O Odor do Caos Era fim de tarde na rua Cecília. Catorze homens jogavam futebol no campo de terra, rindo alto, enquanto a poeira dourada do sol cobria tudo.
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O Odor do Caos Era fim de tarde na rua Cecília. Catorze homens jogavam futebol no campo de terra, rindo alto, enquanto a poeira dourada do sol cobria tudo. De repente, um carro vermelho parou ao lado do campo. Dele desceu uma moça de cabelos longos e olhos flamejantes. Com voz calma, pediu ajuda para trocar o pneu furado. Por um instante, o jogo cessou. Os homens se entreolharam, silenciosos, mas quem se aproximou foi Jorge — um homem negro, alto, de cabelos compridos. Quando ele a viu, algo dentro dele se rompeu. Como se uma voz antiga, enterrada na carne, despertasse. Um instinto primitivo, misto de medo e desejo, ascendeu nele como febre. E então ele começou a falar — palavras duras, quase blasfemas — profecias nascidas do fundo escuro de si mesmo. Falava como se fosse um mensageiro de algo maior, exigindo que ela se rendesse, que aceitasse uma submissão absurda, quase sagrada. A tensão cresceu no ar. Os outros observavam, sem saber se assistiam à loucura ou à revelação. Então, Mariana — amiga de Jorge, que estava próxima — decidiu agir. Sem dizer uma palavra, correu até o cercado onde sete cachorros estavam presos e abriu o portão. Os animais dispararam, excitados e famintos, e avançaram com fúria. O caos começou. Gritos se misturaram ao barulho do metal e ao som seco dos corpos caindo. Os cães devoravam carne e poeira, enquanto um cheiro espesso se erguia no ar — o cheiro do sangue. Era o odor do caos. Algo antigo e primitivo havia despertado. Um motim — uma fúria coletiva, selvagem — tomava conta de todos. Ninguém compreendia o que estava acontecendo, mas todos, de alguma forma, queriam um pedaço.