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Frases de Marília Garcia

6 frases

pelos grandes bulevares [do lado de dentro] o que ela vê quando fecha
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pelos grandes bulevares [do lado de dentro] o que ela vê quando fecha os olhos? linhas sinuosas, um mapa feito à mão, parece uma pista vista de cima – os campos cortados ou poderia ser uma sombra riscando o verde quando passa lá no alto. o que ela vê quando olha em linha reta tentando descrever a garota que conheceu no café? a transformada de wavelets ou um peixe-lua- -circular em uma região abissal. não é nada abissal estar nesta superfície, você quis dizer de vidro? esférico? ou um animal marinho em miniatura: um polvo de 1 mm? o cinema é 24 vezes a verdade por segundo. este segundo poderia ser 24 vezes a cara dela quando fecha os olhos e vê. [de fora] não é por falta de repetição, mas não encontrava a palavra exata. o que ela vê não sabe e tudo fica tremido se fast forward. agora fecha os olhos para entender, para ir mais devagar. não se perde alguém por duas vezes, era o que achava mas a essa altura chego no mesmo terminal duas semanas depois e a cena se repete. – você está tendo um problema de realidade, ele cochichou. – qual é o desastre desta vez? o que ela vê ao abrir a claraboia? ao bater aquela foto da ponte ou quando lê a legenda: “nos abismos a vida é submetida ao frio, escuridão, pressão. oito mil metros de profundidade” uma montanha ao contrário.

em loop, a fala do soldado vivo numa caixa preta de 20 centímetros.
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em loop, a fala do soldado vivo numa caixa preta de 20 centímetros. vejo o mundo por um visor, no meio uma cruz para mirar as coisas prédios estradas objetos cachorros. tudo que passa pelo quadro vira alvo, então penso em algo linear: você já reparou que algumas imagens se repetem? de repente, um cisco no olho. “eu vivo numa caixa preta”, disse. estamos sentados lado a lado no trem – em silêncio – os dois de calça verde e camisa branca. sei que não está tudo bem, levanto o olhar tentando alcançar o dele e ouço apenas a voz de frente para o alvo. vivo numa caixa preta, diz, e eu não sei como parar a repetição.

terremoto um terremoto replicando por vários dias,
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terremoto um terremoto replicando por vários dias, à noite as luzes de néon paradas e, na manhã seguinte, a tremedeira outra vez. você pensa que o futuro ainda não chegou, mas de repente o terremoto replicando faz tremer a língua os dentes e tudo o que é matéria. por mais que use as palmas para cobrir os ouvidos, a ternura – o que você quer dizer? – aliás, a tremura chega arrastando tudo. era como um país virando mar um terremoto replicando sem parar. se as réplicas consistem em tremedeiras, e se uma língua é desenhada fora das linhas, como conciliar o inconciliável?, pergunto no momento de maior desligamento e ele responde: – agora o seu wasabi tem radioatividade. essa cor brilhante, de um verde quase prata, era como a luz batendo no mar bem na hora em que o chão – e tudo recomeça. quero pedir silêncio, mas não sei lidar com o imponderável. um dia acordo e não espero mais resposta.

Estereofonia nunca falei tão sério, disse e olhei para cima: seu rosto no meio das gotas,
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Estereofonia nunca falei tão sério, disse e olhei para cima: seu rosto no meio das gotas, o guarda-chuva preto como uma moldura redonda e você parado, cantando, virado para o vidro do carro, sem ouvir mais nada só a voz a voz cantando no meio da chuva e o eco no vidro do carro. essa poderia ser a descrição completa, mas o caminho mais rápido, de um ponto a outro, ele respondeu, eu podia ter ido embora na hora os cílios partidos e aquela voz cantando – mas o caminho mais rápido, ele diz, e eu olho pra cima de novo e lembro da cor malva e dele dizendo que é quase malva, tem um pingo que torna tudo malva, mas a única cor que lembro era o nublado daquele dia a única cor era o chumbo daquela vez: eu olhei pra cima e você ia embora pelas escadas. no último degrau não se vira mais. – esse poema contém 12 passos, ele diz, e eu saio contando a distância enquanto caminho dizendo o poema de cor, mas daquele dia só me lembro da cor de chumbo e a voz em eco no vidro do carro. olho para cima outra vez e vejo sempre o mesmo guarda-chuva preto, moldura para descongelar cada um dos degraus, para descongelar a ordem do verso seguinte: panorâmica, golpe e caixa-preta. você vai sempre pelo som? – que som?

antes do encontro procurar uma escada de madeira dando para o abismo
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antes do encontro procurar uma escada de madeira dando para o abismo é uma ação que só pode acontecer nesta língua estranha e numa cidade cortada por um rio que fique no meio dos dois (quando um precisa ir embora para sempre) mas um dia ela chega com a pergunta: – o que vem à sua cabeça quando digo a palavra amor? um dia desce no meio do dia e vê. e um dia vê a peça lilás sobre a quina da mesa quando volta. ele diz saltar. saltar para fora. e atravessa na esquina procurando a escada. depois diz que quer saltar para fora desta canção. mas um dia chega com a pergunta: – o que vem à sua cabeça quando digo a palavra amor? e ela responde que amor em japonês se diz /ai/. e, de repente, um branco. as linhas se tornam cada vez mais quebradiças. um banco parado no meio da cena, um quadrado iluminado e a frase mais longa que ele me disse nos últimos seis meses. o que significa um cachecol vermelho pinicando sozinho? uma abelha, pensa, mas o cachecol pinicando, voando como uma abelha, talvez um inseto estridente, incidente para ouvir quando ele chegar e vir. agora sobrou apenas a estática tremendo e você a leva de volta até o barco: – a estática?, pergunta, você lembra daquela vez? e ela fica parada na chuva com o colete salva-vidas esperando alguma coisa acontecer. [aqui o telefone vibra na bolsa e um parêntese para dizer que não sabe onde está mas é longe não sabe onde está mas é frio não sabe onde está mas é quase. ao ouvir a voz, parece de verdade, e então ele levanta e me diz algo sobre o fim ou sobre o sim e toca na tela uma imagem do filme]