DESAFIANDO A PREGUIÇA
Da janela do meu quarto observo
O dia que passa marrento
E vejo o sol com preguiça
Por ser sol de outono
Lá fora, correm galinhas e patos
No terreiro mesclado pelo cimento
Onde descansam os cachorros e os gatos
Também preguiçosos
Me chamam as tarefas diárias
Mas a preguiça é contagiante
Nesse dia de sol indolente
Que parece estagnar a gente
Da janela do meu quarto observo
O quintal sem menino correndo
Ta tudo tão silencioso
Que parece natureza morta na tela
Vejo mato, cimento e ribeirão
E casas de vizinhos fechadas
Só a minha está aberta
Por preguiça minha de fechar
Deixa passar esse dia
Enquanto eu aceito o desafio
E vou fazendo poesia
Com preguiça e um assobio
(Nane-15/05/2015)
JOGADA AO VENTO
E na minha loucura me perdi
Dos meus próprios devaneios
Transformando-os em esperanças vazias
De quem já não pensa em nada
Foram-se as quimeras
E os sonhos da imaginação
Sobrou o vazio de uma mente oca
Sem mais nenhuma expectativa
Num solo estéril
Semeei a podridão
De grãos infecundos
Jogados ao léu
A frieza do nada me envolve
E nada mais faz sentido
Homens e mulheres
Crianças e velhos
Só o vazio me preenche
De um nada sem importância
O que será ou o que virá
Não faz mais diferença
De bom, dentro de mim
Resta pouco ou quase nada
Os sonhos fundiram-se aos pesadelos
E as noites aos dias
O bem e o mal são tão efêmeros
Como a vida e a morte
E essa maldita dualidade
Me faz ser quem não sou
Talvez amanhã eu esteja eufórica
E escreva palavras bonitas
Talvez amanhã eu nem acorde
E durma o meu sono derradeiro
Na minha loucura me perdi
E por que cargas d'águas não consigo
Preencher esse vazio que restou
E fez de mim...nada
(Nane-14/05/2015)
MULHER DE CARGA
Mulher culpada
Da culpa de ter
A marca na alma
De ser mulher
Carrega seu fardo
No corpo nu
Em plenas avenidas
Do país que te oprime
Mulher de cargas
Pesadas e à mostras
Para quem tem olhos
De ver e entender
Mulher coragem
De expor seu corpo
Aos olhares curiosos
Que quase sempre não veem
Mulher bonita
Em todas as suas formas
De alma livre
No corpo atada
Mulher de carga
Altamente explícita
Na força explosiva
Da sua ARTE
(Nane- 11/05/2015)
PORQUÊS
Há tantos porquês
E tão cheios de regras
Com e sem acentos
Em começos e fins
Que já nem sei do certo
Nem tão pouco do errado
Será você o certo
No acento circunflexo
Ou errado no junto
Que julguei separado
E por isso tirei o chapéu
No final da linha
Entre tantos porquês
Perguntei a mim mesma
Por que será
O porquê de não mais ter
O porquê da minha vida
Perdido em meus porquês...
(Nane-09/05/2015)
O PALHACINHO FREDERICO
Era uma vez um menino
Que adorava os palhaços
Lá da televisão
Tinha tanto medo o menino
Dos palhaços de verdade
Que preferia observá-los
De longe...bem de longe
Pensava mesmo que eles tinham
Aquelas caras pintadas
Dia e noite, noite e dia
Mas ainda assim gostava deles...
Veio o dia então
Que o menino percebeu
Que o palhaço era homem
E medo não precisava ter
Palhaço agora, ele queria ser...
A vó, que palhaça também era
Pintou sua carinha
E o menino no espelho
Se viu como um lindo palhacinho!
Tão feliz ele ficou
Que não quis tirar a máscara
Os flashs pipocaram
E para todos ele posou
Com um sorriso de felicidade
Do palhaço Frederico...
Adormeceu o palhacinho
E sonhou com as palhaçadas
Acordou de cara limpa
Contando pra todo mundo
Que fora palhaço por um dia
E que isso, por certo virou poesia.
