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Frases de Naeno Rocha

424 frases

TUDO JÁ FOI DITO Tudo já foi dito Mesmo que não se tenha tudo entendido
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TUDO JÁ FOI DITO Tudo já foi dito Mesmo que não se tenha tudo entendido Pode ser que nem tudo tenha sido escrito Mas tudo já foi dito Até o que falta dizer Até o que já se entendeu Um amor fala com os olhos E o que os olhos podem dizer Tudo já foi respondido Tudo já foi repetido Mesmo que em sussurros Mesmo que por mímica Ou por códigos da boca. Tudo já foi dito Um coro de vozes numa ribalta Vai até ao final da cantilena E aí tudo terá sido dito E cantado Mesmo que na apoteose O coro de outras vozes Tenham sido só ouvidas E não reconhecidas. Mesmo os sinônimos Os antônimos, os anônimos Que se calam quando gesticulam Quando andam a pensar baixinho Tudo terá sido dito.

INDIFERENTE É indiferente o pensamento Ao que ferve em sentimento
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INDIFERENTE É indiferente o pensamento Ao que ferve em sentimento Parar a sofrer Dores do inconsciente Chora, acalma o momento Dói Tudo é um só tormento Amar, viver, por descontento O amor em tudo dói Chora dores até ficar dormente O sono vir e o sonhar intente Novamente o choro O amor em tudo acorda Não dorme profundo Dorme na pele Dorme no esconderijo calado O amor em tudo implora Contra as referência do tempo fundo O pensamento todo é de lembrança O sentimento é todo de desesperança.

TRATADO A quem pertencem as águas Das outras ondas dos mares frontais
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TRATADO A quem pertencem as águas Das outras ondas dos mares frontais Houve uma alma que a pacificou Nas bravuras de tudo e mais. Recordo o rei e seu cavalo castanho Andar por cima das águas num milagre Mas antes Cristo já sabia o tamanho Do pecado de quem se sabe náufrago. Beijado o dorso pela areia grossa Imposta a pena das águas torrentes Quando ordenar, alguém decerto possa Tomar de seu os peixes doentes.

AINDA QUERO AMAR Passa lento, amor, ainda te amo Ultrapassa a mim, some da minha vida
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AINDA QUERO AMAR Passa lento, amor, ainda te amo Ultrapassa a mim, some da minha vida Sai de dentro do meu coração Alça vôo acima da minha visão Envolve-te de outra essência. Atinge o longe, não cansa de andar Vai como uma pequena barca Que singra o mar já a altas horas Ainda te amo, vai embora. Não deixa marcas, ainda quero amar Arma-te de tuas hélices voadoras Sobe, sobe, a eu não poder mais te ver. Deixa-me ser vazio e só Para que não me dê em nacos A alguém que vou amar. Vai sem pressa, amor, rompe comigo Vê meus defeitos por teus belos olhos Para que outros eu possa contemplar. Estende-te amor, nas águas turvas Larga-me, já se eleva o sol. Brilham os lugares por onde andamos Primeiro o alto, as frondes das matas Depois o chão onde riscamos planos. Contorna a foz no primeiro estreito A que eu não te veja, ainda quero amar.

UM DIA NÃO SE REPRETE Um dia não se repete! Podem ser iguais as correntes de ar
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UM DIA NÃO SE REPRETE Um dia não se repete! Podem ser iguais as correntes de ar A força do sol O itinerário da lua A temperatura atingir os mesmos graus Mas é outro o dia Pode a dor persistir igual Pode o amor chegar Às mesmas horas Como pode demorar uma semana Te ligando sempre ao meio dia. Pode o céu ficar sem estrelas Por noites repetidas Nos trajes da mesma saudade. Pode os ponteiros do despertador Posicionarem-se nos mesmos segundos Pode o ipê sombrear o rio Desenhando um mesmo desenho escuro E por alguns dias contemplares A beleza das mesmas barcas Indo e vindo dos lados das águas. Pode cair um chuva fina Ou mesmo um temporal As nuvens fecharem-se feiamente Sempre como já vira Pode o coro de cigarras Das mesmas seis horas repetir-se Pode a saudade chegar Trazida pelo mesmo vento Quantas vezes te importunar Provocando tuas mesmas lágrimas. Mas o dia não, é outro. E tu haverás esquecido de tudo que foi varrido Do tempo que tudo durou.

