Escarnecimento
Ei! Linda mulher
venho lhe pedir um favor
Qual o motivo do meu pedido?
Já que você laçou o meu vagabundo amigo
o meu velho colibri
me faça então esse favor.
Cuida da minha camélia
para que ela floresça bela
me faça esse favor.
O meu vagabundo colibri
abandonado pela flor mais bela
do mesmo pomar da minha camélia
já se distanciou...
Ei! Linda mulher
para cuidar da minha camélia
observe a sua cútis como ficou mais bela
depois que o meu vagabundo colibri te adubou.
Adube a minha camélia
para que floresça mais bela
adicione a ela, vitaminas para plantas que dá flor
principalmente , ferro, mas aos pouquinhos
do mesmo tamanho daquele que ainda te aduba
-se aduba-?!!!
Assim, ela florescerá muito mais bela,
da mesma maneira como você ficou.
Chalaça
A flor doou o seu néctar
O beija-flor se satisfez
sugando até a última gota do doce mel
da bela flor que o afugentou
que não perguntou, não exclamou
não perturbou, só aguentou
A bela flor, por ironia
se fechou
O beija-flor não suportou o engodo
da flor serena, aveludada
que se distanciou do sugar maldito
Ele, sem o sabor da linda flor
passou a sugar a flor sintética
que se abriu bela, necessitada
anestésica.
Saudade II
Sinto muita saudade
das mentiras que me contava
elas me divertiam mais que novas piadas
eu conseguia passar horas e horas a ouvi-las
eram por demais, engraçadas
eu engolia a satisfação, não ria.
Pode me chamar de louca
louca sempre fui um pouco
mas sabendo toda a verdade
e poder ouvir as estórias mais tresloucadas
durante anos a fio da sua boca
era fruição de graça.
Sinto muita saudade
saudade das sua mentiras.
À Hanna
Hanna possui milhares de "amigos"
tem a Tina, a Lene,
talvez a Celine, Dora e Deusa também
é interminável a lista, impossível falar de mais alguém
Hanna política, artista
toca flauta transversal erudita
em perfeita melodia
mas, somente quando lhe convém
Conheço Hanna de touca
com sorriso cativante e olhar meigo
não é lá boa boca
Hanna é bem do tipo
não é do ambiente boa bisca
joga cartas com o amigo do amigo
e tira proveitos disso
Hanna necessita de estar em evidência
como não tem lá muita inteligência
só faz pacto com a demência.
Efêmera
Sou quem planta a planta dos pés
no fundo do rio das ariranhas
na poeira cósmica
no vértice do kilim
Nada me enaltece
nada me tortura
para cada sensação
revolvo as quimeras da infância
É volátil o voo da emoção
é como seguir os rastros que deixei
nas infinitas dunas em que caminhei
Todo elemento com o seu movimento
cada momento, enriquecimento
os meus fascínios, passatempos.
Caruaru
Vamos benzinho
pro agreste nordestino
vamos pra Caruaru
dançar o forró agitado
Eu, com o meu vestido de chita floral rodado
e as madeixas enfeitadas
com as flores do mandacaru
Tu, chapéu de cangaceiro
fingindo sotaque maneiro
escondendo o forasteiro
Tomaremos goles de capeta
comeremos petiscos com cumari
empoeiraremos o terreiro
Para depois do cansaço, uma bela rede rendada
amparada nas paredes de taipa
de um velho bandoleiro.
Astúcia 2001
O meu sentimento acabou
quando arremessei o cinzeiro de vidro
com veemência ao chão, estilhaçado
os cacos resvalaram em direção à janela
abrindo uma larga fenda
por onde escapou a minha dor.
Alarico
"foi mau" não ter escutado
a experiência do seu pai
ele sempre lhe dizia
- tenha a sua única flor
que, para se ter muitas
tem que ser mais que um bom procriador
Aqui, Alarico, já é outono
mais um outono sem cor
Então, curta a sua primavera
comece deste agora, polinizar todas as flores
para que elas transmutem em glória
e façam a corte nas jarras de opulentos soberanos.
Pira
Pirado pela pira, suspira
Olhos fitos na pira
Deslumbrado, alucinado
pelo brilho da pira, pira
nem a pira na verga
verga o caipira
desvairado, deu o pira.
Na primeira oportunidade que tive em ter
segurei e tive
Tivesse tido antes, teria tido ainda mais que tive
Cultive o que sobrou daquilo que não obtive
me contive.
Desequilíbrio
Eu não sabia onde estavam as fotografias
sempre me perguntava em que lugar estavam
eu não entendia a pergunta
eu não sabia sobre quais fotografias
Também me perguntava sobre o edifício
se tinha elevador ou era de escada
para mim não fazia sentido
esqueceu do meu grau de exigência
já não me conhecia
Eram questionamentos estranhos
sobre meus carros, trabalhos, números de assoalhas,
piscina, festas e alegrias...
mas, do meu eu, do meu interior
não queria saber nada
Através das perguntas insensatas
me subjulgava
como uma mandriona interesseira
eu já não valia nada
As minhas fotos sem filtro
meu rosto sem maquiagem
meu corpo não é malhado
e sem bronzeado
Minha vida é trabalho
meu espaço de lazer é tomado por livros
Como consequência, homeostasia
Só bem mais tarde eu entendi
que ele tinha outras fotografias
subia de escadas e nem era da própria casa
pois casa, já não possuía
seu carro uma lata velha desengonçada
seu trabalho acabou em nada
em festas não encontrava alegria
Tentou outras mulheres que me substituísse
as perguntas eram para as sua comparações
que tolice...