(Nane/11/05/2015)
VÍSCERAS MISTURADAS
Exponho as vísceras
No meu desespero
Que grita teu nome
No meu silêncio
Dentro de mim
Se fez tsunami
Sacolejando meus órgãos
Misturados e sem lugar
Esvaindo o sangue
Jorrado em lágrimas
Salgadas e adocicadas
Com cheiro nauseabundo
O pulmão enegrecido
Comprimindo o coração
Perdidos no fog da fumaça
Do cigarro companheiro
Bate nas costas e cabeça
Não sei se cérebro ou coração
Só sinto o pulsar insano
Da saudade do teu corpo
Rasgo com minhas unhas a minha pele
Na esperança de ver aliviar
A pressão dessa dor que me consome
E fugir da tua opressão
O peito já não sangra mais
Na cirurgia da triste poesia
Só não sei o que deve ser extirpado
Pra tirar você de mim
Onde está meu coração
Nessa arritmia dos meus órgãos
Atrás da penumbra dos pulmões
Ou no cérebro ensandecido
Pouco importa isso agora
Sou retalho do que fui
Exposta e a venda na xepa
Dos mortos vivos por amor
(Nane-11/05/2015)
O PEQUENO CONTADOR DE ESTÓRIAS
Hoje me dispus a observar
A esperteza e a malemolência
Do pequeno "grande" Fred
No seu mundo de imaginação
Deu-me de presente algumas pedras
E me disse para guardá-las
Pois as trouxera de muito longe
Apenas para me ofertar
Sorrindo, as guardei nas mãos
Mas ele não se contentou
Disse que eu as pusesse na gaveta
Que era mais seguro
Assim fingi que fiz
E ele se foi para novas estrepolias
Mais tarde, veio me dizer
Que viu um helicóptero vermelho
Sobrevoando nossa horta
Jogando nela sementes
E que agora vai nascer
Muitas verduras fresquinhas
Vindas do céu para a gente plantar
E comer no jantar
Surpreendi-o falando sozinho
Sentado num cantinho do quintal
Ele então me apresentou
Seu amigo invisível
Nome não tinha
Era apenas o "amigo"
Que quando se cansou
Despediu-se e saiu
A noite "acordou"
E a gente precisa ir dormir
Um banho quentinho ele tomou
E começou a cochilar
Antes de adormecer
Me disse bem baixinho
"Vovó, guarda bem o seu presente
Que são pedrinhas de estorinhas"
Ajeitei-o na caminha
E corri lá no quintal
Juntei algumas pedras
E guardei-as na gaveta.
(Nane- 03/05/2015)
MENINO TRAVESSO
Com sentimentos não se brinca
Nem tão pouco se manipula
O destino é o senhor
E Cupido só um menino
Brincalhão e sem escrúpulos
Flecha corações à revelia
De um que ama o outro
E do outro que ama algum
Faz salada de sentimentos
E se diverte com a confusão
Causa dores aos corações
Deixando marcas nos espíritos
Em seu caminho um rastro de desilusão
Costuma adoecer de tristeza
Quem antes sabia sorrir
Sem mágoas e nem paixões
Cupido é narcótico
Viciante e fatal
Faz vibrar e delirar
Para depois, sem dó, matar
Não adianta aconselhar
A vítima fascinada
Mas se você puder
Não se deixe acertar
Com sentimentos não se brinca
Nem tão pouco se manipula
O destino é o senhor
E Cupido só um menino
(Nane-05/05/2015)
ACERTO DERRAMADO
O que fazer com a incerteza
Do certo e do errado
Quando o seu certo se derrama
E se mostra todo errado
Cavar na areia um buraco
E enfiar lá a cabeça
Deixando a respiração sufocada
Morrendo enterrada
Ou adormecer por longo tempo
E despertar no esquecimento
De um novo tempo
Sem ares ou ventos de lembranças
Deixar a cabeça na guilhotina
E decepar todas as decepções
Sem carrasco ou extrema-unção
Talvez seja a solução
Correr por uma longa estrada
Até cair exaurido
De cara no pó do chão
