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Frases de Moacir LuÌs Araldi

790 frases

⁠Foi o último sol. depois, o inverno chegou.
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⁠Foi o último sol. depois, o inverno chegou. A brisa cobriu a vida. Nada mais era visível e o que se via não nos via. O branco foi cobrindo os olhos fechados. Silenciados. E os sonhos dormiram eternamente.

⁠Olhei demoradamente para a foto da família. Rostos lindos,
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⁠Olhei demoradamente para a foto da família. Rostos lindos, que meu coração vê. Dedicatória de algum ano em que o sol se punha, rindo. De lá para cá, eu a perdi, juventude! Agora, só a tenho retratada. Mas eu ainda a encontro na memória... Ficou longe a cor da infância! Silêncio é o que prende a garganta. Fecho os olhos. Saudade!

Sou quando digo, mas, quando dizes não, sou mais.
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Sou quando digo, mas, quando dizes não, sou mais. Só minha voz me fala; O que vem de outra boca não me desperta. Eu vivo em mim e em mim sou. Os que são por aí nunca serão meus. E quando eu sair, sairei solitário, sem nenhum aceno, nenhuma despedida. Silenciosamente invisível. (Do livro Abstratos poéticos)

Dobradiças A porta está fechada há muito tempo.
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Dobradiças A porta está fechada há muito tempo. As dobradiças rangem, longamente. Chove não tão forte, mas os pés parecem afogados. Um ventinho anuncia pausa. Pingo isolado faz a poça tremer. Lá dentro está seco. O tempo deve ter agido, mas criou mau cheiro no ambiente. Marcas de total ausência. O que foi sonho, foi-se. Foice. As marcas estão em tudo. Era lindo! Findou-se e a criação não encanta, não é mais arte. Voltar ao trem é inevitável: - balança, balança, balança e segue seu caminho, seu fluxo. As estações se sucedem. Sigamos. A vida assim pede. Ainda chove, não há enganos. Tudo está vivo, só não se expressa. Tempo impiedoso, indigesto, implacável. Nada desfaz, apenas afasta, lacra e esconde a chave. O olhar em pântanos não brilha cintilante. Nada voltará a ser como antes. Cegará em instantes. ⁠

⁠Eternidades Quase toda noite é escura, mas há exceções.
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⁠Eternidades Quase toda noite é escura, mas há exceções. nenhuma certeza é absoluta, há variantes na imaginação. Nem todo breu é sem brilho, são diferentes as visões. Quase todas as sentenças são definitivas, mas há exceções: ­ Nada prende a inspiração e, se há liberdade, não existem, nem mesmo, prisões. Almas não ficam sozinhas. Existe a leveza do voo e, se não bastasse, são tantas as eternidades!

⁠Visão Vi a lua entre árvores,
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⁠Visão Vi a lua entre árvores, entre montes, entre névoas. Tão alta! Não há pontes, só o horizonte vazio. Quisera poder alcançá-la e deixar marcas de pés para marcar o caminho. Tão distante! Mas a vejo e tocá-la é um devaneio, nada mais do que um mero desejo.

⁠Camafeu Nozes se abrem (prensadas),
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⁠Camafeu Nozes se abrem (prensadas), como olhos sonâmbulos em altas madrugadas. Morder os olhos, sentir o sabor, e degustar lentamente semente por semente. Depois o vento volta e sacode a Nogueira. Outros olhos brancos: inefável Camafeu.

Exilados os dias: - Self da vida sem lume.
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Exilados os dias: - Self da vida sem lume. Paisagem atroz, cheiro de pólvora mata o ar. Mundo órfão. Dormem as borboletas. Pedras endurecem o tom e as areias desmaiam o chão. Gotículas de silêncio. O vento pouco tem para balançar. Aroma de chuva ausente, o vaso vazio, sedento de sementes.

⁠Sentença Sentenciei a noite, apaguei as estrelas,
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⁠Sentença Sentenciei a noite, apaguei as estrelas, escureci a lua e proibi lembranças. O mundo virou trevas. Dizer é mais forte, sentir é menos, muito menos. Dizer enfurece alheios, desperta dormidos e azeda. Sentir é solitário. Silêncio não dá eco e assim, calado, quase dormente, meu eu me invade, docemente adormeço - Há tanta suavidade em não ser!

Abrem-se flores e sucumbem rápido os dias setembrinos.
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Abrem-se flores e sucumbem rápido os dias setembrinos. Mas ainda se pode dormir entre pétalas uma saudável sesta, no mar primaveril. Borboletas se perfumam inocentes e incautas no sol florido. Ao longe, um ruído: - Outubro se aproxima. Lá no alto, uma folha balança - bem acima- dóceis dias.

