DESLUMBRANDO-SE
É preciso saber fazer de uma flor o seu jardim
Quando não há mais nenhuma possibilidade
De novos nasceres.
É preciso aprender a deslumbrar os olhos! Deslumbrar a vida... Deslumbrar a alma...
FOME DE TI
Não era a lua
E nem a chuva
Que deslumbrava-me
o corpo nu.
Eras tu, oh meu amor
Que caminhavas
Por sobre a dor
Da pobre alma
Que te pedia
Um pedaço de pão
Naquele dia.
E aquela fome
Ainda me consome.
Você partiu!
E eu ainda sinto fome
Fome do afago das tuas mãos
Única e última vez
Do jardim da sua casa
À cadeira de balanço na sacada,
a lua prateando lírios na parede!
Deve ser mesmo uma casa encantada!
E o azul índigo na sua calça jeans desbotada.
A camiseta perfumada de francês.
Era a nossa única e primeira vez
DE QUE SERVEM AS CONSTELAÇÕES?
Não te posso dar um nome, amor.
Nem uma flor posso oferecer
Andas nas constelações de Quasar
E eu, busco uma única estrela: teus olhos.
De que serve milhares de estrelas,
e mesmoaA Órion,
se custas anos luzes para tê-las?
E o nosso tempo é por deveras, breve.
Não se atreve, podes perdê-las
Sem nunca, nunca tê-las.
Não tenho um nome para te dar,
oh navegador da infinitude!
Das constelações, do meu amor
E da minha dor!
Abandona, sereno, o teu barco
Declina-te para a terra;
joga teus remos às águas!
Esses remos cobertos de mágoas.
Deixa que passe a noite!
Não se atreve perder-te
em busca de vãs estrelas.
REPETIÇÃO
A vida é mais que lembranças repetidas. Ela continua. É soma ao agora, ao amanhã e ao depois, que se tornarão coisas repetidas também. Mas não é só isso, pois haverá outros amanhãs e outros dias para somar, e tudo volta ao começo de tudo: A vida é mais que lembranças repetidas.
PEQUEI
Pequei contra ti
E como tenho pecado!
Devo pagar.
Serei condenado
Pequei por amor
Sou desgraçado
Mas já tenho a pena
A triste saudade.
Viver por viver
É também um morrer
É sentença de morte
É um viver sem norte
Essa é a pena
Por tanto querer.
E preso à alma
Que nunca se acalma
Não há quem liberte
E vivo perece.
Hei de morrer
Sem ouvir sua voz
Sem ter sua prece,
Meu amor, meu algoz!
Quem sou...
Eu nasci poesia
e a vida em verso me fragmentou.
Fui flores e também espinhos,
soluços e canções nos caminhos.
Fui prece e desalento.
Palavras de blasfêmias ao vento.
Daquele que me amou fui apenas
a nota da canção que ninguém cantou.
Adeus
Mudou a estação da minha vida.
Vc acenou de longe...
Sem ter tempo de molhar
As feridas que não somente eu fiz
Que não somente eu quis
Quando me fiz por tua amada.
O TEMPO DE SER FELIZ
O meu tempo de ser feliz é agora
Mesmo que tenha chorado
Trago alegrias de antigas auroras
E se o tempo passou e vc apenas chorou,
Vá estrada a fora a colher os feixes, os molhos dos trigos e da primavera esquecida:
Lembranças do passado.
Mas vá, sem antes levar
os gravetos de agora,
os feixes das rosas, das primaveras
e os desenhos das nuvens de algodão.
Mas vá.
Deixe em paz seu coração.
Junta a lenha no terreiro!
Torne-se inteiro!
COSTURANDO O TEMPO
Vivo a costurar o tempo
Com minhas agulhas, costurando
Vou caminhando... alinhavando
e até remendando-o.
Às vezes sento, e entre um café e outro
Conduzo-me de ponto a ponto.
Mas tudo é atemporal
E não há como desenhar esse tal tempo
Copiando rosas ou folhas ao vento.
E nessa costura sem fim
Teço-me um infinito para mim.
Joana de Oviedo – Direitos reservados
INVERNO ATEMPORAL
A aurora veio com os versos do poeta
Trazidos pelo frio invernal
E tudo era festa, porque o ventos
Batiam nos vestidos das meninas nas ruas
E então nas noites, pareciam nuas
Apesar de seus trajes de festas.
Nada é como antigamente
A aurora chega fremente
Com gosto de noites mal dormidas
A face um tanto amanhecida
De quem a esperou para olhar
Pela janela e ver no varal
Os vestidos da menina
Que não dançam mais pelas ruas.