Destruído ou de tudo destituído
Enquanto não vem a resolução
A incerteza permanece
E o errado prevalece
Sobre o certo derramado
(Nane-05/05/2015)
SENTIMENTOS DISTORCIDOS
Vim de tão longe
Sem saber o que me esperava
Além do amor
Ao qual me dediquei
Da janela olho
Meu olhar vazio
Onde anda a prole
Que tanta rugas me custou
São tantos contratempos
Minha mãe se despediu
Mas eu não ouvi
E agora tento gritar adeus
Deus
Minha prole não escuta
E eu preciso ir
Antes do amanhecer
Meu olhar turvo não permite
Que eu veja essas coisas
E a cabeça gira sem rotação
Apenas por girar
Um leito feito prisão
Um pássaro ferido
E o longe tão perto
E o perto tão distante
Quem é quem nessa cidade
Mãe e filho, filho e mãe
Distorcidas imagens refletidas
No espelho da dignidade
Lá fora faz frio
É o que eu sinto aqui
Nem sei se estou dentro
Mas calor, só de vergonha
Dia e noite misturados
E eu nunca acerto a hora certa
Lágrimas e soro se misturam
É sal, é sol, é sul, sem norte
A janela é inalcançável
Talvez tenha uma lua lá fora
Ou quem sabe o sol brilhe
Mas não volto de onde vim
Lá longe minha mãe se foi
E eu nem a ouvi
Vou de encontro a ela
Bem mais velha do que era (ela)
A prole se cala
Talvez me abrace na despedida
O soro e a lágrima secaram
E sorrio livre
(Nane-22/08/2015)
POESIA SENTIDA
Adormece em mim
A poesia
Latente e em ebulição
Falando somente à mim
Palavras não ditas
Mas sentidas
Só minhas
E de mais ninguém
Prefácio de vida
Num sono entediante
De uma vida sem graça
A espera da vida além da vida
Ah poeta
Dê asas ao teu dom
E (d)escreva o amor
Sem jamais o viver
Sois feito Moisés
Eleito por Deus
Conduzas teus leitores ao amor
Mas na terra prometida, não entres
Deixa que teus sonhos se refaçam
Em cada nova poesia
E entenda que o azul da cor do mar
Não passa de mera razão para sonhar
(Nane-18/08/2015)
POETA DE LATRINA
Maldita a hora em que me fiz poeta
De esquina
Nas saídas dos bares
Nas madrugadas
Agasalhando no peito
As dores do mundo
Apiedando nas palavras
Da própria insignificância
Por não conseguir sorrir
Das desgraças embriagantes
Num copo interminável de cerveja
Escrevo aos amantes
Palavras adocicadas
Zombando da imbecilidade
De quem nelas acreditam
Sem perceberem que se esvaem
Na mais branda das brisas
Que sopra ao luar
Cúmplice nas enganações
Que todo poeta rabisca
Mais por ego que por convicção
À quem se presta à lê-lo
Então equilibro meus escritos
Entre dores e amores
Sem deixar vazar a verdade
Contida nas entrelinhas
Lidas e não entendidas
Pelos amantes da poesia
Induzidos pelo proxeta
Que lhes escreve sem pudor
Feito um famigerado gigolô
Prostituindo sua vítima
Em troca de seu ego
(Nane-03/07/2015)
TURBILHÃO DE PENSAMENTOS
Zumbidos na cabeça
Turbilhão de pensamentos
Olhos marejados
Coração pulsando forte
Mãos trêmulas e frias...
A sensação do vazio
O nada preenchido
O importante perdido
O sentimento petrificado
A lágrima derramada pela vida
A paz já não faz falta
Os sonhos são pesadelos
A loucura feito um verme
Mantem vivo o corpo
Cuja alma já partiu
Nada faz sentido
Ninguém é importante
O amanhecer é suplício
O anoitecer traz a certeza
De que um dia tudo se acabará
Suicidas vozes clamam
Mas nem isso importa
Azar de quem foi fraco
E agora queima no inferno
Não sou ave. Não tenho pena
A noite está fria
Eu também...
