Maranata
A espera gera alegria
quando amamos quem nos vem —
ordenamos nossa vida,
arrumamos a casa
e pomos boa roupa,
ensaiamos palavras,
gestos e maneiras
de sermos agradáveis...
porque a espera,
a espera de quem amamos
nos gera sempre cuidados,
cuidados e alegria...
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Vem, Senhor, vem!
Vem quando bem quiseres:
Maranata!
Vestido, Te esperarei
e com a lâmpada mão.
LA
Só Uma Ideia
A ideia que faço de Deus
é só uma ideia minha de Deus —
não tem nada a ver com Deus,
só como O sinto
no que eu penso que Ele seja.
Uma ideia que muda
conforme mudo em mim —
conforme me supero
e me transcendo —
uma ideia sempre
com novidade de vida —
uma ideia diferente,
a cada tempo diferente,
tão diferente
que sempre Deus e eu
nunca somos os mesmos —
mas nunca nos apartamos
nem deixamos de nos amar.
LA
Foram Vindimas...
Foram vindimas e vindimas
quando eu andava em tua vinha
em outros sóis, em outros climas.
Depois nascemos numa ilha...
e o nosso barco ia e vinha
até quebrar a sua quilha.
Hoje, aqui estamos, minha nega,
e o nosso amor nos basta, e chega.
LA
O que Deixei...
O que deixei lá para trás
já não me serve de lembrar,
no caminhar não cabe mais.
O que deixei era bobeira,
precisei dela me livrar —
velho telhado dá goteira.
Todo passado tem arestas,
mas o hoje tem as suas festas.
LA
Feminezas
A vida é bela pelas estranhezas,
pelo seu lado sempre inapreensível —
seu visível que esbarra no invisível,
seus real irreal surreal e realezas...
Você também com suas feminezas
mostra de quem é filha em alto nível —
sim, é o poema mais intraduzível
que já se fez em surtos de grandezas...
Entre você, Mulher, você e a Vida,
qual é a mais difícil de entender,
ou mais fácil de ser compreendida?
Entre você, a rosa e o agudo espinho —
qual nos machuca mais para colher
os sonhos que molhamos em seu vinho?...
LA
Tenho Ainda...
Tenho ainda metade de uma taça
da nossa última conversa: o vinho
que vai tecendo e modelando o ninho
de um sonhar lá num tempo que não passa...
Sim: tesouro que o tempo nem a traça
hão de comer: guardado num cantinho
em alma-coração, lá no escaninho
de uma lembrança de alegria e graça.
Tenho ainda metade de uma taça
daquela madrugada em plena praça
em que tu musicavas um jardim...
Tenho ainda metade de uma taça
dos momentos de um sonho que, se passa, —
há de passar sem conhecer um fim.
LA
Uma Ternura...
Uma ternura ainda menina
a lhe brotar do corpo esguio —
leveza em haste de bonina.
Passou-lhe o tempo, ela ficou —
qual as atuais águas do rio —
do rio que passa-e-não–passou.
Há nela um brilho: uma beleza
maior que o tempo e a natureza.
LA
O ser apenas
se transparece
pela poesia.
Pela razão
jamais o ser
se descortina —
só nos achamos
ao nos perdermos
na poesia —
que é achamento
pelo espanto —
espanto-encanto.
LA
Você percebe que ficou velho
quando a moça bonita ao lado,
no consultório, no metrô...
se levanta... e com um sorriso,
um sorriso de matar —
lhe oferece o lugar.
LA
Sexta à noite ela me disse
que não mais me admirava... não mais me amava...
Daí a uma hora veio —
foi um frege danado...
Perguntei-lhe por que me havia dito aquilo,
disse que era pra incendiar os afazeres...
LA
Débora
Quando garoto lambuzei
meu corpo e alma no teu mel —
me lambuzei qual nenhum rei.
Eras bem mais experiente
e me levavas ao teu céu
com uma carícia de nubente.
Foi tanto mel, mas tanto mel,
que ao me picares nem doeu.
LA
Eu Te Faria...
Eu te faria um belo poema
se já não fosses a poesia
que me acompanha em vário tema.
Para te achares nos meus versos,
vai pela trilha da alegria
e te verás em tons diversos.
Ah! Toma, escuta esta canção,
nela ouvirás um coração.
LA
Quero Imitar...
Quero imitar em áureo verso
suas sandálias a cantar,
cantarolar em tom diverso —
saltos que falam, falam alto
pelas calçadas par a par —
saltos em dueto salto a salto.
Faça-as cantar, menina, estale-as,
faça cantar suas sandálias.
LA