Frio de Outono
Está uma tarde fria
sinto pelos pés
termômetro infalível
Já é hora para um longo banho quente
repudiar os edredons e cobertores
que abrigam a cama
esquecer o pijama de flanela
e sem lamentos
o corpo agasalhar
calçar as botas e luvas
e sair pra labuta.
Útil
Não sofra se uma dia compreender
o quanto é manipulado e usado
Absorva como mérito
por ser um idiota útil
A maioria dos seres humanos são idiotas
e passam a suas vidas
sem nada prover.
Ambição parasita
Você julga injustamente o sucesso de alguém que mal conhece?
Você conspira contra essa pessoa?
Você esperneia, cospe fogo e escreve desprovido de juízo?
Você se baseia sem conhecimento mais profundo
que ela, a pessoa que você difama
prescindi das horas de lazer
investe em noites e mais noites debruçada sobre livros
e mesmo assim, acorda cedo no novo dia
Sem perder a serenidade
e tendo bastante idade
persiste na sua labuta
na tentativa de livrar as pessoas da morte, como você,
dos seres inferiores que matam
parasitas.
E você, peso morto?
Imagina que a vida do outro
é vivida de aparência
Caso você tivesse feito a sua parte
não se vitimizando no emprego e se fazendo de louco
não teria perdido o seu "troco"
Tivesse dispensado o casamento só pelo contrato
acreditando na parte que lhe caberia
Tivesse aberto mão de um funeral grandioso para o seu morto
Tivesse renunciado as meretrizes e viagens
e não almejasse seu sucesso à custa dos outros
também teria tido êxito na vida
Saberia o sacrifício que é poder viver de aparência
aparência que você ambiciona
humano parasita.
Dualidade
Poesia e fraqueza
a primeira, o medo, a utopia
a outra, covardia
Ao medo, a minha estima
à covardia, antipatia
Obra poética divina
temor, fantasia
revelada na emblemática pintura
da Capela Sistina
à irreverência do grafite
não menos belo
não menos poesia
Caída no abismo, a fraqueza
o lado obscuro da dicotomia
o veneno? A covardia
ocultando a dor
realçada na pupila
picha, rasga, queima e ridiculariza
o medo, a poesia.
Favoritismo
Ah! Tenho todo o direito
de defender a moral política
do meu belíssimo país
Tenho sim o direito, sem doutrina partidária
estou a favor de uma Nação
libertária, expositiva
sem necessidade do dedo que tenta a mim
rotular e influenciar a minha ética ordenada
Tenho sim essa liberdade
a mesma que dou a todos e sem preconceito
porém, longe do fanatismo
do profundo egoísmo
com o propósito do poder individual
gritando aos quadro cantos
que é pelo objetivo social
Isso é nacionalismo extremista
é poderá ser o caos
Seja justo, faça a sua própria cabeça
não preconize um ritual
liderando ovelhas moucas
só instigará parvoíce
sem sentido, fatal
Para ter senso de liberdade e democracia
saia da sua zona de conforto
dispa-se do pensamento infértil
ande sobre a ardente fogueira do miserável
assim será douto para manifestar opinião.
Infrassom
Se existe silêncio?
Sim, existe à boca fechada
na taciturnidade dos atos
E quanto ao silêncio da alma?
Quem pode responder?
O vento, no sutil movimento
desnudando a mudez
ao eriçar os pelos
da sua cútis rosada.
Reflexão
Não deixou vestígio
os olhares não se encontram
e o íntimo se manifesta
através da melodia e composição
O manifesto sensibiliza
o pensamento oscila
parece afeto
mas, é só ostentação
É o coringa
é a cartada
é o jogo da cilada
vivificada vexação.
Divagação
Eu quero uma cadeira
quero uma escrivaninha
quero uma folha de papel em branco
quero a folha de papel sem pauta
sem pauta por não gostar de escrever em papel pautado
escrever?
eu quero uma caneta
quero uma caneta da marca BIC
BIC transparente, tinta azul, ponta grossa e com tampa
a tampa da caneta é importante
entre o ócio e o criar
tira clipe é até cutícula
coça orelha, limpa cantinhos
entre um gole e outro do chá
a minha exigência é muita
não é fácil de realizar
mas, quero mais
quero um cesto de lixo
para dispensar o maldito rabisco.
Despedida
A luta foi grande, a esperança também
mas, o que tentei fazer certo
foi danoso
Persisti, afundei no lodo
Em cada luta uma derrota
Em cada ponta de esperança
apreciei inenarrável promiscuidade
Segregada e ferida, foi-se a ilusão
Hoje, mais velha e sábia
permito-me caminhar sozinha
como apoio, uma bengala de madeira
que a minha mão com delicadeza abraça
um busto masculino entalhado
no mais precioso marfim.
20 de agosto de 2016
A maioria das agressões mascara o medo. A pessoa chega a tornar-se violenta em nome de ocultar o medo que sente, que a torna vulnerável e cheia de fragilidade. A atitude da pessoa em querer provar alguma coisa para mim, fez com que não sobrassem olhos para perceber os milagres que acontecem o tempo inteiro por aí e ao redor.
