QUIETUDE
Está tudo tão quieto!
Tão silente... É a vida da gente
que está se esvaindo na vida dos outros
que indo primeiro, preparando o terreiro.
Não temos escolhas
é a fila que anda
silenciosamente
para não acordar
os que jagem e dormem
na quietude da vida
sem despedida!
Tão silente... É a vida da gente!
Rompi as ataduras da minha alma
para me encontrar com a sua
em algum tempo perplexo,
deconexo.
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Ataduras rompi
encontrou-me a minha alma a ti.
côncava e convexa, mas desconexa!
EU E O ESPELHO
Eu não sou ninguém
Nunca fui a loucura de nada,
Nem a sanidade também
Nem o início de um caminho
Ou mesmo a solidão da estrada...
Procurei-me por tanto tempo
e nada encontrei no velho espelho
É preciso rezar para me encontrar
E saber que existo seja lá em qualquer
tom e cor e lugar.
Eu sei, não sou nada além dessa loucura
De um espelho pendurado na parede
E a cada vez esse espelho envelhece
E outra face também em mim tece.
É preciso trocar-lhe a moldura!
ANTÍTESE
És o fogo que aquece minhas mãos
Quando me amas, à lareira!
Mas também o gelo que me queima na ausência.
Tal qual o fogo ateado à lenha, nas noites frias.
És o carvão que me tece um triste coração
Nos desenhos feitos na areia quando a tristeza
Me faz sentar à beira da estrada, sozinha.
Então me torno os olhos tristes do homem
Que buscou construir seu castelo, na solidão.
Sem a lareira e sem lenha no terreiro!
Não há rosas
Contemplo as flores no jardim
No jardim, embaixo da torre Eifell
E deparo com violetas cobertas de neves...
Não há rosas ainda nos pomos
Mas a esperança de que serão vermelhas
Sinto já o fogo das pétalas entrando pela janela
E um bilhete que transcende palavras de amor,
As violetas roxas inclinam-se com o vento
Como bailarinas segurando-se com os pés
O corpo que quer voar, sonhando ser borboleta
E um fio de esperança transcende o meu inútil
Amor e abro a janela para o inverno.
Mas não há rosas!
Eu sei que sou assim
A vida, a morte e o fim.
O fim que é o começo
Na vida que não conheço
Na morte o recomeço.
E vou vivendo,
de vida em vida
De morte em morte,
todos os dias.
De fim... Enfim!
De todo o broto que gerou
Ficou a folha
De toda a folha que secou e caiu
O caule, nu, se mostrou
Despretensioso
Entre a flor,
Mas que erguia
A cor de tudo
Que a raiz submersa
Na terra, produziu.
Pensando no tempo
No seu castelo solitário
Ela se olha no velho espelho
Em volta para o porão
Intocado de luz e cor
Nada reflete sua face em rubor.
Bem queria ela amadurecer
E em poucos dias poder viver
A sombra da mulher
Que um dia desejou ser.
E balbucia algumas palavras
Sem sentido, com gosto de nada
E na madrugada os vendavais
Sacodem em sua alma
Os tempos que não voltam mais.
Bem queria ela amadurecer
bem queria ela parar o tempo
e de novo amanhecer.
Não há sentido ver o tempo passar
Não há sentido que esse tempo não ousa voltar.
SÓ UMA PAUSA
A noite chegou...
Uma pausa
para os comerciais da vida
mas não para a vida.
Amanhã o sol vai voltar
e a vida tornará a sorrir
a moça da noite levará
o leite e o pão
após deitar-se na cama
no chão, no colchão.
O moço cansado
ao lar retornado
de angústia matar.
No leito, alguém
não verá os comerciais
da vida... da vida de ontem.
Ao amanhecer.
__Mas, o que é mesmo a vida?
Relógio quebrado
O tempo
O relógio se desvaneceu.
Quebraram seus ponteiros,
e os numerais se desfizeram
sob sóis desconhecidos.
Agora quem contará o tempo?
Esse intervalo de vida, sem alento,
quem sabe não existirá mais...
Tudo tornou-se corrompido.
Quem contará o tempo
no tempo que se perdeu?
A ESTRELA QUE NÃO VI
Entre a flor e a estrela
Mora o meu amor
Na centelha divina
Mesmo que num canto de dor.
Quisera esquecer-te
Se não posso ter-te
Entre o espaço e o firmamento
Entre a tempestade e o vento
Que passa e perpassa -me os poros.
Choro! Pela flor que não colhi
Pela estrela que não vi
Na noite melancólica e triste
E que mesmo triste, se acabou
Num raio iluminado de sol
Entre a flor que não te dei
E a estrela que não vi.
Direito de expressão
É preciso dizer não a vida.
Muitas vezes!
E dizer não a vida
É atropela-la,
Antes que nos matem
E não dê tempo
De pronunciarmos
O nosso inquestionável
Direito de expressão.
Não! Eu quero dizer não!
Mesmo que em outro
Momento eu mude de opinião.
“Oh, coisa simples! Para onde foste?”
Sensível cérebro quando chegou a tal conclusão, haja vista que em “tempos modernos”, tudo que se mostra, em nada faz lembrar a simplicidade quase inocente de tempos “remotos”.
A felicidade deve estar estampada nas redes sociais e/ou nos relacionamentos, e, assim ilusória, sabendo-se falsa, causa sofrimento e dor ao ser humano de não poder atingir esse grau de satisfação, senão um espírito depressivo de não poder viver a plenitude de um real sentimento. Não há nada de errado mostrar as coisas boas e mesmo um momento de magnitude, pois o cérebro sabe reconhecer o belo, assim como reconhece o "feio" como algo doente (segundo as Neurociências), mas sejamos coerentes com o que é verdadeiro. Há razões para sermos felizes, sem cobranças, e sem ter um destinatário distante para onde “devamos” exibir algo que não temos ou somos na realidade ou na essência.