Amor eterno
Te vi assim
Tão sublime
Tão fatal
Tão em mim...
Refiz em mim
Todos os sentidos
Que pensei perdidos
Ou mesmo nunca nascidos
E foi você
Quem despertou em mim
Entre o desejo e a paixão
Um grande e derradeiro amor
O velho Chico
O velho Chico
Observa da varanda
Patos e galinhas
Correndo em seu quintal
Sem se preocupar
Com o tempo a passar
Seu olhar vagueia sem fixar
Em ponto algum
Ou fixado num outro lugar
Que mais ninguém pode enxergar
Além do velho Chico
Sentado na varanda
O velho Chico
Nem tão velho assim
Se deixando envelhecer
Da tristeza que a alma
Insiste em demonstrar
No seu olhar
O mato cresce em volta
Mas ele parece não perceber
Continua olhando da varanda
Como se esperasse por alguém
Que não vai mais chegar
Para alegrar o seu olhar
(Nane-28/11/2014)
Bárbara Iansã
Rainha dos ventos
Bárbara Iansã
Senhora dos bordados
De ouro ao entardecer
Enfeita o crepúsculo
Saúda o anoitecer
Hipnotiza os homens
Com seu olhar de poder
Impossível não há
Para a bela Oyá
Herdeira guerreira
De tantos amores
Ogum
Seu eterno apaixonado
Xangô
Seu verdadeiro amor
Rainha dos ventos
Bárbara Iansã
Sopra em mim
Sua brisa suave
Eparrei!!!
(Nane-04/12/2014)
O parto
As minhas entranhas dilaceradas
Doem a dor santa das mães
Que geram um filho natimorto
Sem nunca beijar-lhe a face
Meus dedos deslizam por sua pele
Fria e sem nenhuma cor
Revivo cada instante da gestação
Realizando (na imaginação) a festa do nascimento (que não houve)
Seu corpo já não cheira bem
Reluto em sepultá-lo
É meu filho embolorado
Não saiu dos meus guardados
Talvez um dia (quando eu não mais existir)
Alguém entenda a dor do parto
E permita que o meu filho
Editado e revisado
Seja publicado...
(Nane-03/12/2014)
Na espera
Amor, presta atenção
Passe o tempo que passar
Escuta o que vou te falar
Você está em mim
Assim como eu em você
Se hoje
Meus sonhos são pesadelos
Pela tua ausência
Foram em outros tempos
A paz que embalou
Meu sono de Morfeu
O sim e o não
Junto ao preto e o branco
Incerto e ambíguo
Sou eu e você
Perdidos e encontrados
Num só delírio
Mais meu do que seu
E embora te sinta
Não posso prender
Voa sem nenhum limite
Pelo espaço e pelo tempo
Até cansar
Meu tempo é teu tempo
Enquanto eu puder
E vou te esperar
Até que queira voltar
Se por acaso não vier
Eu vou te aguardar
Num outro lugar...
(Nane-05/12/2014)
Do concreto abstrato
Uma saudade tão abstrata
Que de tão absurda
Tornou-se concreta
E cimentou em meu peito
A dor da separação
Agora sopra a brisa vespertina
Balançando as roupas no varal
Que esperam para serem tiradas
Enquanto sopra os pensamentos
Na direção do desconhecido
Logo o manto da noite cobrirá
O dia que se finda
As lembranças se misturam
Fazendo a argamassa da saudade
Pesar concreta e sem descanso
A brisa é tão branda
Não consegue levar embora
A dor dessa saudade
Que teima em ser absurda
E ficar...
(Nane-01/12/2014)
Stand by
Amor, estou aqui
Aguardando você voltar
Porque sei que vai voltar
Quando cansar de brincar de amar
É meu o seu amor
Ainda que você não saiba
Estou de prontidão
Na minha solidão
Vá sim, viver seus amores
Divirta-se a valer
E quando voltar
Aninhe-se em meus braços
Sou eu quem te espera
Por toda a vida
Não tenha pressa de chegar
Eu vou te esperar
Até mesmo por não ter outra opção
Sou seu stand by
Um dia você vai perceber e entender
Que só eu eu amo você
Então, finalmente virá
E eu torcerei como nunca
Para que nesse dia
Você possa...me encontrar
(Nane-09/12/2014)
No meu interior
E me ofereceram de Natal uma viagem
Até para que eu relaxe um pouco
Recusei...
