A paisagem veste-se de noiva
Os caminhos congelam
Pobre gado!
Desespera-se pelo estábulo
Da boca verte fumaça
Um sentimento
sentido,
O tremor
do minuano zunindo,
O milho,
doce alimento
Noite impiedosa
Um filete de lua
tremelica...
gelado.
Lua feita de silêncios
na calmaria noturna
A vida, inconformada,
tatua frases no peito
Pinta uma lágrima desmotivada,
amistosa,
- Do nada -
O futuro é desconhecido,
mas a noite é enluarada.
Onde foi que o vento virou?
Meus passos lentos
estão pesando
O cansaço senta-se à beira da estrada
e espera
Te prometi eternidade, vida!
- Fidelidade além do soneto –
Aberto, o peito expõe feridas
Aves pretas sobrevoam
Sombras passam em meu corpo
e sabem que ainda respiro
Me desejam morto.
A vida em espírito e corpo se formando
O vento embalando a luz
nas poesias lançadas ao ar
Canções intensas sem instrumentos
na ternura dos meus sentidos
Cresci admirando os caminhos,
colhendo belezas que as mãos alcançavam
- Lamentando as flores mortas –
e fazendo versos ofertados com carinho
Meus olhos anoiteceram
O silêncio me fez lembranças aos passarinhos
A vida é um voo constante.
O arame farpado
fere o vento
e a ferida arde
O sangue dolorido
espalha-se
e morre
na terra
A vida treme
Geme o fim
Adeus, eterno!
A morte ainda
é para sempre.
O rio que brinca em mim
É infantil
É límpido
Águas saudáveis
que nem sei poluir
Coaxam as rãs animadas
A voz humana silencia
Sento-me à sombra marginal
extasiado a observar:
- Náiade não há -
A voz da natureza
muito tem a nos ensinar.
A vista da vida
vinha dos olhos de vidro
das ventarolas das janelas
Descendo
a descida
Degrau
por
degrau
Lindo e límpido
como água do poço
Frescor da brisa
cheirando a flores
Zunido de abelhas
adoçando o sonho
Crescidos
os girassóis sorriam.
Quero amanhecer ouvindo a voz do mar
e partir sem sonhos
- Pela areia molhada da esperança-
Recolher-me-ei às minhas espessas crenças
rumo a novas e sensíveis lonjuras
Vou ao encontro dos poetas de outrora,
trocar a vida pela poesia sem aflições;
Ouvir metáforas de mentes geniais,
nostalgias marcantes de outros jamais
Descansar os olhos turvos
em insônias tantas e indecifráveis.
Equilibrar-me no muro frágil
do abismo e do paraíso celestial
Poemas divinos me manterão ativo
sem ostentar nenhum glamour
Sensíveis versos líricos livres
Ternos, imortais, inesquecíveis;
- eternos -
Há paz em ver o mar
Sossego interior
alimentando o sol
Versos em suas ondas
lembram-me que ontem,
pensativo, contei estrelas
Na areia a gaivota
silencia o semblante
A tarde envelheceu...
- Sozinha -
Há um grito que não responde
Eco silencioso que soa longe
Solto no ar
A onda peleia com as pedras
-indestrutíveis -
Mar sem memória de marés
não é mar
Sal sem demasia,
apenas mar
sem sinônimos
nem significados
Arrojado,
céu azulado
A água passou:
é passado.
Deito meu olhar sobre o mar,
no instante em que a onda
mansamente toca meus pés,
trazendo vontades
não sei de onde,
nem de quê.
Ternas lembranças me percorrem
e um riso incerto voa,
saudoso das asas poéticas Pessoais
do mar salgado de Portugal.
Sou ungido
das tuas águas,
ó mar!
Sinto-me doce
ante teu sal.
