Frase de Marília Garcia
Estereofonia nunca falei tão sério, disse e olhei para cima: seu rosto no meio das gotas, o guarda-chuva preto como uma moldura redonda e você parado, cantando, virado para o vidro do carro, sem ouvir mais nada só a voz a voz cantando no meio da chuva e o eco no vidro do carro. essa poderia ser a descrição completa, mas o caminho mais rápido, de um ponto a outro, ele respondeu, eu podia ter ido embora na hora os cílios partidos e aquela voz cantando – mas o caminho mais rápido, ele diz, e eu olho pra cima de novo e lembro da cor malva e dele dizendo que é quase malva, tem um pingo que torna tudo malva, mas a única cor que lembro era o nublado daquele dia a única cor era o chumbo daquela vez: eu olhei pra cima e você ia embora pelas escadas. no último degrau não se vira mais. – esse poema contém 12 passos, ele diz, e eu saio contando a distância enquanto caminho dizendo o poema de cor, mas daquele dia só me lembro da cor de chumbo e a voz em eco no vidro do carro. olho para cima outra vez e vejo sempre o mesmo guarda-chuva preto, moldura para descongelar cada um dos degraus, para descongelar a ordem do verso seguinte: panorâmica, golpe e caixa-preta. você vai sempre pelo som? – que som?
No pensador.ai desde