Você
Você é musa, é nume, enlevo,
é sentimento aberto em flor,
é pensamento em que me elevo.
Você é mar em que navego,
você é sorriso interior,
você é porto a que me chego.
Você é regato em luz e graça —
que flui, reflui mas que não passa.
LA
Brinquedo
Deus fez o amor
e deu pro homem
e pra mulher brincar.
E brincaram, brincaram,
brincaram até cansar —
cansar, não de amar,
mas de tanto brincar...
E assim foi que o amor perdeu
o seu brinquedo —
seu jeito criança de amar...
De lá pra cá
tornou-se sério, tão sério
que morreu...
morreu no seu brincar...
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Mas ninguém fique triste,
que a vida é irmã da esperança —
o que morreu
pode a qualquer instante
molhar seus sonhos
no vinho de um olhar —
e renascer
em seu brincar de amar
LA
Tu És Um Homem...
Tu és um homem, não um pobre rato —
tu vieste do sonho para a vida,
da vida com o dom de renascida,
da vida que é um poema e não relato.
Tu és um homem, não um coelho ou pato —
tu vieste da Mão que te convida
ao retorno genial da mais subida
estirpe do nascido: além do fato.
Tu és um homem, esse vasto sonho —
o sopro constelado (sonho inconho)
na argila pelo próprio Criador.
Tu és um homem, cujo dom descansa
na luz eterna de perene amor —
brilhas mais que a mais plácida esperança.
LA
Chegar
Chegar é só estar em outro porto —
pronto para partir... a jornada interior
é apenas estar de volta para Casa...
a que quando chegamos
ela volta a se tornar caminho —
sempre caminho de ser
onde Deus nos espera
dentro de nós.
LA
Saga Do Herói
Quando nos agarramos às saudades,
sem dúvida, é porque nosso presente
está uma daquelas... bem fedidas...
Mas que fazer, Glorinha, que fazer
nesta hora tão sem pétalas, sem cores?...
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Talvez fosse melhor não ter nascido!...
Se bem que... como iríamos saber
que nossos males, nossas dores, penas
não valiam o heroísmo de sofrê-las?
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Por isso, minha amiga, vamos rir!...
Sim, — se possível — rir e gargalhar...
E agradecer a Deus que ao ser humano
lhe permite a bravura de lutar —
lutar heroicamente... e se enganar.
LA
Poder
O poder real e único
de uma pessoa,
em si e em sua conta cósmica,
é o quanto ela é capaz de amar:
o seu dom ôntico —
potência sem poder —
onipotência em ser.
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Tudo o mais é amor decaído,
pervertido:
enfermidade do ser.
Sim, tudo o mais também existe
na terra e nos ares
— em outras gamas —
é o poder que compete,
rivaliza
com o Sonho-Quem —
poder luciferado:
já amarrado e perdido
no desespero de si mesmo.
LA
A Noite Inteira, Nega...
A noite inteira, nega, revirei
que revirei você em minha mente
tentando despejá-la inutilmente,
mandá-la para o quinto e mais nem sei,
nem sei pra que país nem tribo ou grei,
contanto me deixasse bem urgente
em paz e a sós comigo eternamente,
eternamente sem ninguém nem lei
E fizeram-se eternos os segundos:
me reentrava de lado e pelos fundos
de toda a mente, sem nenhum chiquê
Aí (que alívio!) o telefone toca,
fui atender (que alívio: me desfoca...),
fui correndo atender: era você.
LA
Madrugadas
Era bom despertar carente e falto
Em meio à noite, Nina, e procurar...
Buscar suave e tenso: cabisalto,
Por entre a samambaia ciliar...
Os dedos orvalhados no cobalto
De sonhos celestiais sempre a buscar
O instante de passar, de dar o salto
Da relva pra ribeira: mergulhar...
Entrar-lhe pela vinha devagar
A lhe apalpar os cachos com ardor —
Seu corpo todo-inteiro vindimar...
Com os lábios a roçar-lhe a boca e a face
Eu ia lhe servindo o bom licor
Até que sua taça transbordasse...
LA
Há Um Medo Gostoso
Há um medo gostoso, se te espero.
O amor é sempre aquela porcelana
tão frágil sempre, sempre tão humana —
o amor é e não é: tal como um zero.
Sim, um medo gostoso, mas severo
como o olhar que protege, mas esgana...
como a alma que sonha, mas se engana...
pedra rara incrustada sem esmero.
Sempre um medo gostoso na esperança
de se alcançar a flor que ao vento dança...
Sempre um suor a rorejar a espera.
Sim, um suor gostoso, mas medroso
a ponto de tirar da espera o gozo...
O amor é sempre aquilo que não era.
LA
Ensaio
Sosseguem,
não pode ser o fim dos tempos —
ainda nem começamos
a nos amar uns aos outros.
Deus nos dará mais um tempo
para irmos aprendendo...
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Enquanto isso vamos ensaiando.
LA
Condição Humana
A vida bem mais promete
do que cumpre.
Somos os seres da falta,
os que sempre por um triz
não são felizes...
Sim, os seres da promessa —
abraçados às tábuas da esperança,
aferrados ao invisível
da nossa fé,
agarrados — na fria correnteza —
a raízes e cipós
do nosso incerto amor...
enquanto a vida,
a vida toca violino
no convés bordado de estrelas
do nosso belo,
do nosso empoderado Titanic...
LA
A Vida Inclui O Mestre
Quem te fere e te sangra
conhecia o lugar
dessa tua ferida —
por isso foi direto,
direto ao que te dói.
Sim, quem te fere sabe
onde é tua fraqueza —
o que te torna fraco...
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Apenas cura,
cura a tua ferida,
e quando ele voltar,
voltar a te tocar,
verá que no lugar
de uma pobre ferida
agora há osso e nervos,
há músculos bem fortes —
daí que o seu tocar,
o seu tocar — agora —
são apenas afagos,
são toques de carinho...
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Perdoa então ao tal,
perdoa ao tal e a ti —
a ele por ser grosso,
a ti por precisares
da sua grosseria:
a vida inclui o mestre.
LA
Aeróbia Musa
Ah, Musa, se te pego! Espera só!
Tu andas inspirando o meu vizinho, —
deixas-me só: jogado aqui sozinho
e levas a outro o teu borogodó!
Quase um mês de securas... não tens dó...
Tu me negas, safada, o teu carinho
e cantarolas desde bem cedinho
como a dizer que sou teu zé-coió...
Se bem que, ciúme à parte, fazes bem
em servir dois ou mais de cada vez...
Diz o adágio: Tem um o que dois tem.
Sim, fazes muito bem, aeróbia Musa,
saber de português, economês
e do quadrado da hipotenusa.
LA