É debaixo de suas asas que me escondo quando estou com medo de que não me leves ao mesmo infinito para onde tu viajas, se estás longes. Portanto, não me arremesses aos ventos em pleno voo, acaso eu, repentino, tomar teus pensamentos. Lembre-se que sou o vento que te levanta as asas e as sustém para a imensidão.
QUIMERA
Nascem as flores nas floreiras
Cheiram os pés de laranjeiras
Breve é a primavera
e da vida a alegria é apenas quimera
Pois logo desce o triste inverno
Na imensidão do frio que à noite tece.
Assim também é o nascer:
As floreiras são o berço que nos acolhe;
E a estação das flores, a juventude.
Enfim tudo é solicitude, é um morrer
Que se faz no úmido frio sepulcral.
BOBAGEM
O tempo vai passando e nos conscientizamos
de que nada é tão importante e tudo não passa de ilusão.
As coisas vão perdendo o seu gosto pueril...
vai deixando de ser importante e necessária...
Deixando de ter aquele gosto de coisas refinadas,
e, de que tudo vai se transformando em mera bobagem.
TATUAGEM
Tatuei-te na retina
Assim como o viajante
Busca seu horizonte mais bonito
Que ele acredita estar sempre depois da montanha.
Assim como o marinheiro em seus sonhos no convés.
POR TI
Por ti eu vivo doidamente
Por entre as vielas e becos da vida
Busco guarida em qualquer sorriso
Que a mim parece seu gosto fremente.
Envolvi a alma de antigas auroras
E nas calmarias da noite quando a vida chora.
Abro a janela em busca de uma sombra.
E de manhã vou em busca de suas passadas nas alfombras.
Nada há, portanto, só na memória.
As penas de te ver saindo a toda hora
É como visões de um pesadelo que se repete.
E choro minhas ilusões perdidas, com que
Sua lembrança tece... Eu também vou indo.
Espere-me! Também estou eu partindo.
JOANA DE OVIEDO - Direitos Reservados
do livro Caminhos na face.
Amanhecer
Gostaria de algo dizer
Que te fizesse o dia amanhecer.
Não um simples bom dia
Do que nunca foi dito,
Mas toda euforia
do que nunca ouviste.
Mas que te fizesse o dia amanhecer,
Diferente, bonito!
E que não apagasse a palavra perdão
Para que nenhuma das outras palavras
Tornassem vazias, em vão.
DESERTO
Faz-se desertos nos lençóis azuis de cetim
E desertificam em mim teu corpo, tua voz e os teus sins.
E enlouqueço no meu cais em busca de um navio que
Me leve ao tempo em que estivestes lá.
Assim é esse meu amor
Esse amor que é meu
E me alimenta de versos, anelos e ternura
Esse... que um dia saí a procura-lo,
A chama-lo de alma minha...
Há eternidades já habitava-me em sonhos a sua voz macia
E um sorriso terno...
Suas mãos pequenas de pérolas!
Assim seria esse meu amor!
Os negros olhos a mirar os meus!
Esse amor! Seria todo meu paraíso!
E ele me amaria por tudo e também por nada.
Talvez até pelos meus olhos arroxeados...
Olhos feito flor de violetas:
Rara flor no seu jardim!
Assim é esse meu amor.
Eu o amaria por tudo e também por nada.
DIÁLOGO
Eu falo com vc que fala comigo... Falo com quem nem fala comigo ou me vê. Vou indo... Vendo vcs... A todos um pouquinho! Por um ponto, ou um emogi.
Amo-os, amo sozinha, mas amo e nem é preciso que me ames, e nem que queira meu amor. Amo-os infinitamente por vcs o meu próprio amor. Iguais as borboletas que não se conhecem mas voam em bando e se cumprimento em cada vôo, uma a uma.
Arco-íris
E quando as gotículas do orvalho caem nas folhas,
ao por do sol, pintam-nas de arco-iris.