QUEM TEM BOCA Dizem de jeitos que sou Falam misérias de mim
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QUEM TEM BOCA Dizem de jeitos que sou Falam misérias de mim Que nunca vou ter um amor Que em tudo eu sou assim Caso sem jeito, anormal Que eu ando mal e tão só Que vou ser sempre abissal. Que o que quero no momento É inoportuno eu ganhar Me citam inciso sem fim Falam de mim porque gostam Me dão só meio de mim O bem que eu tenho nem notam Será porque eu vivo assim Interessado por mim Sei que falam mais de mim.

O TEMPO DE AMAR O tempo é próprio dos que amam profundamente, Olhos e nós são espalhados pelo vento.
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O TEMPO DE AMAR O tempo é próprio dos que amam profundamente, Olhos e nós são espalhados pelo vento. Chove muito e o tempo é bom para os que plantam. O tempo assim, arremete o amor a outros tempos Em que as tardes eram de gemidos e caras sorridentes. Vai o dia e fica o tempo propício Para os que têm no amor um vício. Para os que vêem nos leitos precipícios. E cai à toa, a loa é boa, sulcaram a terra Erraram o ventre, a força da mente materializou O amor que se quer, o amor que vier. O tempo de hoje é propício à jogatina Alguém olha nos olhos e se declina, Até à boca, que se molha nas verdades. Que amar é bom, que todo mundo sabe, Que amar é tom de céu todo azulado; Vai o tempo e fica o dia na metade, E todo o dia foi por nós bem demarcado, Manhã o sol clareei, tarde o amor melhorei, De noite perdi-me contando estrelas E olhos que brilhavam do mesmo tanto. O mundo contempla o tempo, que há em todo lugar. Nos pés de quem fareja uma perna e meia Nas mãos de quem segura seu coração. Para os que vêem nos olhos luzes, Seguram a claridade e se dão na boca Regujitos das entranhas expostas, Amor que não vê pelas costas, e não se despede, Prefere andar, montar o próprio nome, E amar, montar o diagrama, se enclausurar Aonde for bom, o tempo é todo para se amar.

FIRMAMENTO Um dia eu descobri Que lua é um espelho
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FIRMAMENTO Um dia eu descobri Que lua é um espelho E sua luz que veste as noites De brancura e de saudades É luz que o sol lhe dá em cortesia. Quando ela lhe assedia E lhe mostra sua face esguia Nas horas do arrebol. E que nenhum dos dois caminha, Quem se movimenta é a gente Que quem os procura é a terra Em rodopios de fruta na água E por isso lhes vemos rodar. Por isso esse encantamento Que a gente tem pelos astros, Descompensados, olhamos suas danças. Que quando, mesmo dormindo Estamos andando, sem ver E somos nós só, Quem sós, que cansamos.

FÁCIL Sou fácil de ser encontrado Todos os dias eu me encontro com todo mundo.
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FÁCIL Sou fácil de ser encontrado Todos os dias eu me encontro com todo mundo. E demoro em cada estação marcada Como um trem de carga pesada Deixando ali metade do que me exede. Sou alvo fácil das frutas, Dos dejetos dos passarinhos Pois sob toda árvore me encosto E ali faço meus votos diários. Amo mas não me prende ninguém Assim da mesma forma Que seguro um fardo e converso O dia todo sem perceber Que perdi a hora de quase tudo, Que aonde eu cheguei e estava claro Agora está escuro, Eu saio, dizendo e não, adeus, Beijando e não tocando boca Por algumas poucas vezes. Mas mesmo assim, Querendo ser um esquisito, Só que nada premedito, Eu sinto gosto na boca que beijei, Eu sinto fogo no ventre que encostei, Eu sinto a batedeira do meu coração, Sou fácil de ser alvejado, Em qualquer esquina Ali faço uma mesa e várias cadeiras, E lá me encosto em mim, E encontro O homem sem amor, O ente sofredor. Porque amar, além do sofrimento volátil Tem as dores de dentro da gente, Uma queimação, um desconjunto nos ossos, Uma vontade de aos primeiros olhos, Sair seguindo o rumo deles.

