Trégua armada Não é pela data, não pelo brilho vazio, nem pelo símbolo, o engano ou o ritual.
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Trégua armada Não é pela data, não pelo brilho vazio, nem pelo símbolo, o engano ou o ritual. É só por ser o dia em que é feriado, o único em que cabem todos, afinal. Reúno a mesa, o vinho, o gesto lento, a carne assada e o doce já sem cor. Mas vejo nos olhares o alinhamento de uma guerra antiga, de uma antiga dor. Sempre respiga algo. Um riso que se quebra, uma pergunta acesa, um tom a mais. A mãe que chora o filho que não volta, o irmão que bebe o vinho dos sinais. E o brinde soa oco como um sino rachado no rigor do tempo morto. Natal é o ensaio do sepulcro em família, Páscoa é a traição de um beijo torto. Ano novo passa a ferro as cicatrizes, aniversário é a idade do desgosto. Eu queria apenas juntar mãos e restos, mas a união já vem com seu escombro. E o que deveria ser festa é trégua armada, onde o amor respira o mesmo ar do monstro. Então celebra o rito, o calendário, a desculpa maior que o sentimento. E se outra família diz que é diferente, mais verdadeira em cada acontecimento, não mintas: isso é a farsa transparente. No fundo, toda família é o mesmo vento.