Cansou-se, desbotou-se no inverno atemporal!
DESEJOS PARA HOJE E SEMPRE
Que hoje o café seja servido em todas as mesas
Que nenhuma delas fiquem sem os perfumes das mãos,
E que nenhuma mão se prive de tocar em outras mãos;
Que de noite, toda nostalgia se transforme em poesias;
Que a lua resplandeça ainda que encoberta pelo sol
Quando chover, que o sol brilhe ainda acima das nuvens se as chuvas tentar apaga-lo,
Mas o seu brilho reflita intensamente sobre a terra, e em forma de esperança, sobre a nossa terra chamada coração;
Que seu olhar nunca se apague na desesperança, e caso se apagar, ele apenas esteja descansando para nos contar logo mais um sonho bom
Que a videira floresça e lhe dê mais vinhos suaves, sem motivos para embebedar-se,
a não ser da própria alegria;
Que as mãos estendidas, nas ruas, sejam apenas para apertar as suas e desejar um bom dia, boa tarde ou boa anoite.
Que nas noite não haja ninguém nas ruas (sem lugar para voltar), a não ser a passeio para um sorvete
Que “os mano” utilizem o vocabulário certo (irmãos);
e que todos o utilize na medida exata do seu significado;
Que haja paz; que haja Deus!
Joana de Oviedo – direitos reservados
PALAVRAS DESNECESSÁRIAS
Palavras são desnecessárias
Mas não viveremos sem pronunciá-las;
E a pronunciamos com algum intuito fortuito
Ou mesmo sem nenhum
Para um futuro que não sabemos
se teremos.
Palavras...
Desnecessárias!
CADEIA ALIMENTAR
E assim eles olham
E assim eles oram
Quando olham,
Espera que alguém lhes
tragam saciedade
Quando oram, esperam
Que o maná virá do céu
E olham e oram
E logo tornar-se-ão o maná
de outros bichos.
AS BORBOLETAS
E as borboletas ainda voam
Às tardezinhas roubando de algum jardim
palavras ao meu poema
E trazem assim, tênue uma a uma,
as palavras, Nem percebem
que o que me faz escrever
são as asas que voam fremente ao vento.
Sem esse compromisso de dizer
ou mostrar-se contente.
Sem a ânsia de viver sabendo que logo
Irá nascer do casulo ou renascer.
E as borboletas se vão aos jardins
Para morrerem feito palavras no papel.
NOSSO ENCONTRO
Eu tenho um encontro
Tenho um encontro marcado com você
Um encontro
marcado
com você
No banco da praça...
______________________
Era um encontro marcado
com você
Que não tinha um encontro marcado
Na praça onde eu marquei
um encontro de você comigo.
O tempo
Que dirão os corações ao tempo que passa
Se não há mais tempo de pronunciar com os lábios?
Então acenam-se as mãos para que fique
E não há como o tempo prestar atenção
Pois seu olhar é sempre à frente.
Que dirão os corações?
Enquanto as lágrimas andam pelos caminhos da face
E vai se esconder em um rio que mora nos lábios...
O tempo olha a cena e passa, porque não há tempo para contracenar.
Joana de Oviedo – direitos reservados
PARA ALÉM DE UM LUGAR
Por onde tens andado?
Oh, anjo de asas douradas
Acaso, tens caminhado
Onde começa e acaba a madrugada?
Para além de um lugar tens pousado
Em que a primavera premente
Cultiva uma única flor estranha
Em que fazes teu vinho
Acre-doce, ora fino e também triste
a servires nas taças dos querubins
Que voarão sobre a terça parte da terra
E ferirão os povos nas faces, nas mãos.
Derramar-te-ás esse cálice a mim?
Oh, anjo de asas douradas
Tu tens a chave desse segredo
Em que se abre o livro do começo e do fim.
Então... Dize-me, o que é isso?
esse fim que a tudo consome
isso deve ter um nome.
METAFORANDO
A vida vai caminhando por entre os rostos
E os caminhos são longos, outros são metades-caminhos
Podem ser largos e também estreitos,
ora de acabam, ora iniciam-se.
E a vida vai criando metaforicamente caminhos na face.
SONHOS
Alguns sonham em ser deuses
Assim como os jardins de violetas
Sonham em ser uma floresta de rosas;
O riacho sonha em ser mar
E o mar se transborda à praia
Porque o que quer mesmo
E alcançar a mais linda pérola.
E assim continuemos com nossos sonhos.
Sejam pequenos ou grandes,
Não demoremos porque as violetas
Fenecem, assim as rosas também,
O riacho e o mar...
Mas sempre haverá um grão dentro da ostra.