-'Chega de sonhar', ele me disse. 'Vê se cresce menina!'
Peguei uma canetinha preta e desenhei um ponto bem grande na cara dele.
Disse furiosa: 'Olha no espelho!'. Ele olhou. 'Mas o que é isso?' - perguntou curioso.
-'É um ponto. Tô dando um ponto final em você'.
Depois de uma pausa de ambos, continuei:
- 'mas i, olha lá - o ponto tá virando um buraco negro no universo e tá sugando você todinho para dentro dele'.
- isso é o que acontece com quem quer acabar com meus sonhos!
Não há sentindo em ser muito boa. Só vejo desvantagem. Choro à toa, sempre amarga, fico de cara amarrada por aceitar quieta o que não agrada. Bom mesmo é ser danada. Danada de esperta, danada de brava, danada. Ter sempre uma carta na manga, uma carta mágica: uma carta 'cala boca cara, pega essa sua mala, cheia de tranqueiras, não me amola mais com suas besteiras, que eu tô o bicho – não tô de bobeira'. Bom mesmo é ser danada, danada igual pimenta.
O relógio tocou – naquela mesma hora, mas eu não queria levantar.
Naquela hora de todas as manhãs – eu fazia o seu café, mas não sem antes de afagar demoradamente o seu cabelo. Observava suas sardas – espalhadas, coloriam suas bochechas e seu sono era sempre tão sereno!
O relógio tocou – naquela mesma hora, mas eu não queria levantar.
Sabia que haveria um travesseiro vazio onde era o seu lugar.
Ele deitou devagar no travesseiro, suspirou fundo.
Olhava para o teto, imaginando estrelas.
Elas ficavam tão próximas quando fechava apertado os olhos,
e então os abria novamente, e os fechava... até pegar no sono.
Abraçava devagar os sonhos e dormia.
Tô precisando de um afago, abraço, presente, sorriso.
Tô precisando de um compromisso,
tô precisando de alguém pra passar o Natal.
Tô precisando de um amor fixo, que não parta se acontece isto ou aquilo,
tô precisando daquele tal: como é mesmo? - Marido.
Certa vez fiz um castelo na areia, quando ainda era bem pequena. Eu era a princesa. Imaginei cores e faixas tremeluzentes vermelhas nas torres, já que areia é uma cor só. E também me coloquei a imaginar soldados, cavalos e um rei. E tinha um vendedor de frutas. Foi por ele que me apaixonei. Minha mãe me perguntou: 'Vendedor de frutas? Mas você é uma princesa, não seria melhor se apaixonar por um príncipe?'. Olhei para minha mãe sem entender. Eu amava o vendedor de frutas, o cabelo, o jeito, o olhar... ele era o meu príncipe. Ora, ele era o meu príncipe, que carregava a vida nos ombros e suspirava cansado no final do dia... e ainda sobrava um tempinho para me dar um sorriso, que ficava na janela, olhando o sol se pôr e o seu partir. Isso era ser um bom príncipe para mim.
Eu te escolhi por causa dos olhos.
Não, por causa da boca...
Não, não - já sei - foi o sorriso.
Mas daí paro e penso: mesmo de olhos fechados,
numa cara amarrada e de bico, te acho linda.
Acho que me apaixonei mesmo foi pela sua inconsistência.
Esse seu poder de ser e deixar de ser tão rápido.
- não cai na rotina. Fico o dia todo te desvendando...
- 'Não faz mal que você fique. Aliás, já ia te pedir isto mesmo'.
- 'Mas porque demorou a pedir?'
- 'É que fiquei com medo do teu não. A incerteza ainda dói menos'.
- 'E agora? Tem certeza que fico porque te amo?'
- 'Tenho certeza que fica porque quer... sua presença já me basta tanto!... o amor, esse detalhe, a gente vê depois'.
É que esse seu sorriso... há muda tanta coisa!
Tranforma em cor qualquer cinza,
faz chuva cair mansinha - um sorriso sabor cobertor e pipoca numa tarde fria,
um colchão, uns amassos...
Havia uma casa.
Nela um porão empoeirado.
Duas lamparinas apagadas, um resto de vaso, uma cortina rasgada, quadros sobrepostos e um cheiro de madeira adocicada.
Guiei-te pela mão. Não que estivesse suficientemente escuro, mas te guiar é como dizer – vem que sou tua.
Amamo-nos naquele chão, que ardia os pulmões – não sei se, pela necessidade dos corpos, ou se por todo aquele pó.
Pó nenhum mais incomodava, ao final.
Só havia o sorriso então, invadindo aquele espaço todo. Luzes tremeluziam do olhar e já não estavam apagadas as lamparinas. Ardiam e queimavam como meu ósculo,
molhado em suas costas.
Sabe, já fui mais cinzenta.
Já chorei várias vezes e já me entristeci com a chuva.
Já deixei de esbanjar sorrisos. Já deixei de tentar ser una.
Mas, este aqui agora – este aqui é o teu riso,
Que me acompanha o paço e me faz perder sentidos.
E teus olhos, brilham como diamantes lapidados de sonhos
E tua boca espreme meus lábios
com uma ânsia louca de que o dia não finde.
Não findará, não terminará, acredite!
Somos amor.
Ascende a luz, quero te ver completa.
Acalmando os sentidos, com as pontas dos dedos, nas têmporas.
Acalanta meu desejo com teu riso sereno,
sorriso de meio verão
Ameno, morno, quase a esquentar.
Abraça-me forte: sou travesseiro – travesso, travesso,
Ainda te querendo mais – Noite não termina!,
...antes de o sol raiar quero fazer morada nesta tua barriga
Não sei muito falar de amor.
Aliás, me dói pensar nele.
Me dói pensar em não ter mais sua voz,
Seu gesto,
Seus olhos brilhantes,
observando a chuva ainda morna que tica o telhado.
Falar de amor dói,
quando sabemos da certeza de o que amor um dia vai.
O que me alegra é saber que se não tiver o toque – pelo menos minha alma estará em sua companhia, entrelaçada num amontoado de nuvens.