No dia 20 de agosto de 2016, algo oculto, libertou a pessoa desse medo. Percebeu então, que vida é muito maior do que os relacionamentos viciados. Nesse dia obtive o consentimento para viver o que eu realmente sempre desejei - LIBERDADE SEM CULPA.
Quando sonhadora
Quando sonhadora
prescindo de tudo
eu me aventuro
me divirto
estudo
trabalho
talvez até, amo
Arrasto para as minhas fantasias
pessoas que se iludem
das minhas peripécias
Nossa! como fico ideal
Quando me induzo sonhadora
sou egoísta, até covarde
mas, como não poderia ser?
O sonho é somente meu
no meu sonho
posso tudo
de resto
o problema é seu.
Expectativa
Quando cheguei
achei que os olhares
seriam profundos
seguidos por sorrisos
tímidos e afetuosos
e depois um longo abraço
louco
Afinal, era o primeiro contato
Encontrava-me em um espectro
de expectativas
Quanto cheguei
estava simplesmente perdida
desesperada
nada via, nada encontrava
diante de uma brincadeira reles
de esconde, esconde
Depois de alguns minutos intermináveis
o encontro
Percebi um olhar vazio
um sorriso irônico
um abraço frouxo
foi-se a minha fantasia
Diante da circunstância, dura e cruel
no embaraço, deu-se o laço
que a minha mão em uma das pontas
agarrou por muitos anos
para ser puxado
no momento mais conveniente
à pensenidade fugidia.
Apatia
O tempo não tem tempo para olhar-me
é cruel, infiel, é covarde
é indiferente à história e ao passado
vai seguindo em frente, diligente
O tempo me abandona sem mais
não dá notícias
não manda abraços
não faz justiça
Quem sou eu para o tempo?
Um tanto faz.
Sutil artesã
Este livro que com os olhos abraço
vagando entre linhas e espaços
me comoveu ao encontrar uma fotografia
apreciei um rosto
não sei bem se plebeu ou nobre
não me interessou
o que me encantou
estava atrás, o encosto
a almofada colorida
amarela, cor de ouro
com florzinhas de vergel amanhecido
O meu peito de orgulho, inflou
era ela
a almofada resguardada, sem desgaste, impávida
ela, tão distante, tão antiga e tão bela
que cosi e talhei por puro gosto.
Entrave
Por que tenho essa ansiedade?
Por que a espera me consome?
Já é madrugada
e continuo com esperança
que o tempo adiante
o que está com a hora marcada.
A Carta
É hora de relatar a minha verdade, tudo junto e embolado.
Sei lá a quem possa interessar, mas é assim, a minha verdade é sempre uma mentira para mim.
Sempre digo o que sinto verdadeiramente para os outros, mas para mim mesma, sempre minto.
Escondo de mim as coisas boas da vida, tudo o que possa me levar ao êxtase.
Tenho medo da verdade, ainda que pareço uma pessoa forte, sou mais fraca do que alguém possa imaginar.
São tantos os meus medos que não tenho como expor.
Não faço o mal, não desejo o mal. Se não posso ter uma opinião para o bem, me calo.
Entrego-me as causas de pacificação, mas minto para mim.
Minto para mim mesma sem misericórdia, sem paz interior.
Tudo que é mais para fora é menos para dentro.
Eu fujo de mim e doo tudo de melhor que na presença de mim mesma não consigo me dar.
Não aprendi a conviver comigo, não sei quem sou, não me conheço.
Meu cérebro é tão confuso que borbulha.
Sou um espectro de mim mesma.
Quando eu morrer
Quando eu morrer
cante, grite, dance
ao som de um rock progressivo
com letra peculiar
Beba, conte piadas
morra de rir
faça do momento
a mais pura alegria
Quando eu morrer
não espezinha a minha alma
esqueça as minhas terríveis condutas
a vida é sábia, brilhante e justa
Recidiva
Foge de mim aquela luz que gostaria de continuar a ver
Perco já algumas lembranças, aquelas que jamais imaginei perder
Algumas dores cessaram, sem que me esforçasse para isso
Outras dores aparecem silenciosamente e incomodam
Nada vem do corpo, surgem da animosidade
É o homem em fúria destronado pelo episódio dos seus atos
É o bem perdendo para o mal
Nos pés dos poucos afortunados, a pele do animal
em contraponto, os muitos descalçados
É a impureza da memória do arbítrio à glória
Pautado no desagrado, remanescente da história.
O baú do arco-íris
Olá meu doce menino
Onde você estava enquanto eu lutava
para encher o baú do arco-íris?
Você estava no paraíso das alucinações
viajando na ponta do arco-íris
Meu doce menino
Onde você estava enquanto eu lutava
para termos um pouco do verão, céu azul
e noites estreladas?
Você só estava a espera do resultado do meu sacrifício
Meu doce menino
Assim não se pode ter o céu azul,
nem noites estreladas
nem verão
nem nada
Meu doce menino,
hoje o céu não tem arco-íris
e eu tenho o verão que quero
onde quero
conforme o meu sacrifício.