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Frases de Maya Rios (heterônimo de Gabriel Hayashida de Arruda)

5 frases

⁠Hoje pensei em você. E sorri. (O sorriso veio antes que eu soubesse o que ele queria. Como um reflexo do joelho, mas do espírito). A boca obedeceu antes de a alma pedir permissão.
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⁠Hoje pensei em você. E sorri. (O sorriso veio antes que eu soubesse o que ele queria. Como um reflexo do joelho, mas do espírito). A boca obedeceu antes de a alma pedir permissão. O sorriso veio de um lugar anterior à boca: nasceu nas costas, subiu pelos ombros, como uma criança que sobe em árvore, roubando fruta verde. E então, já sem jeito, se derramou nos lábios. Um pássaro que caiu do ninho, antes de aprender a voar. (E agora o sorriso ficou preso nos dentes — um resto de você que mastigo sem querer.)

É difícil me sentir tocada pelos outros quando a ansiedade me consome. Tudo se antecipa em minha mente antes de acontecer. Primeiro, me dobra por dentro, e só depois o fato se revela, já desdobrado. As surpresas, contudo, são sempre boas, porque vêm do inesperado. Por elas, as co…
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É difícil me sentir tocada pelos outros quando a ansiedade me consome. Tudo se antecipa em minha mente antes de acontecer. Primeiro, me dobra por dentro, e só depois o fato se revela, já desdobrado. As surpresas, contudo, são sempre boas, porque vêm do inesperado. Por elas, as coisas boas aparecem. Por elas, sou tocada. E é por elas que o não esperar se faz tudo.

⁠Você me pergunta se eu te amo. Digo que sim. Você me pergunta o porquê.
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⁠Você me pergunta se eu te amo. Digo que sim. Você me pergunta o porquê. Mas a resposta não cabe nas palavras. Ela mora nos gestos que escapam da boca: nas panquecas com mel feitas de surpresa, no silêncio que não coça a garganta, no erro que você comete e eu deixo passar como nuvem. Não por dó — mas porque o amor é míope (como eu sou) e prefere enxergar embaçado. O amor é transcendental. Ou seja: escapa. Foge das definições como um gato — no peitoril da janela, olha para você, mas não obedece: é a imprevisibilidade que se deixa ficar. É um peixe vivo na banheira da alma — algo inadequado, mas presente. Ou a sombra de um pássaro: risca o chão e some antes de você apontar — pura efemeridade. É sagrado, porque é inútil (não serve para nada). Como um copo d’água na madrugada — não sacia, só umedece os lábios. É real, porque não precisa ser provado. E é impossível. Como traduzir o cheiro da chuva sem nomear a saudade?

⁠É preciso estar em silêncio. Não o silêncio de fora — o de dentro.
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⁠É preciso estar em silêncio. Não o silêncio de fora — o de dentro. Aquele que vem quando a alma para de se explicar. Só assim. Só no vazio do ruído é que as coisas miúdas falam. E elas — tão pequenas — são as mais belas. Porque são as únicas verdadeiras. A cachoeira escorrendo sobre as pedras, sem pressa de chegar. O pássaro tecendo o ninho, com o mesmo fio do tempo. A semente rachando o solo, num instante que ninguém vê. As coisas pequenas — essas, sim, sussurram em maiúsculas. São tímidas, como o amor quando ainda é um segredo. Mas belas. Inteiras. Mas a paixão... ah, essa berra. Espetada no peito, atropela as frases, rouba o fôlego e o sentido. E cega. E ensurdece. E transforma o outro num eco do que falta em nós. O amor não. O amor é a pausa. Espera a febre passar. Senta ao lado. Não exige. Olha — e reconhece. Só quando tudo se aquieta é que o coração entrega sua palavra crua. Só quem para — de verdade — ouve, enfim, o que as bocas nunca disseram. E então, no silêncio que sobra, toca o impossível: ser entendido sem precisar falar.

⁠Amo você como um espirro — involuntário, irreprimível,
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⁠Amo você como um espirro — involuntário, irreprimível, rasgo brusco no tecido do dia, me atravessa sem pedir, me expulsa de mim. Amo como o bocejo — contagioso, inevitável, boca aberta pro mistério que escapa das palavras. Amo você assim: sem querer, querendo, sem saber, sabendo, como se ama o ar — que entra e sai sem pedir licença, e nem percebemos até faltar.