No corpo e na alma
Quando amanhecer
Será só mais (ou menos) um dia
(Nane-002/07/2015)
CORAÇÃO PENSANTE
Dê ao seu coração
Para que ele tenha sobrevida
Um cérebro
Deixe que ele pense
E não haja por impulso
Feito menino mimado
Querendo o que não pode
Dê ao seu coração
A real dimensão
Do que lhe é permitido
E não o deixe decidir
Sem que esteja atrelado
À quem de fato sabe
O que é o certo e errado
Dê ao seu coração
A medida exata da sua liberdade
De escolher a quem amar
Pesando os prós e os contras
Das consequências vindouras
Por decisões tomadas
Sem o equilíbrio necessário
Dê ao seu coração
Se preciso for
A ordem de só amar
Quem também te ama
Para que ele não pereça
E tão pouco refugue
Num pulsar arrítmico
Dê ao seu coração
O diploma de formando
Na faculdade da vida
Que ensina que o amor
Nada mais é do que o costume
De ter alguém ao lado seu
Dê ao seu coração
A verdade, ainda que dolorida
De que o amor é uma ilusão
Momentos de paixão
E só o que conta é a verdade
Da paz criada na sinceridade
De um amor totalmente programado
(Nane-18/06/2015)
MUMIFICAÇÃO
Cerraram-se os olhos
Que outrora fascinaram-me
Calou-se a voz
Que palavras de amor
Um dia me falou
Então te olho
Sem conseguir ver
Nenhuma expressão
Frieza total
Sentimentos mumificados
Setenta eram os dias
Que os egípcios levavam
Setenta vezes sete
Vidas encarnadas
Talvez leve eu
A amargura tirânica
Em doses balanceadas
Consumindo e transformando
A alegria de viver
Numa tsuname do Nilo
Mumifiquei meus sentimentos
E desenhei seu rosto
No sarcófago faraônico
Largado e esquecido
Numa pirâmide perdida
Já não há mais sofrimento
Nem mesmo há curiosidade
Só a frieza no semblante eternizado
E a amargura nas palavras ditadas
Pela múmia da desventura
(Nane - 17/06/2015)
*Arte: Lucia Momia Lucia
AMOR PERFEITO
Quero nosso amor assim
Exposto e esparramado
Gritado livremente
Aos quatro ventos
Quero mostrar ao mundo
O maior dos meus sentimentos
Sem ter que esconder
Teu nome de ninguém
Ah...e me pedes segredo
Não permites fotos
Torna-te invisível
Quimera minha
Foi só brincadeira
Da tua parte
Amor escondido
Desejos incontidos
Num mundo só nosso
Sem nenhum vestígio
Que por causa do meu querer
Desmoronou, acabou
Inventamos demais
Amamos demais
Cobrei demais
E você brincou demais
Não quero mais nada
Que não seja concreto
Firmado e cimentado
Na calmaria segura
(Nane - 17/06/20145)
INTERCESSÃO DE MARIA
Tão lentamente
Devagar...é verdade
Mas saindo
Indo embora
Verdade seja dita
Eu nunca estive em ti
E você tão forte em mim
Agora, lentamente se vai
Uma perda
E toda perda dói
Mas você, enfim se vai
Saindo, devagar, de mim
Aplacou a ansiedade
Só por, enfim eu aceitar
Que você está indo embora
E isso é preciso
Já não te procuro mais
E mesmo ainda tendo a primazia
Do primeiro e o último dos meus pensamentos
Já não o domina o tempo inteiro
Nas contas contadas nos dedos
Insisto no pedido da reza
E ela, cansada de tanto me escutar
Parece, resolveu me atender
Não é ladainha
É teimosia
E o melhor pra mim
É te deixar sair de mim
Bem devagar
Mas firme em meu propósito
Vou me despedindo de você
Transformando em carinho o que ficou
(Nane-29/26/2015)
*Arte de: Cimara Cláudia
SEGREDO SEPULTADO
Quem é você
Que arrebata meus sonhos
Ditando meus desejos
Jogando fora a adrenalina
Sangrando as glândulas surreais
Quem é você
Aflorando meu drama
Tragicômico e desmedido
Num palco sem plateia
De uma peça shakespeariana
Quem é você
Que num silêncio devastador
Estoura meus tímpanos sem pudor
Com palavras em flechas certeiras
No mortal ato do desengano
Quem é você
Que exerce esse poder maligno
Mesmo sem saber
Enterrando fantasias e aspirações
Sem ao menos sentir culpa
Quem é você
Que insiste em não perceber
O vazio do meu mundo
Sem cores nem anseios
Pela falta de você
Quem é você
Que escarna meu cadáver
Sob os devidos sete palmos
Num sorriso de alívio
Pelo segredo sepultado
(Nane-16/06/205)
APENAS UM LEGADO
Queria te deixar
De legado o meu amor
Que se mal me fez
Me mostrou o paraíso
Tal qual o príncipe hebreu
Não me foi dado o direito
Da terra que emana mel
Por todos os meus defeitos
Mas ainda assim
Queria te deixar
De legado o meu amor
Que é eterno e sem fim
Só uma coisa, mais que o meu amor
