Nem sempre o silêncio é defesa ou reação, mas tempo de cura.
Frases de João Pedro Filho
9 frases
Dossel Um denso dossel cobriu meus olhos, e a noite caiu. Foram-se as vozes, as cores, o toque, e no silente de um só; resvalei em mim nas lembranças que se esfumaram no tempo.
Continuar lendo
Dossel Um denso dossel cobriu meus olhos, e a noite caiu. Foram-se as vozes, as cores, o toque, e no silente de um só; resvalei em mim nas lembranças que se esfumaram no tempo. Na urgência do destino, a selfie ausente do poente não vivido. O adeus roubado. Caminhando de olhos fechados, uma vida esvaiu-se por entre os dedos. Cansado, adormeci nos escombros de mim mesmo, a duras penas conformado. Despertei à luz do sol, quando o vento soprou o dossel. Nesta altura, conheci — desconhecendo, as rugas na pele e os fios brancos, nascidos na dormência de quem fui. Na esperança, sigo lutando no presente, a guardar memórias na epiderme; trapaceando o incerto blackout. Quanto tempo me resta, não sei! Cá dentro, é a dor no vazio da minha metamorfose que perdi. Sem ver, envelheci!
Ilha Na rebentação em fúria Lembranças antigas despertam
Continuar lendo
Ilha Na rebentação em fúria Lembranças antigas despertam Em ciclones e tormentas. Maré alta, noite inteira Clama ventos, que a norte chegam Bramindo desassossegos Protestos por Selena ausente, Em édredons, escondida Eu e a ilha, somos um só Fustigados num inferno Em tempestades de inverno Estrondos retumbantes De memórias que chagam mentes Na calada dos silêncios Até que Selena apareça Para que o vento se acalme E, enfim, eu adormeça. Eu e a ilha, somos um só!
Insónia Na tua ausência, amor, tem dias que nem um vento se sente. É como se a aragem entrasse pelas ventas do mundo, e no vão entre mim e ele, restasse um vazio. Um nada.
Continuar lendo
Insónia Na tua ausência, amor, tem dias que nem um vento se sente. É como se a aragem entrasse pelas ventas do mundo, e no vão entre mim e ele, restasse um vazio. Um nada. Na insípida madrugada, o desconcertante censo de vazio. Acordado, fecho os olhos, e dentro de mim vou tateando na escuridão, lembranças que esbarram no peito. Serenatas longínquas que o vento traz, embalando a insónia, feito ondas de um Atlântico. Bailado de vida, vai vem de memórias e sentidos. Na hora em que o mundo adormece, é quando o silêncio grita mais alto na saudade de um tempo que foi e não volta. Constante, é este condensar o pensar nesta forma estranha de estar. Vivi no teu peito, e na despedida de um beijo, morri.
TEMPO Há no tempo do tempo um tempo
Continuar lendo
TEMPO Há no tempo do tempo um tempo em que o tempo conspira. Passa ligeiro num sorriso. Passa manso em agonia. Aflito para. Ansioso não anda. É tristeza que não avança. Há no tempo do tempo um tempo em que o tempo é mistério. Mestre de ocasião oportuna. Ensejo de pergunta. Dono de certezas. Soberano de passados e futuros. Regente de presentes gaiatos. Concubino do universo, é algoz da minha saudade. Vaga que traz, onda que leva. Há no tempo do tempo Um tempo que é mágoa, dor e olvido. Tempo de luto. Tempo de cura.
Olhando-me no espelho
Continuar lendo
Olhando-me no espelho Olhando-me no espelho entendo que muito mais que ver uma face é abrir as portas da alma e olhar ela nos olhos. É sair de mim pra mim resvalando nas linhas do rosto abrindo-me feito um livro sendo eu o leitor de mim mesmo. Olhando-me no espelho entendo que sendo nada fui o tudo quando tive de me ser. É aceitar-me branco ou negro cinza, prata, cobre, ferro e ali, naquele reflexo ver-me por inteiro. Não um recorte de quem fui! Olhando-me no espelho entendo que a vida aconteceu. Que passou por mim feito vento num vendaval de intempéries e que sendo eu barro, até fui moldado mas nunca perdi o rastro da terra que sou. Olhando-me no espelho entendo que nunca fui mais que ninguém só tentei ser o mundo para quem tatuei no peito assinados como os meus.
Amo arrancar sorrisos, mas amo a beleza de uma lágrima feliz. Emociona-me!
Sou o azar da imprudente intenção de quem ousa desfolhar-me.
A paz é a utopia na inquietude da nossa selvageria inata.