O sol se pôs,
neste dia interminável,
de ruas infindáveis
e pessoas apressadas...
Escureceu.
Estrelas, lua e a
calmaria...
Me verei
no sono cansado
após
mais um dia superado.
A lua, até que enfim,
(- Quem diria!)
vai pousar no meu jardim,
deslizando
em meu rosto
e abraçando meu
corpo.
Tão docemente
e amável!
Nenhuma outra intenção,
(lua que venero
e que me enche de paixão),
deitada comigo,
aqui no chão.
Sua vida
é seu belo poema,
é sua mais perfeita
obra de arte.
É sua canção predileta
e sua melhor peça teatral.
Sua vida é seu presente:
- Viva-a intensamente!
Sorria feliz!
Use figurinos coloridos,
experimente novos sabores
e abrace, com carinho,
seus amores.
A vida
é sua incontestável vitória.
Agradeça.
- É sua glória!
Às vezes,
nada digo.
Aposso-me de alguma solidão
para acompanhar a minha.
Perco-me
em labirintos.
Sinto.
Gosto de absinto.
E espalho versos,
pintados de ilusão.
Ausências que habitam
distantes épocas
das minhas memórias,
sem nomes,
sem rostos,
sem corpos.
Endereços nem constam.
falta a glória,
faltam folhas,
sobram histórias,
esquecidas.
Nem meu nome aparece.
Ergo as mãos,
saúdo o finito.
Lembro-me de que tudo era bonito,
quase uma prece.
Ajoelho-me
e sinto que algumas raízes
resistem em heroísmo.
Há uma luz
esperançosa,
mas não há recomeços.
Dou mais alguns passos
para recordar o vivido,
e depois…
o último tropeço.
Desejo abraços apertados,
sorrisos sinceros e francos,
corações em paz, confortados,
e amizades sólidas, sem solavancos.
Que a corrida não seja só pela vitória,
nem somente para constar na história.
Que coisas ruins saiam da memória,
porque todos merecem um mínimo de glória.
Que a fé não precise remover montanhas;
que medalhas não sejam só para quem ganha.
Que todos tenham o poder da barganha
e que realizemos grandes façanhas.
Se apontas em palavras,
já é má língua.
Se boa fosse,
silenciaria.
Se buscas a transparência,
coloca o coração na mão
e fita-o com olhos céticos.
Verás absurdos ecléticos
em sujeitos na primeira pessoa.
Abras-te.
Há outros.
Inclua-as
nas orações que entoas.
Não dá para ver a poesia como estática,
pacífica e calada.
Ela tem que derramar, tem que escorrer,
tem que ter versos que se entortem
para passar entre pedras, em fendas minúsculas.
Tem que ter a rebeldia objetiva de quem luta,
de quem protesta e sai à rua.
Poesia tem que ser expelida pela pele, em gotas suadas de inspiração,
tem que causar reações calorosas na mente.
Tem que limpar o corpo e a alma
e ,ainda assim, ser combativa.
Tem que nascer tomada de insatisfação.
Não será pacificadora se vier em paz.
Somos tão grandes quanto a verdade,
na mesma proporção,
em que somos tão pequenos.
A verdade é a chata da razão.
Viver é emoção.
sonhos é que fazem acontecer.
O resto é brutalidade.
O emotivo vive, sente e sonha.
O racional calcula o que não vive.
Velhos conflitos humanos:
- Eu sonho
e a verdade sonha comigo.
Vontades
De onde virão essas vontades,
que, vez ou outra, nos invadem,
misteriosamente?
- Nesses instantes, o mundo muda.
Esses milagres,
(Meu Deus!)
nos fazem sensíveis
e frágeis.
Até o egoísmo voltar,
a insensibilidade voltar
e tudo virar realidade.
Voltamos a ser tudo,
menos gente.
Canções intensas sem notas,
versos sem métrica,
amor sem medida.
Nem todas as belezas
as mãos alcançam.
- Há flores mortas –
E há também
obstáculos imperceptíveis.
Quando o amor toca a alma
nem o silêncio
(dos passarinhos)
cessa o voo.
Ele é música,
é poesia,
desconhece fronteiras,
alimenta o espírito
e aniquila barreiras.
O poeta e o poema
são confidentes.
Cada um sabe
o que o outro sente.
Estando próximos
ou ausentes.
São discretos.
Comunicam-se,
sabiamente.
Elo poético lindo de ver:
- Os dois sabem como ser
e se entenderem.
O primeiro dia foi de miséria,
os demais também.
Não fosse a carne do porco,
a fome seria total.
