Pular para o conteúdo

Frases de J.W.Papa

157 frases

Máquina da desinvenção [J.W.Papa] Desinventei a amizade, desinventei o namoro, desinventei a cidade
Continuar lendo

Máquina da desinvenção [J.W.Papa] Desinventei a amizade, desinventei o namoro, desinventei a cidade desinventei tudo que fora inventado, e antes que fosse tarde me revoltei com o sistema, chutei o balde desinventei a velha máxima de que adolescente é tudo rebelde e assim segui pela vida... desinventando as invenções existentes. Desinventei minha infância, abandonei os livros, os amigos, a escola... Senti-me como se fosse um adulto temporão no pleito dessa minha nova desinvenção fui trabalhar nas férias: - vendendo picolé, carpindo lotes, acompanhando e cuidando de idosos - Logo alguém viu a merda que fiz e cismou de desinventá-la por mim. Então, tive de me adaptar! Uma vez que, barriga vazia não para de roncar. Sem querer inventei o fórceps! Assim que nasci, desinventei o parto normal e foi essa, a minha primeira desinvenção que deu o que falar. Tornei-me logo cedo um grande desinventor - marginalizado por minhas ideias revolucionárias de desinvenção. Desinventei a guerra, desinventei a fome, desinventei a miséria desinventei tudo que havia de ser desinventado segui em frente desinventando tudo que pude sem olhar para trás até que um dia cismei de inventar uma máquina que desinventasse as desinvenções e assim tudo cessou de ser desinventado por mim.

A revelia Sou o poeta que escreve seus versos nos muros artista dos becos e das vilas que declama suas dores e amarguras
Continuar lendo

A revelia Sou o poeta que escreve seus versos nos muros artista dos becos e das vilas que declama suas dores e amarguras sou o filho do meio, de outros tantos, criados a revelia e sem recursos por uma dona Ana ou uma dona Maria... Na rua sou ligeiro, nem bala perdida me acha sou rima faceira que combina em seu corpo tempo e espaço, ódio e amor, paz e guerra sou a linha de frente da guerra, a lâmina da faca, o cano do fuzil sou o verbo inteiro, vez ou outra partido ao meio, transformado em refrão sou o mundo inteiro e o meu bairro e o desespero da mãe quando falta o pão sou a minha esperança a ponta aguda da lança - nunca se esqueçam! Sou o pai de família que acorda todos os dias bem cedo e segue firme sem pedir arrego, sem desejar vida fácil. Sou o pretinho longe do tráfico, salvo pelo passinho e pelo futebol sou a segunda parte do hino nacional que ninguém canta: a liberdade os campos verdes o lábaro que ostentas estrelado. Sou apenas mais um filho da pátria Brasil com nome de santo feito outros tantos Silvas nos becos, nos morros, nas periferias apenas mais um brancopretovermelhoamarelhoíndio e favelado renegado pelo sistema, vestindo preto por fora e por dentro.

Transtorno de domingo Aos olhos de todos - as vísceras - completamente expostas. Expostas feito quadros, feito instalações contemporâneas nas ruas da periferia. Sacadas ao meio dia na frente de todos, na porta da padaria. E o corpo, sem identidade ou cor revirado às avessas, a r…
Continuar lendo

Transtorno de domingo Aos olhos de todos - as vísceras - completamente expostas. Expostas feito quadros, feito instalações contemporâneas nas ruas da periferia. Sacadas ao meio dia na frente de todos, na porta da padaria. E o corpo, sem identidade ou cor revirado às avessas, a revelia de sua vontade. Caído de ponta a cabeça na sarjeta, após tamanha tormenta. De repente, um grande alvoroço! As sirenes do carro de resgate interrompem o silêncio local - chegam primeiro que a polícia - essa chega instantes depois com todo seu aparato.Mas já é tarde demais! Todos observam calados, incrédulos com o ocorrido. Ninguém fala nada, ninguém vai embora. E como se ainda esperassem acontecer algo permanecem no local, velando o corpo. O sangue encarnado que escorre do corpo já roxo, segue pela guia da calçada em linha reta, na direção do esgoto. Já se passam das sete da noite e o corpo permanece ali, no mesmo lugar! Só que agora coberto com uma manta de papelão improvisada, feita de caixas de óleo de soja, doadas pelo dono da padaria. Ninguém parece ter pressa de tirá-lo daquele lugar. Só o dono da padaria se preocupa com o corpo, pois já é hora de baixar as portas, de fechar o comércio e acabar com todo aquele grande transtorno de domingo.