Eu queria te deixar
A certeza do desejo
Da felicidade plena
Meus olhos já não veem
Mas o coração ainda sente
E se eu soubesse rezar
Pediria para Deus te abençoar
Queria te deixar
De legado o meu amor
E agradecer o infinito
Nos momentos em que tive
Um pouquinho do teu amor
(Nane-08/06/2015)
PRAGMATISMO
Talvez meu tempo não seja esse
Talvez minha vida não seja aqui
Talvez, nem mesmo eu saiba de mim
Talvez não seja eu, eu mesma
E por isso me perco de mim
Sem saber onde e como chegar
Ou a quem procurar
Ou mesmo onde repousar
Talvez seja esse o meu destino
De andarilho sem estrada
Caminhante de uma mente
Deturpada e aflita
A vida, na verdade pouco importa
Posto que é infinita
Uma vez concedida
Eternamente será mantida
A forma é o que conta
No peso da sua cruz
É o que te fará renunciar
Ou ser forte e continuar
Deus, esse cara pragmático
Cumpre com louvor suas promessas
De ser o pai eterno
Pronto à ensinar
Talvez, só o que valha à pena
São as escrituras
Que se ditadas por ele
Estão tão deturpadas
Talvez meus valores sejam natos
E Deus, um ser em mim caricato
Digno de todas as minhas dúvidas
Diluído em meu...talvez
(Nane - 14/07/20)
O INFINITO CONFUSO
Nada do que escrevo
É o bastante para dizer
O que está em mim
Quando se refere à você
Até tento me expressar
Mas palavra alguma
Alcançará a imensidão
Do sentimento em mim contido
De tão contido e imerso
Ele grita e me implode
Devastando por inteiro
Qualquer outro querer
É um infinito confuso
Onde me perco e me acho
Mas que decididamente
Não abro mão
É só meu e de mais ninguém
Nem mesmo seu
Então escrevo
No desejo insano de te ter
É feito um orgasmo
Que explode em delírios
Quando essa imensidão
Aflora em palavras
Vou tentando todo dia
Sabendo não conseguir
Fazendo de um poema a poesia
Que é eternamente te amar...
( 29/05/2020)
SÓ UMA SAUDADE
Choram meus olhos
Vertendo lágrimas compulsivas
Disfarçadas pelas lentes
Embaçadas...
A rotina intensa
Me cobra agilidade e decisão
Enquanto as lembranças
Teimam em voltar
O som da sua voz
Ecoa dentro de mim
Feito uma brisa que sopra
Indo embora...
Tropeço em meus apetrechos
Me dando conta
Do foco exigido à total precisão
Sossega coração
Verbera meu verbo
Silenciado e dolorido
Por lembranças saudosas
De um tempo ido
Guardado em estrofes
Para mais tarde dançarem
Feito bailarinos
Ao som de uma sinfonia/poesia
Agora não é a hora
De lágrimas nem saudades
O foco se faz presente
Retomando a minha mente
(Nane - 26/05/2020)
ESTRANHO SENTIMENTO
Estranho sentimento
De um vazio tão completo
Invadindo a essência
Destilado no ar
Uma vontade de saber
O que não me é permitido
E no entanto instiga
Mesmo sem poder, o meu querer
Esvazia todas as minhas certezas
Entranhadas e evasivas
Mutilando o objetivo
Ao qual me dispus
Salada revirada
Sem sal ou sem açúcar
Embolorando os neurônios
Desconectados das sinapses
Me pergunto até quando
Vou me deixar levar
Nessa pororoca desgovernada
Que afoga minhas pretensões
Vontade de cuspir todo o ácido
Que vocifera na garganta
Feito plasta que corrói
No deságue do sangue
Mas não resolveria
O estranho sentimento
Nem preencheria o vazio
Destilado no ar
Nada mais resta
Além do aceitar
Que a vida à ser vivida
Tem que continuar
(Nane - 30/05/2020)
QUANTAS SAUDADES
E lá se vão três anos
Da sua ausência física
As lembranças que ficaram
Doem, mas também confortam
A sagacidade nas palavras
O seu humor requintado
A ironia nos comentários
A sabedoria no viver
Hilária nas suas cantorias
Dos hinos da sua igreja
Que eu escutava embevecida
Por te saber tão lúcida
Saudades eu tenho das flores
Que sempre enfeitavam os seus jardins
Desde os meus tempos de criança
Que plantavas, mas não colhias
Saudades eu tenho das balas
Que fazias para vender
Quando quase nada havia para comer
Mas você, fazia aparecer
Saudades eu sinto do seu cheiro
Quando me aninhava no teu colo
Num cafuné até o adormecer
Coberta e protegida
Saudades eu sinto do café
Com aroma das manhãs
Em que eu tinha que sair
De encontro ao aprender
Saudades eu sinto de tudo isso
Que deixastes por legado
E hoje, tento repetir
Tudo o que me ensinastes
De você Mãe
Não sinto saudades
Guardo comigo todas as lembranças
E essas sim, fazem doer
(Nane - 28/05/2020)