DESPRAZER Alguém me ofereceu pela internet Uma menina para que eu adotasse
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DESPRAZER Alguém me ofereceu pela internet Uma menina para que eu adotasse De cara, fui com a cara dela. Mas quando ela mostrou o rosto sem riso E repetir o gesto, parecer domável Uma menina, um passarinho amável Que ainda tinha jeito e o mundo sabe Que é mais fácil destruir, que ver construir, Alguém assim tão belo. Fiquei tendencioso a adotar aquela abelha Que já adoçava, mel, seu nome era Izabel. E depois de correr mundo gravar sites Apagar os pretendentes, que eram tantos Vi que aquele anjo, não era Izabel, Também não era o diabo que se pinta Era uma ninfa, só pra uma fodinha. Em que mundo estamos, onde a beleza se estranha Quando muda o papel deixa de ser a Isabel, Pra ser uma babel, produto que se oferece no vento. Meu Deus do Céu seja da Terra, Que aqui que as coisas fervem, em alta compressão Que ninguém põe a mão, por um irmão. .

MÃOS DE DEUS Mãos de Deus dentro das águas. Apurando cores, entre o céu e o mar
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MÃOS DE DEUS Mãos de Deus dentro das águas. Apurando cores, entre o céu e o mar O Criador vai contornando O tom da tinta original. Ai, quanta tristeza Ver que o futuro é só isso, Os homens arrendando, descolorindo Deus consertando, de novo. Mãos de Deus dentro das matas Replantando, o igual Um verde que nunca conhecemos De outras cores pontilhados. Ai, que amargura Viver a vida no futuro. Coaxando numa lagoa, Teremos nos atrevido mais. Mãos de Deus do azul do céu Michelangelo refazendo O que terminou por contestar, De azul e branco retocados.

A LUA Quando ela passa tão suavemente, Enche de amor os olhos da gente
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A LUA Quando ela passa tão suavemente, Enche de amor os olhos da gente Quando ela vai, quando ela vem Clareia tudo e a gente sente. Linda, como se fala ainda, Dela que todos chamam de bela Dona dos sonhos dos poetas, Desvia o barco da procela. Quando ela falta, a gente fica Sentindo o mundo tão vazio Claro, e ela a mais bonita Claro clarão pelo infinito. Bela lhe chamam e ela se exibe Tela de Deus, a mais bonita Claro clarão de amor, se diga Nela tudo que é luz se mira. Quando ela chega tão levemente Treme o meu coração la dentro Quando ela parte tão vagamente Deixa molhados os olhos da gente.

TEMPO DE PAZ É necessário que se lembre de tudo A todo tempo tudo seja lembrado,
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TEMPO DE PAZ É necessário que se lembre de tudo A todo tempo tudo seja lembrado, O levante das mãos, o último abraço, O primeiro sorriso aberto no mundo. É preciso de nada se esquecer, De se trancar a casa quando vai sair, De se abrir a porta quando é para entrar, Da rosa pesada que entortou o galho. É imprescindível a todo momento se estar atento Não só aos perigos que vazam dos jornais, Nem às reticências que alguém tem À tua pessoa e a outras, Não aos espinhos que protegem flores, Permanecer vigilante ao amor deserto, O que necessita, a lágrima certa, Aos necessitados também do teu amor, Do amor que ferve, do que se aquieta No fundo, acomodado. Os necessitados, os fugitivos de seus amores, Perseguidos ainda, e ainda com dores, Dos malefícios de outrem, o infortúnio da diferença, Que há olhos que vêem.... É preciso estar atento aos teus, Que pra tudo há tempo, amor e lugar, De repor o mundo, a dor, de procriar, De estreitar-se a cama com um só cobertor, Esses cuidados todos que Deus nos delegou. Se fores infértil, que não seja de amor, Pois não fará falta um filho Que poderão ser teus outros estéreis de pais, É preciso estar atento, o tempo é de paz.