⁠Distante A gaivota pisoteia a areia (Olhos flébeis)
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⁠Distante A gaivota pisoteia a areia (Olhos flébeis) Triste, como os dias cinzentos, na beira de um mar que, distante, ondeia sem rumo. Há uma âncora enferrujando os tempos e o horizonte vai escurecendo. O crepúsculo náutico é tedioso. A gaivota sumiu -Mas há o barulho das ondas - O mar parece adormecer. Eu canto, solitário, sem cantos de sereias, enquanto meus olhos, úmidos, esperam o amanhã. Moacir Luís Araldi (Do livro Abstratos poéticos)

⁠Delírio O píer fica imóvel, enquanto o navio se afasta.
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⁠Delírio O píer fica imóvel, enquanto o navio se afasta. Vou ficando cada vez mais sozinho, - Eu e o livro - que agora, há pouco, lia, ouvindo o barulho das ondas. À noitinha, a neblina virá, como sempre vem, e mudará meus pensamentos. Lembrar-me-ei das nuvens brancas que abrirão o dia, amanhã, e terei vontade de escrever um verso nelas. Mas o giz não alcança e, se alcançasse, seria da mesma cor: - ninguém leria. Ideias são, por vezes, delirantes. Eu morro, como morre a sombra ao anoitecer. - É o destino – Depois, desapareço na imensidão das águas, cavalgando ondas da imaginação.

⁠Pranto oculto Por suas estrelas, a noite é linda,
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⁠Pranto oculto Por suas estrelas, a noite é linda, e a escuridão que não se vê é pranto oculto, latejante, vulto que dói profundo. Escala o mundo … em vão. É a estrela mais distante, entalada na memória e no semblante. É como verso acabado de amor sem amantes. E a que brilha é como a velha música em notas da trilha, algo grande que antes havia e não há mais. Por todas elas a noite… Às vezes escura, às vezes bela. É como a vida: - Eterna espera.

⁠Lua A lua se deita na minha cama feita
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⁠Lua A lua se deita na minha cama feita e some, antes que amanheça. Procuro-a na pureza dos bosques, em réstias de luzes e em folhas e selvas. Avisto alguns bichos, beirando as águas correntes, em sonhos que a mata esconde. Fixo o olhar sobre o rio e a vejo ao fundo toda nua, toda lua.

⁠A música Entra na alma e deixa a mente em rebuliço.
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⁠A música Entra na alma e deixa a mente em rebuliço. Estressa e acalma, decepciona e encanta. Viver é tanto e tão pouco! É só uma canção, mas arrasta o mar, mareja os olhos e provoca lembranças. Saudosas danças puxa lágrimas, estende a mão e já não alcança. Há o horizonte para ser refeito. Tantas montanhas, dunas, montes... Já nada preenche, não refaz. Eram tantas, mas tornaram-se jamais. É só uma canção com falsetes, versos líricos e amores em vão, que se vão como dançar num pélago... É solidão e passa. Escurece e perde a graça. É só uma canção que já não se canta.

⁠Paraíso Permita-me voltar ao lugar onde se escala pelo ar
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⁠Paraíso Permita-me voltar ao lugar onde se escala pelo ar sem ruídos, sem plateia, sentindo o perfume das azaleias. Sacadas enormes, suspensas, cheias de vazios brilhantes, onde o tempo corre diferente e as horas são meros instantes. Ali se vive a felicidade. Tudo branco, tudo igual. Há troféus abundantes, que ninguém quer levantar. Não, não é o céu que se desenha, nem o paraíso do desejo sonhado. É um lugar de fantasias naturais, hoje, atual - sem futuro, sem passado. (Do livro Abstratos poéticos)

⁠Temporal O horizonte escureceu, o vento rapidamente se levantou,
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⁠Temporal O horizonte escureceu, o vento rapidamente se levantou, o sol partiu fugitivo. A abelha abandou a flor. Quase em desespero, o pássaro iniciou um voo longínquo. E o vento parece começar a despir tudo. O tempo… O temporal tem força e nunca é igual. Tão bruto, descomunal, arranca placas, espalha latas, arremessa papéis. Galopa medos, anseios, olhos cheios. E, quando passa, ainda fica para trás.

⁠Nada Há promessas de eternidade,
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⁠Nada Há promessas de eternidade, mas... - Nada resiste - (Há falácias em tudo), nem o corpo, nem a alma, nem a mente resiste. Ante o corpo nu, o desejo aflora e vai embora. Tudo (À força da marreta) sucumbe, desanda, desmonta. Ao demolir-se, ou se perde, ou renasce, em cinzas, sobre as águas salgadas.