O arco-íris é o reflexo de tudo.
Todas as cores estão nele,
mas reluz de acordo com as cores
do olhar que as traduz.
UM DIA...
Amarás as coisas que amei...
as coisas mais simples e que não gostava.
Quererás encontrar dentre os guardados, meus rabiscos
de poesias que dizia não entender.
Procurarás no quarto de despejo o vestido roto
e pendurarás no cabide ao lado de sua camisa...
mas será só um vestido.
Dentre meus discos... não acharás a minha música (nunca foi a nossa).
Eu sei que por entre as trilhas que passei
seus pés tentarão adivinhar onde marquei minhas pegadas,
mas os ventos se assopraram e as apagaram.
quando vires uma mulher de olhar triste a vagar
olharás tão forte para ela e tentará me reconhecer nesses olhos.
Não. não! Eu não estarei naquele olhar sofrido.
Tentarás adivinhar e amar as coisas que eu amei.
Mas será noite , e a noite terá apagado toda minha imagem
e os caminhos por onde passei.
Amarás as coisas que eu amei, mas amarás em vão
porque por certo estarei dormindo e nada mais amarei eu.
NOVO DESENHO
Não são meus olhos que choram,
é a primavera que não mais perfuma.
Não são meus lábios
que não mais sorriem,
é o novo desenho do arquiteto tempo!
Esculpiu-os assim,
VA GA RO SA MEN TE!
Um rosto não se transforma, muda-se
a expressão diante do mutável exterior.
É o novo do arquiteto tempo!]
18/02/04
Espera!
Em pouco tempo virá um tempo
Em que não mais esperarás.
Não mais cantarás...
Só há de mirar o lago, o grande lago do silêncio.
E os milhares de estrelas na orla dos teus sonhos, cintilantes!
Espera! O mesmo tempo comporá
uma música... Tua eterna música de ninar.
UM POEMA COMO MEDALHA
Era um menino pobre, pequenino.
Não sei se teve pipa de papel azul,
Nem barquinho na enxurrada.
Não sei se viu papai-noel na chaminé,
Ou se alguém lhe contou estórias encantadas.
Era um menino...
Que cresceu e cresceu...
Contou-me estórias e se vestiu de papai-noel
por tanto tempo na minha memória.
As estórias que ele me contou, eu não sei quem lhe ensinou.
Esse menino tão pequenino!
Cresceu e cresceu...
Hoje, herói de tantas batalhas!
Porém, sem medalhas.
Linda é a vida
que se abriga numa enorme barriga!
Linda é a vida
de mãos dadas, nos parques
na lida... afora na vida!
Linda é a vida!
Nos olhos tristes d’alma ferida...
No vagar sozinho,
ainda assim de lábios risonhos
por qualquer caminho...
Linda é a vida no compasso dos passos:
apressados ou lentos em busca de sonhos!
Linda é a vida, na lida: a vida!
CAVALGADA
Meu amor é um eterno cavalgar.
Cavalgar a paisagem tigresa
do teu olhar.
Os caminhos íngremes e bucólicos:
teu corpo a desnudar-se.
Pudera!
Eu quisera
Nesse eterno cavalgar,
Feliz, em sua boca, um beijo pousar.
A FORÇA DE UM SONHO
Era um rebento frágil...
Mas um dia ele viu
as flores das cerejeiras:
tão lindas! E quis perfumar
e quis florir.
Era um rebento estéril...
Nem tinha folhas
Nem tinha vida.
Dormiu e sonhou ser
ao menos uma solitária flor
mas que tivesse cor.
Amanheceu abotoado de pomos
exalando o suave perfume das cerejeiras.
INFÂNCIA...
Música que entretemos a ouvir.
Tela que passa pintada de nenúfares
diante dos olhos. Mas passa silenciosa,
coroada de nuvens; ferindo...
Não podemos segui-la.
Estáticos, envelhecemos.