Maranhão, Fortaleza, Salvador
Um lugar bonito qualquer
Recusei...
Quiseram saber o porquê da recusa
Não entendem que a minha viagem é diária
E o destino...meu infinito
Passagem para lá não há
Nem de ônibus ou de navio
Muito menos de avião...
Vou no pensamento
E é bastante cansativo (a viagem)
Me ofereceram um presente
Um "refresco" pra cabeça
Mas não posso aceitar
Viajo na poesia que mora no meu interior
E vou pra onde eu quiser
Na hora em que eu quiser
Pro céu ou pro inferno
Sem bagagem nenhuma
Agradeci de coração e...
Recusei
(Nane-10/12/2014)
Placar final
É hora de voltar
Respirar fundo e voltar
É hora de mandar às favas
Todos os percalços
E construir com as pedras...um abrigo
Chorei todas as lágrimas
Senti todas as dores
Que ainda estão em mim
Mas é hora de voltar
E lutar...
Vencer ou perder faz parte do jogo
Que Deus escala e escolhe
Partir pro ataque é o que resta
Enquanto a partida durar
É preciso fazer gol
É hora de voltar
E esperar com paciência
O apito final
Desse jogo involuntário
Sem vencedor (ou perdedor)
(Nane-09/12/2014)
Jogo de xadrez
Queria calar
Mas a poesia é intrometida
Feito um tabuleiro de xadrez
Remexe meus neurônios
Me dá um xeque mate
E solta o palavriado
Involuntário e sem cabresto
Sou poeta vencido
Sem muita inspiração
Deixei no passado meus lampejos
E a tristeza se fez de minha musa
Enquanto a fumaça do cigarro
Desenha formas deformadas
Na mesa do meu jogo
Ponho em xeque a poesia
Rei e rainha perdidos
Queria me calar
Mas a poesia é intrometida
Me da um xeque-mate
Me obriga a rabiscar
E cuspir palavras que eu não sei dizer
(Nane-03/12/2014)
Deixa
Então deixa doer
Essa droga de dor
Que parece se divertir
Deixa aflorar toda a mágoa
De uma estória mal contada
Criada...imaginada
Deixa guardar na memória
O que nunca foi pra ser
Ou tão pouco pra se viver
Deixa que o tempo cure
Essa loucura dilacerante
Que retalha a alma errante
Deixa que a vida atual
Cobre cada loucura
De outras passadas
Deixa doer sem culpas
A dor de quem perdeu
O tempo de te amar
(Nane-25/11/2014)
sedução
Valeu a pena tudo isso?
Numa noite clara de calor
Em que a lua sinalizava as estrelas
No tapete da areia úmida,
Perguntei enquanto caminhava...
A escuridão na imensidão
Feito um manto do horizonte
Salpicado de pontos brilhantes
Parecia responder ironizando
E chamando à um mergulho...
Pyrilampos sedutores,
Canções perturbardoras,
O infinito desnudo
Convidando ao encontro
Da poesia fatal...
Talvez Iemanjá,
Num momento de TPM
Causou um maremoto,
Me embriagou
E cantou pra mim...
Meus tímpanos vibraram.
Meus instintos vacilaram.
Não sou pescador...
Minha rede é de deitar
E ao mar...apenas escutar...
(Nane-28/11/2014)
Medos
Meus medos afloram
Quando mais me sinto forte
Vasculham minhas gavetas
Em busca da minha fragilidade
Busco na luz de meus parâmetros
A identidade da coragem
Que sou forçada a ter
Para sobreviver
A escuridão se faz
Em pleno sol do dia
Mas a lanterna do destino
Clareia meu caminho
Finjo não sentí-los (os medos)
Enquanto eles teimam em me assombrar
É preciso ignorá-los
Cubro a cabeça...