PARA JOSÉ ALMADA O poeta escrevia e refreava a inquietude Para observar de uma posição doçura
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PARA JOSÉ ALMADA O poeta escrevia e refreava a inquietude Para observar de uma posição doçura Se o que havia feito eram versos ou pinturas. O poeta catava das rosas o seu cheiro e ficava em êxtase, Tirava das pétalas mais envelhecidas Aquelas que fazem sombra ao galho Suas tintas matizadas, E aí compunha o resto do poema, E sua escrita invariavelmente, Era um contraponto no último nó Na boca dos proclames das diferenças Dos que contava nos dedos, Proletário, bóia fria, indigente, Negro alforriado, corações aperreados Dos que têm sede, como ele sentia. Gente. E por vê-los gente E só ele os via no dia e na noite, Não largava a tinteira, E com os dedos borrados de cores que não mais se distinguia, De que rosa tritura foram extraídos, Ele, almado, talvez o que mais expusesse a sua, Lançava pela janela papéis com inícios malogrados, Tintas com os tons mais misturados. E lágrimas, vertidas da nascente de sua alma.

PEDRAS Embaixo das frondosas Nascidas de sementes
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PEDRAS Embaixo das frondosas Nascidas de sementes Que eram pedras E por serem pedras, já cansadas Viraram sementes gordas. Por conta delas pariram As árvores e as sombras Onde descansa o luar. Podíeis dizer é um sonho Um surto de uma doença Quando eu digo do que vi: Uma estrela descer só Pousar numa dessas árvores E ficar ficar um dia e meio E começou a solfejar. Virou um pássaro branco E toda noite vem dormir Nas folhas petrificadas, Das mangueiras sombreiras Que diferentes de todas, Dos campos próximos dali, Elas nascem e crescem assim, pedras E de pedras são seus frutos Suas folhas verdes, a sua flora no verão. Pra quem duvida da estrela passarinho, Tire uma noite vigilante de lá, Também as frondosas mangueiras, Estão lá de fronteira, Com o que há e o que vai existir.

TE ESPERO Te espero desde o início do começo Desde o tempo dos lampiões de gás
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TE ESPERO Te espero desde o início do começo Desde o tempo dos lampiões de gás Desde o primeiro samba, a estação derradeira; Fostes sempre o meu amor tristonho e sensato Por ti me embati com a vida Matei mitos intransponíveis E fiz de pedras quentes flores orvalhadas. A terra tocou o céu Com a grande cauda de fogo Mares se juntaram pra te refletirem inteira No começo do nosso fictício amor. Dura e sublime criatura És o modelo renascido Das tantas mulheres invisíveis E ao mesmo tempo, mansa e de carícias Nosso amor corre para uma luta Ao toque de valsas muito antigas A abertura do sol será a nossa estrada Desvanecidos de paixão

CORAÇÃO Calma coração, O pulo é mais pra esquerda
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CORAÇÃO Calma coração, O pulo é mais pra esquerda Pra onde o caminho estreita E o sangue passa, entupido. Veio de sonhar agora? Deu para acordar mais tarde? Ah coração retarda A correria dessa gente De todos os teus afluentes. Contém-me na minha lucidez Deixa-me inteiro e louco E apeia de mim, me deixa. Pois quanto mais eu rezo Mais me despeço Das lembranças boas. E como escolha catada Vou me lançando fora Do prato, da boca audaz Oh coração, me renega Adianta-te aos da frente Deixa-me ficar pra traz.

PALMA DA MÃO Eu não conheço a palma da minha mão. Entre tantos cruzados de linhas,
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PALMA DA MÃO Eu não conheço a palma da minha mão. Entre tantos cruzados de linhas, E mais de um veio principal Onde descambam as águas dos meus dias. Não tenho noção do que seja a palma da minha mão, Reconheço, e já é volumoso As coisas que toco, a embaralhar meu destino. Reconheço, quando a espalmo frente aos olhos, Alguns poros suados, o anel centenário, A cor, que coincide com a cor do meu corpo inteiro. Na aventura a que me lancei, Em me procurar e me achar, Em algumas partes de mim deu pra ver Outras nem que eu virasse o mundo o contrário Daria para medir, saber, esboçar. Alguém, como eu, desconhece, numa vista frontal O seu crânio, seu cabelo, tal como são? E conhece seus buracos - só na cabeça contam-se sete- Afora os outros por onde se mete Nosso temor, dizer explorar. E os seus encontros de mãos e pernas, Como uma árvore, quem conhece? O por trás todo, ninguém sabe o que é. Sabemos dos outros, também minúcias, Nada de definido se sabe O que conhecemos de nós mesmos Também os outros conhecem, E somos mais conhecidos por eles, Do que por nós, da mesma forma inversa. Se por fora de nós pouco sabemos, Imagine um devaneio por dentro.