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Frase de Luccas Perottoni

A Casa de Jorge Uma catarse bem feita era um caos anunciado, na casa de Jorge, tudo era sagrado e profano, misturado. Quando deixava a filha ir ao centro espírita, em paz, perguntava-se em vão por que sua fé nunca mais. Falava baixo, num tom de ironia e desvelo: — Minhas crenças têm rosto, mas não têm espelho. Covardes são deuses com forma e razão, que pedem joelhos, mas negam o pão. Virou-se à esposa e, num riso cansado, disse: — Rosas e borboletas são belos pecados. Mas de nada adianta beleza na pele, se a fome é o que fere e o tempo repele. A TV seguia o jornal — tragédia e ruído. Jorge apenas via o mundo perdido. Foi então que a filha, pela porta direita, entrou, e o silêncio da casa, de leve, mudou. Contou-lhe cinco amores, cinco quedas, cinco vias, e cada história acendeu antigas nostalgias. Por um instante, pai e filha se olharam contentes, como se o tempo, cansado, parasse entre gentes. Mas o tempo não cessa, é cruel e atento. Trouxe com ele um último contratempo: um estalo no gás, um sopro, um ardor, e o fogo tomou o lugar do amor. Explodiu o botijão, queimando os momentos, os risos contidos, os sentimentos. Restou o ar seco, o chão em ruína, e a fé consumida na própria fuligem fina. Assim, a catarse se fez, por inteiro, limpando a dor, mas num fogo traiçoeiro. E na casa de Jorge, entre cinza e verdade, ardeu o milagre da humanidade. Luccas Perottoni

Luccas Perottoni

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Pensador.com

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Mariana e as Sombras Mariana tinha sete amigas. Todas moravam na rua de cima —
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Mariana e as Sombras Mariana tinha sete amigas. Todas moravam na rua de cima — exceto Júlia, que morava na rua de baixo. Elas brincavam no parque toda sexta-feira, treze, enquanto caminhavam sobre as águas, imitando Jesus. Certo dia, estavam distraídas, brincando com as nuvens, transformando-as em algodão. Foi então que um homem passou e ofereceu um sorvete. Elas se entreolharam, confusas, e se questionaram sobre aquilo: quais sombras haveriam naquele homem? E por que estaria ele tão comprometido em realizá-las?

O Rei de Pão e Covardia Era uma vez um francês, chamado Michael, burguês.
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O Rei de Pão e Covardia Era uma vez um francês, chamado Michael, burguês. Três vezes por semana, inglês, às seis da manhã, seu pão, sua altivez. Comia em silêncio, convicto, que o gesto o tornava distinto. Um rei de café e costume, com ares de classe e perfume. Mas um dia, no velho trajeto, o ônibus tomou outro aspecto. A estrada virou confusão, gritos, bandeiras, tensão. Três homens bradavam na via, contra a lei, contra a polícia. Michael olhou — e reagiu, sem saber por que o fez, fugiu. De burguês virou milícia, no susto, na própria malícia. Um ato sem honra, sem guia, feito no medo, na covardia. E o povo, que nada entendia, ergueu-lhe um trono — ironia. Promulgaram-no rei por herança, morto em sua própria arrogância. Assim finda a realeza vazia: um pão frio, uma fé tardia. Um francês que quis ser alguém, e acabou rei — depois, ninguém. Luccas Perottoni

O Odor do Caos Era fim de tarde na rua Cecília. Catorze homens jogavam futebol no campo de terra, rindo alto, enquanto a poeira dourada do sol cobria tudo.
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O Odor do Caos Era fim de tarde na rua Cecília. Catorze homens jogavam futebol no campo de terra, rindo alto, enquanto a poeira dourada do sol cobria tudo. De repente, um carro vermelho parou ao lado do campo. Dele desceu uma moça de cabelos longos e olhos flamejantes. Com voz calma, pediu ajuda para trocar o pneu furado. Por um instante, o jogo cessou. Os homens se entreolharam, silenciosos, mas quem se aproximou foi Jorge — um homem negro, alto, de cabelos compridos. Quando ele a viu, algo dentro dele se rompeu. Como se uma voz antiga, enterrada na carne, despertasse. Um instinto primitivo, misto de medo e desejo, ascendeu nele como febre. E então ele começou a falar — palavras duras, quase blasfemas — profecias nascidas do fundo escuro de si mesmo. Falava como se fosse um mensageiro de algo maior, exigindo que ela se rendesse, que aceitasse uma submissão absurda, quase sagrada. A tensão cresceu no ar. Os outros observavam, sem saber se assistiam à loucura ou à revelação. Então, Mariana — amiga de Jorge, que estava próxima — decidiu agir. Sem dizer uma palavra, correu até o cercado onde sete cachorros estavam presos e abriu o portão. Os animais dispararam, excitados e famintos, e avançaram com fúria. O caos começou. Gritos se misturaram ao barulho do metal e ao som seco dos corpos caindo. Os cães devoravam carne e poeira, enquanto um cheiro espesso se erguia no ar — o cheiro do sangue. Era o odor do caos. Algo antigo e primitivo havia despertado. Um motim — uma fúria coletiva, selvagem — tomava conta de todos. Ninguém compreendia o que estava acontecendo, mas todos, de alguma forma, queriam um pedaço.