Mas a noite escura e quente
Me faz sentir calafrios
Tento respirar bem devagar
Para eles (os medos) não me encontrarem
Meus medos afloram
Quando mais preciso ser forte
Eu finjo...finjo...finjo
E sobrevivo
(Nane-08/12/2014)
A cigana
Uma cigana leu a minha mão
Não me falou do futuro
Não se ligou ao meu presente
Mas descortinou o meu passado
Botou "caraminholas" em minha cabeça
E sumiu na imensidão dos continentes
Pra onde foi...
Ninguém sabe, ninguém viu
Perdeu-se na poeira da estrada
Dançando nos palcos do mundo
Levando a magia das tendas
E lendo os mistérios de outras mãos
Corre um alazão nas pradarias
Feito um vento selvagem
Encantando e desafiando
Transeuntes absortos
Na estrada agora silenciosa
Restou lembranças da cigana
Que leu na minha mão
O castigo da solidão...
(Nane-28/11/2014)
Entre verdades e mentiras
Tu me dissestes que foram mentiras as minhas verdades
E eu, no entanto, julguei serem verdades as tuas mentiras
Nos iludimos e nos deixamos envolver
Por mentiras e verdades criadas por nós mesmos
Aconteceu o previsível, o desgaste da quimera
O enredo perdeu todos os sentidos
Entre as verdades e as mentiras
Valeu demais o nosso tempo
Ninguém mais vai poder preencher o teu espaço
Talvez eu até consiga serenar toda essa dor
E refazer a vida com a tua doce lembrança em mim
Mas...nada vai poder tirar você de mim
Te saber feliz agora é o que importa
Ainda que me custe a própria felicidade
Deixa ficar comigo os momentos em que fomos
Unha e carne, carne e unha
Guardei teu timbre, tua voz e teus carinhos
Que irão comigo por onde eu for
Só não confunda mais minhas verdades
Posto que elas nunca foram mentiras
E tão pouco me diga mais tuas mentiras
Disfarçadas de verdades
(Nane-02/12/2014)
Marés
Toda a onda que vem do mar
Me leva sem que eu possa remar
Apenas me entrego, me solto
E aguardo submissa onde vou parar
A maré cheia me seduz
Convidando ao desconhecido
A maré baixa me leva de encontro
Ao porto seguro
A brisa marinha me embriaga
A noite fria me arrepia
Perdida entre duas vertentes
Caminho sem direção
Logo o sol sairá
Bem lá de dentro do mar
Rompendo a aurora virginal
De mais um dia normal
O porre terá passado
O sono chegado
Eu, de novo venci o mar
Vou pra casa...me deitar
(Nane- 28/11/2014)
Os meus pés de frutas
Lembro da minha casa de varanda
lá pelas terras do Conforto,
onde eu brincava na rua
e minha maior preocupação
era me livrar das "correadas"
(que naquela época eram permitidas),
que minha mãe, por certo me daria
depois de mais uma traquinagem.
Era uma casa bem grande e com quintal,
onde um pé de manga e um abacateiro
também faziam morada. Mas a goiabeira...
essa morava no quintal da vizinha
e me obrigava a "trepar" no muro
para roubá-las.
Um dia...
depois de ler "O meu pé de laranja lima",
quis ser seu protagonista (amei a ideia dele)
e amarrei uma cobra(de brinquedo) no cordão.
Me julgava mais esperta que o Zezé,
só não sabia que minha mãe também o era.
Os vergões das lambadas (e não era a dança)
ornamentaram meus "gravetos" e meu bumbum
por um bom e dolorido tempo.
São tempos idos e encantadores
que de vez em quando me puxam pro passado
e me levam de volta para a minha casa de varanda
lá pelas terras do Conforto...
(Nane-09/12/2014)
Fardo
Meu corpo arde desejoso
Sente a falta do seu
Vê passar o tempo incólume
Na pele enrugada e sem brilho
Nos contornos perdidos
Na mente ficando demente...
Que imagina seu corpo enrijecido
Tocado por outras mãos
Enquanto as do meu corpo tremem
Não de prazer
Mas pelo tempo incólume
Que me leva embora
A máscara que se desenha em minha face
É a do tempo passando tão rápido
Ornamentada pelas rugas sulcadas
E a púrpura nos olhos cansados
Até do próprio carnaval
E de todas as minhas fantasias
Meu corpo admite (e sente) a velhice
E recorda o seu juvenil
Espera sem pressa a hora
De libertar-se desse peso
Que obriga minha alma pesada
A carregar esse fardo
(Nane-08/12/2014)
Asas cortadas
Entendo hoje, mais do que nunca
O olhar vazio de minha mãe
Enxergando no passado
O que poderia ter sido
Se por outros caminhos
Tivesse decidido...