Pequena ilha
a milhas da costa
contempla o continente
e descansa
Fixa,
move o mar
Pássaro ínfimo
habita
Barco noturno,
distante
Luz móvel,
errante
Meus pés de areia
- Ilha distante –
Sopro de esperança,
vista que mal te alcança
Cara e coragem,
eternas bagagens
desta viagem
rumo ao fim.
Viver é partir
sem apetrechos
nem preconceitos,
levando a vontade
de ir, passo a passo,
construindo a história
preenchendo lacunas,
de lembranças na memória.
Lembranças tantas...!
Qual é a melhor, eu nem sei...
Algumas, certamente vivi.
Outras, creio, sonhei.
O tempo andou distraído
e me alegro ao me lembrar
- nesta ausência de memória -
de tudo o que foi vivido.
A melhor delas
nem revelo.
Não por esquecimento,
mas pelo prazer
de a guardar...
A palavra bateu no rosto
e desmanchou o branco.
Emudeci.
Corei no silêncio,
ante o abismo.
O oxigênio distante
ignorou o meu sufoco.
Inventei vidas
minhas.
Adivinhei pensamentos,
em ares abstratos:
- Sobrevivi.
Sou ativista do inativo
porque vibro com meus sonhos não vividos.
Emociono-me com o que não tenho sentido.
Lembro-me do que sempre foi esquecido.
Sou o belo que não se viu.
Juventude que do nada envelheceu,
vida de quem nunca viveu,
morte de quem sequer nasceu.
Não me conheço.
Sou o estranho meu,
fé e crença de ateu.
Prazer em não me conhecer!
- É só o que posso dizer.
A rua ainda me acolhe
em algumas caminhadas.
Tantas vezes, esperançoso, a percorri!
(Espiando em portas nas quais não bati).
Rua da minha mocidade,
das folgadas tardes de domingo,
do cinema lotado
e do bar-café ao lado.
Há tantas outras vielas antigas,
Jovens, revitalizadas,
mas só tu, rua minha,
estás em mim eternizada!
Por ti é que aqui volto
e professo minha fé na Catedral.
Teu nome não digo,
este segredo levo comigo,
nesses passos na área central.
A infância passou.
Ficaram, no tempo, as vivências
de palavras suaves,
que preenchiam carências.
Há a dor latente
(morte natural),
último toque dos ‘eus’.
O tempo que traz
também leva.
A despedida não foge.
Numa estação qualquer,
alguém parte.
É o inevitável
adeus.
Onde se abriga o silêncio
que tantos guardam?
Dizem até que o silêncio fala,
que talvez se expresse
na voz do rio que corre,
no canto matinal dos passarinhos
e no vento assobiando, de mansinho.
Talvez o silêncio esteja
na música distante
ou no poema lírico engavetado.
Talvez se abrigue
nos segredos prometidos
ou no amor e seu gemidos.
Talvez até grite,
mas não é ouvido.
- Existe o silêncio
ou o mundo
está muito distante
para ouvi-lo?
O perfume exala,
inspirando o rimador.
Quente é a poesia.
Seu rosto é retrato
de vapor abstrato,
desenhado no espelho.
O verso cafeinado
ascende os sonhos
dá asas aos pensamentos
enobrece a criação
e
a
ternura
poética
voa.
Tempo prático é aquele
em que se cultiva roseira,
e, num momento romântico,
presenteia-se a rosa.
Devaneios são
perda de tempo.
Atemporais são
as horas vazias,
que tornam a alma fria.
Tempos melancólicos
são divagações e lembranças,
que pararam no próprio tempo.
O tempo para
O perdão
é infindo.
O tempo presente
é para ver a vida florescer
e o amor dizer: – Bem-vindo!
Esse é o tempo de viver...
Ah, que tempo lindo!
éticos)
Moacir Luís Araldi
O sonho bom,
antigo e jovem,
antes planejado...
Despejado nos lábios:
- Desejo.
Sorrir
– não o riso que se apaga,
mas o longínquo,
contundente
como fruto e semente.
Feliz o que vai
e
volta,
pedindo bis.