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Frases de Maria da Penha Boina

5 frases

Trégua armada Não é pela data, não pelo brilho vazio, nem pelo símbolo, o engano ou o ritual.
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Trégua armada Não é pela data, não pelo brilho vazio, nem pelo símbolo, o engano ou o ritual. É só por ser o dia em que é feriado, o único em que cabem todos, afinal. Reúno a mesa, o vinho, o gesto lento, a carne assada e o doce já sem cor. Mas vejo nos olhares o alinhamento de uma guerra antiga, de uma antiga dor. Sempre respiga algo. Um riso que se quebra, uma pergunta acesa, um tom a mais. A mãe que chora o filho que não volta, o irmão que bebe o vinho dos sinais. E o brinde soa oco como um sino rachado no rigor do tempo morto. Natal é o ensaio do sepulcro em família, Páscoa é a traição de um beijo torto. Ano novo passa a ferro as cicatrizes, aniversário é a idade do desgosto. Eu queria apenas juntar mãos e restos, mas a união já vem com seu escombro. E o que deveria ser festa é trégua armada, onde o amor respira o mesmo ar do monstro. Então celebra o rito, o calendário, a desculpa maior que o sentimento. E se outra família diz que é diferente, mais verdadeira em cada acontecimento, não mintas: isso é a farsa transparente. No fundo, toda família é o mesmo vento.

A FOME QUE NÃO É DE PÃO Tem gente que morre de fome Tendo o pão sobre a mesa.
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A FOME QUE NÃO É DE PÃO Tem gente que morre de fome Tendo o pão sobre a mesa. Tem gente que adoece Antes de qualquer tristeza. Tem gente que envelhece Sem ter vivido a beleza, E carrega nas costas O peso da própria leveza. Tem gente que tem medo de fazer, De pular, de cair, de tentar, E passa a vida inteira Apenas a observar. Tem gente que vive no lusco-fusco Em pleno sol de verão, Com os olhos vendados E a alma em escuridão. Tem gente que nunca vê saída, Nem quando a porta está aberta, E prefere a cela conhecida À liberdade incerta. Tem gente que anda nu Mesmo vestido de cetim, Porque a nudez da alma É a que mais assusta em si. Tem gente que morre antes de viver, Respira sem inspirar, São estátuas de sal que se esqueceram De como se deve andar. Tem gente que ouve sem escutar, Que olha sem enxergar, Que fala sem dizer nada, Que abraça sem apertar. Tem gente que guarda o sorriso Pra um dia que nunca virá, E guarda tanto a alegria Que a alegria definha no ar. E seguem, cegos e mudos, Cada um no seu lugar, Esperando que um dia a vida Os aprenda a despertar. Mas o tempo passa em vão Sobre os ombros de quem parou, E a morte, paciente, espera Por quem nunca começou.

O céu e a chama Havia um céu claro, inteiro, um azul de infância, sem mágoa,
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O céu e a chama Havia um céu claro, inteiro, um azul de infância, sem mágoa, um tempo certo, verdadeiro, que a chuva vinha quando era água. Surgiu uma espessa fumaça, nascida do metal e da pressa, que tingiu o azul de desgraça, e a chuva em ácido desce em praga. Corrói a folha, a colheita, ferve os rios, apaga o orvalho, um verão que nunca aceita o outono, nem seu trabalho. E quando a última nuvem se esvai, nem o azul nem a água voltarão... Esse céu é o pacto que fizemos. Aquela fumaça, a nossa ambição.

Às cinco, o verão despejou seu alívio breve em fios de água densa, cortando o ar quente. Um banho de frescor, um instante de sono
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Às cinco, o verão despejou seu alívio breve em fios de água densa, cortando o ar quente. Um banho de frescor, um instante de sono que a tarde cansada guardava em sua mente. Às seis, o silêncio molhado se instalou. O mar parou em tons de chumbo e de segredo, como um pensamento pesado, refletindo o céu que agora era doce, era rosa, era medo. Que mistério é esse, que a chuva nos deixa? O temporal passa rápido como um susto, e no rastro da água, uma cor surpreende: o horizonte pintado num tom quase injusto. Rosa sobre o cinza, suavidade sobre peso, a luz brinca com a sombra que a chuva trouxe. É o contraste que ensina: após o aguaceiro, o mundo respira diferente, mais largo, mais doce. E nós, que testemunhamos a rápida mudança, guardamos na memória este encontro de cores: o mar grave e calmo, o céu tênue e terno, unidos no crepúsculo, como dois amadores da beleza passageira, que a chuva provoca e que a luz do ocaso transforma em poesia. É um momento só, um suspiro da natureza, que fica na alma, mesmo quando o dia termina.

Nirvana dos escombros Este nirvana é um abismo calmo, um silêncio que abafou o grito.
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Nirvana dos escombros Este nirvana é um abismo calmo, um silêncio que abafou o grito. É a raiz que sonda o vazio na terra árida e tolhida. Sob a lâmina das cobranças, cresci em solo de desamparo, e o colo que a noite pedia virou pó dentro do peito amargo. Na adulta que não conquista, só resta o sabor letárgico de tentar ser o que esperam e ainda carregar o fardo. É o nirvana da decepção, da alma inquieta e torta, um céu de nuvens pesadas, um porto que não aporta. É raiva que não se grita, desamparo enraizado. É buscar um pouco de abrigo e achar o mundo trancado. E se paz existe em algum lugar, não é aqui, não é nesta dor. É só o vestígio da ressaca de um amor que não veio, doutor.