O que ele pretendia de mim se desacreditava?
O que vale a estética?
Vale um alto grau de entropia.
Minha forma de amar
Atordoada eu fico
por amar de uma forma tão excêntrica
amor de encanto eternizado
causador de assombramento
mas, é amor venerado,
não é amor medido
é amor discutível, irreverente
que tem a beleza do que é enigmático,
e é esta a sutileza:
- quem estagiou nesse meu amor indeterminado
por ele viverá deslumbrado.
Carnaval 2016
Carnaval, eita! como é bom
Samba no pé, pele suada
a rua, um cabaré
Eita!... como é bom
de um lado um beijo molhado
do outro, um desejo danado
e o coração zabumba bumba
no ritmo da canção
Eita! carnaval
overdose de pulsação.
O vazio do Jeca
Vai lá neguinha
esquentar os pezinhos
é a estação mais propícia
para tomar chá e tirar a cortiça
Vai lá neguinha
seja ao menos coadjuvante
para esse triste cenário
solitário, invernal
leve o seu calor no abraço
nem só de outono
vivem os palhaços.
Esquecimento
Não me lembro mais das aventuras que tive
O cheiro não chega mais com o soprar do vento
Tento através de um esforço hercúleo
relembrar dos sorrisos, dos gestos
e dos sons das palavras ditas
e não me lembro
Tentei eternizar o efêmero
foi a minha mais pura tolice
Nasci com inclinação para o imortal sentimento,
me traí, mas não me repreendo.
Recôndito
Não pega na minha mão em público
Nega o meu beijo na praça
Tem medo de fazer juras
Mas, diz acreditar em disco voador
Secretamente, no lusco-fusco
amor selvagem, abrasador
Veja a loucura
desse fugidio senhor
Encobre-se por todos os cantos
quando o momento é para o amor
Mas, para destroçar o encanto
profere à luz do mundo
blasfêmias com fervor.
Inalcançável
Sou uma bela flor
Pequenina e delicada
Sou a flor mais isolada
formosura do inóspito
Sopra o rigoroso vento
na haste do cacto imponente
protetor das pétalas plumas
dessa fina flor
que se enleva no movimento
Sou a flor mais difícil
a mais desejável
a que nunca será vista
em nenhum inanimado vaso
ordinário.
Romaji
Bitaa, tão disperso e imaturo
ostenta através da criatividade e sociabilidade
o que lhe é superficial
Bitaa é de inútil discussão
precipita-se pela certeza de opinião
escoa a sua energia e vitalidade
sendo contrário à razão
Bitaa, privilegiado de imaginação
pura intuição
trabalho duro, não
Bitaa, exotérico
tem um número certo
2130409670
faça a combinação
é a certeza do euromilhão.
Suplício
O seu pensamento me apavora
Paralisa o coração
Cabisbaixa vou passando
De soslaio miro os cantos
Com os nervos contraídos
Pulsa o pulso por clemência
Insuportável malevolência.
Italiana
Maria, una donna bella
vai a cozinha, pega a panela
acende o fogo, ferve a água
avisa ao moço, vai ter tortellini
para o almoço
e fala com as mão, gesticula os braços
quase alça voo pela janela,
mesa posta e Maria, tagarela, tagarela
mostra a padella
é o tortellini? Indaga o moço
pappardelle com mozzarella.
Início do fim
Ah! Se você soubesse
se tivesse consciência
se entendesse
e não se fechasse à realidade
compreenderia que se abrisse a sua porta
encontraria a relva verde
veria a delicada flor orvalhada
exalando o puro perfume
no amanhecer do dia
do resto da sua vida.
Desgarrada
Observa como ela passa desatenta
sem pressa, sem lugar
vai, segue indo
É tudo lindo?
Já não vê
está sem rumo
não sente a vida
não tem destino.
O diálogo em 22/05/2016
O telefone toca pelas 14:11 horas, ligação privada
não atendi
O telefone toca pelas 14:13; 17:00 e 17:42 horas, ligação privada
não atendi
já havia uma ligação pelas 14:10, tinha o telefone marcado
não atendi, pois o telefone não toca, o número é bloqueado
Pelas 17:43 horas o telefone toca, ligação privada
atendi
- Alô
- Olá, como estás?
- Bem, e você?
- ...
- És um falsete
- Não estou entendo...
- Nunca entendes nada, nunca entendestes nada
- Não, nunca entendo nada, nunca entendi nada
O silêncio tomou conta e o telefonema terminou.
O telefone toca pelas 19:58 horas, ligação privada
atendi
- Alô
- Desculpa por estar a ligar-te
- Tudo bem...
- Achei que tivesses mudado
- Não, não mudei , continuo aqui no mesmo lugar
- É que sonhei contigo, achei que tivesse acontecido alguma coisa
- Não aconteceu nada, estou bem
Silêncio...
- Como foi o sonho?
- Sei lá, um gajo sonha de noite e quando acorda já não se lembra...
- Ok
- Não irei mais telefonar, não desejo perturbar a paz do seio familiar (ironia)
- Ok.
Será o que o pobre diabo queria?
Ah! Eu nunca entendo nada, nunca entendi nada.