eu quero. Então é a loucura estampada. Pouco importa ser louco, saboreando o viver!

O vazio é o oco O vazio do oco da tua boca Da tua cabeça, o choco
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O vazio é o oco O vazio do oco da tua boca Da tua cabeça, o choco Do que julgas serem palavras loucas Desse, dessa, daquele e daquela Palavras e derrames d’alma Mas se tu julgas sem querelas Para o verdadeiro final tenha calma Haverás de perceber: nada é vero Pois se nada existe sob o julgo todo Talvez seja um olhar sincero Mas não te percas no engodo Da verdade inteira onde o silêncio se esgueira Da verdade escamosa aonde a luz não chega Da verdade da aconchegante esteira Da verdade do presente “à grega”.

Sou patologicamente triste Drasticamente ferido n’alma Por tantos e tantas, por muitos
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Sou patologicamente triste Drasticamente ferido n’alma Por tantos e tantas, por muitos E às vezes sem ressalva Acordo do meu sono trêmulo Quero apagar do sol, a luz E acender um sonho melodioso Acho que meu recanto traduz Traduz minha dor e me aceita Não tenho medo do escuro É mesmo uma hora perfeita Quando pra tristeza eu durmo Meus versos se completam e me revelam No dístico das tristezas e das alegrias Não sou um, sou gritos e silêncios Sorrisos e lágrimas nas canções e nas poesias Sou cronicamente triste Mas se conseguir entender um verso comum Cubro-me de alegrias sinceras Apesar da primeira pessoa não sou um