Dogmas e retidão
Presilhas disfarçadas
De encantos e joalherias
Quando uma só escolha
Decide uma vida inteira
Deixando consequências
Em outras vidas inocentes...
Voar sem um destino
Sonha o pássaro cantor
Preso na gaiola...
Temeu voar quando podia
Agora se faz tarde seu querer
Restou-lhe o olhar vazio...
(Nane-02/12/2014)
Saudosismo
Posso ser estranha por não gostar da vida,
por me sentir enclausurada,
Por não ter expectativas...
Vi tantas lutas por ela (vida)!
Pessoas começando a viver e já batendo
na porta do céu (?).
Gente querendo sobreviver (e não "viver") a qualquer preço
num corredor gélido que mais parece matadouro.
Vi crianças esfaceladas, sorrindo e chorando.
Mães inconformadas e até uma índia rezando
para que Tupã a livrasse do filho doente e "estragado".
Não vejo a morte como o fim, mas uma volta
ao seu verdadeiro lar.
Sofro sim a falta dos meus que me antecederam
nessa viagem repleta de mistérios, mas aguardo,
sem pressa a minha hora de também ir (de preferência
sem despedidas). Sei também e tento me preparar
(mesmo sabendo que de nada adianta) para o dia
que minha mãe se for (e torço muito para que seja
antes de mim).
Posso ser estranha por não gostar dessa vida aqui,
mas não me tomem por louca.
Sou apenas alguém que sente saudades de casa...
Não necessariamente sou triste por não gostar
da vida aqui.
(Nane-09/12/2014)
Lendas e mistérios
Lendas e mistérios
Cercam o real
Onde começa ou acaba
Ninguém sabe dizer
Lendas e mistérios
Envoltos no cotidiano
Do louco e do lógico
Sem diferenciar
Lendas e mistérios
Confundindo ideais
Sensatos e insanos
Tênues divisores
Lendas e mistérios
Refletindo reflexos
De verdades e mentiras
Num espelho particular
Lendas e mistérios
Do que foi ou do que será
O certo e o errado
Ninguém jamais saberá
(Nane-06/12/2014)
Tigresa
Tigre enjaulado
Encarcerado e limitado
Ruge bem alto
Tentando provar
Que ainda vive
Deita e dorme
Sobre o cimento aquecido
Acomodado por seu destino
De fera presa
Presa que namora
No piscar dos olhos
Correndo livre
Tão fora do alcance
A brisa orvalhada
De outros tempos e cheiro
Agora se assemelha a sauna
Fedendo à desinfetante
Tigre enjaulado
No centro da cidade
Exposto à curiosidade
Sem mais nenhum propósito
(Nane-11/12/2014)
Sem promessas
Não te prometo uma poesia
Por não poder te "escrever"
Com a mesma intensidade
Desse olhar tão expressivo
Não te prometo uma poesia
Por não ser capaz
De fazê-la tão bela
Quanto a tua beleza
Não te prometo uma poesia
Por não ser poeta
Que te tem como musa
Mas se encanta quando surges
Não te prometo uma poesia
Por só saber (um pouco) rabiscar
Quando deparo com a beleza
Estampada em teu olhar
Não te prometo mais nada
Além deste rabisco
Que se não é obra prima
Está enxertado do meu mais profundo...carinho
(Nane-09/12/2014)
A força do destino
O amor se faz presente
E pressente a eternidade
Torna-se imortal
Apenas por ter existido
Mora no infinito
De um coração finito
Que bate numa alma eterna
Predestinada a ele (o amor)
O sem final feliz
Pouco importa para o amor
Que conviveu com a felicidade suprema
No instante em que aconteceu
E essa ficou gravada
Na memória do universo
Dos seres que se amaram
E por força do destino...se separaram
(Nane-08/12/2014)