E, depois, um tiro certeiro
quebrou a asa de uma ave.
(Uma das asas ainda batia)
Desiquilibrada, caiu.
Com apetite voraz,
segurou-a pelo bico,
enquanto abria o pescoço.
O ar encheu-se de sangue.
Barriga vazia.
(Abatida, consumida)
Por tempos, salvou seu corpo,
mas a alma,
miserável,
morria, dia após dia.
Relógios
Os relógios são severos
e, as sombras, escassas.
Diálogos sumiram,
amordaçados pela tecnologia.
Vivendo em si,
angustiado,
o homem se tornou isolado.
Distraído, distante.
com lobos
na alma.
Quando uma porta se fecha,
sinto a tristeza da alma vazia.
Imagino a dor na cravada da flecha,
que vem da solidão e dos amargurados dias.
É como um grito que ninguém ouve,
como um silêncio que nos torna insanos.
Sei que há lagartas cortando folhas
e raivosas tesouras abrindo o pano.
É como a tristeza, depois que o trem passa,
e a incerteza da dúvida se a angústia cessará.
É choro no embarque entre promessas
e a incerteza de quando a saudade gritará.
Pouco adianta a mim
conhecer teus anseios.
Afinal, o mundo é cheio de perigos
e ameaças.
Por isso, sonhe o possível.
Há presunção de culpa deliberada
contra a liberdade.
E somos só mais um,
diante do fuzil municiado.
Basta um disparo,
nem tão raro,
nem tão caro.
Entardeceu,
o relógio soou.
A matriz emite o som
e contempla a praça.
- Para que servem as horas?
Gosto de ser feliz,
tanto, que sou!
Mas o tempo...
Se não passasse
haveria adeuses?
O presente,
eu sei,
é todo meu.
O tempo…
só pode ser Deus.
O poema fez brotar
lindas flores,
em essências especiais.
cada verso, uma fragrância.
Cada estrofe, um acorde
com notas olfativas
e concentradas.
Um poema meigo
e perfumado
para ser sentido,
para ser abrigado.
E, pela alma,
acalentado.
Sacudiu as asas na poeira.
Depois...
Vi, ao longe,
sacudi-las na poça d'água,
antes de subir e pousar,
como sempre faz,
na laranjeira, aqui em frente.
Outro dia, lá estava,
valsando de asa alçada
para a fêmea.
Agora montam ninho.
As penas brilham
de felicidade.
Ao amanhecer,
entoa um canto vencedor
e a companheira freia o voo,
vindo empoleirar-se ao seu lado
O cheiro da flor de laranjeira
me distrai.
O amor está em tudo.
curiosamente,
em tudo.
Primeiro, a boca,
a fala, o encanto...
Depois, o beijo.
E depois,
bem depois:
- Os olhos:
espelhos frios,
fixos e sombrios.
Imagens fugazes,
detalhes sutis,
um olhar...
feliz.
Como
réstia de sol
e cheiro de flor.
Longe e visível,
léguas de um girassol
e o sol a acariciá-lo,
- suavemente!
Na memória,
voltam versos,
que o vento levou.
Era intenso o brilho,
mas a vida apagou.
Da boca do beijo
veio o silêncio
que...
Para sempre se calou.
As palavras vinham com asas.
Eu as ouvia, mas passavam.
Meu tempo de sorrir diminuiu
e elas começaram a retornar
sábias, precisas e experientes.
Nas pedras da caminhada
as ouço tão atuais,
definitivas e confortantes!
É de ti que me lembro,
quando os contos de terror
tornam-se reais:
- Pai.
Deus dos meus anseios,
meu anjo eterno!
Só sonha liberdade
quem preso está
e brada por socorro
na incerteza das caminhadas.
Os versos pulsam,
sacodem, dançam
e explodem de alegria.
Comemoram, aplaudem,
elogiam, criticam.
Lamentam,
afugentam angústias
e se calam.
Falam, escutam,
declamam, rimam.
Versos têm alma.
Verso é vida!
Maçãs coradas,
olhar infindo,
dizendo nada,
sorriso lindo!
Marcas do tempo
entre duas datas.
História composta,
hiatos do vento,
em sílabas separadas.
Do dito tudo
sobrou o nada!
Trago mãos vazias
e posso até mostrá-las.
Nos meus braços,
nada há.
A dor de Maria
me faz sentir
que sou total desalinho,
tropeçando nas pedras
do caminho.
Não há pontes unindo
meu sul ao meu norte.
E o vento melancólico
sopra, excessivamente forte.
- A alma balança.
Onde estará o ponto sagrado
da harmonia humana
para o mundo ser ancorado?