Muito prazer em te conhecer Desaprendi o amor com você no dia em que te conheci, experimentei
Continuar lendo

Muito prazer em te conhecer Desaprendi o amor com você no dia em que te conheci, experimentei feito experimenta-se uma dose de cicuta esse seu desamor sempre tão latente. Hoje não amo mais ninguém nem eu mesmo. E agora que estamos em sintonia e nos tornamos igualmente cruéis frios e insensíveis que tal recomeçarmos do início? Oi... Muito prazer em (re)conhecê-la.

Balada da travessia Na curva da noite e meia acordam os insones
Continuar lendo

Balada da travessia Na curva da noite e meia acordam os insones para a balada da travessia. O som da batida eletrônica faz vibrar as pupilas que dançam atordoadas com tal barulho. As pernas também se mexem seguem desobedientes à revelia do som ambiente. E à revelia, a noite te comove... As cortinas se fecham, as luzes se apagam, a noite vence vem o sono e te envolve com seus tentáculos você não resiste, nem insiste. Já sonolento, perde toda a ginga das pernas e antes que perceba completa solenemente a travessia.

Abril vermelho Vejo o mar agitado se abrir e a multidão em polvorosa ir em direção à costa
Continuar lendo

Abril vermelho Vejo o mar agitado se abrir e a multidão em polvorosa ir em direção à costa vejo ondas cada vez mais altas e a rebentação cada vez mais forte vejo professores em todo território nacional rebelados e rebelando-se contra o sistema ao meio dia à meia noite a todo tempo vejo punhos se cerrarem e a malta se unir nas ruas não vejo a inércia de antes vejo sangue, dor, lágrimas vejo esperança, força, garra prevejo mudanças profundas oriundas dessa tormenta vejo o povo retomando o controle promovendo revoluções em série vejo o povo nas ruas de mãos dadas com a Educação e a marcha diária de ocupação nas praças e palácios dos governos somando um, dois, três milhões... Ainda não consigo enxergar o fim dessa peleja mas vejo nitidamente o início de tudo isso vejo acontecer em tempo real revoluções por minuto.

Morreu enquanto ainda dava tempo Desenristou a mão e encostou-a ligeira ao peito como quem apalpa, apertando forte, uma banda de carne embalada à vácuo
Continuar lendo

Morreu enquanto ainda dava tempo Desenristou a mão e encostou-a ligeira ao peito como quem apalpa, apertando forte, uma banda de carne embalada à vácuo dessas que ficam em prateleiras em balcões frigoríficos nos supermercados Dedilhou o ar e esfregou os dedos uns nos outros para sentir se tato havia e se fim dava àquela dormência que o acometia a mão esquerda. Arranhou a pele umas duas ou três vezes para ver se o sangue ainda corria pleno em suas veias fazendo fértil o terreno de seu coração. Fértil como aparenta estar a terra quando bem irrigada, em uma bem cuidada plantação. No caluniar da escuridão da morte parou, e se arrependeu de tudo! Parou, por que não tinha como não parar. Se seguisse em frente talvez lhe faltasse pernas para chegar. Aos cento e quarenta e sete anos pediu, quase implorando, que o deixassem ali. Apoiou a língua já quase sem movimento no chão da boca e gritou de dentro pra fora bem alto: - Todo mundo parado! Ninguém faz nada! Ninguém se mexe! Ele parecia estar negociando com a vida e com a morte ao mesmo tempo Ninguém interviu. E antes que todos dessem conta, ele morreu, enquanto ainda dava tempo.

O apontador de metralhadoras Deleite em sangue e dor e lágrimas que caem e são sopradas pelo vento para longe, para bem longe de qualquer sentimento minimamente humanizado.
Continuar lendo

O apontador de metralhadoras Deleite em sangue e dor e lágrimas que caem e são sopradas pelo vento para longe, para bem longe de qualquer sentimento minimamente humanizado. Com rígidas metas a seguir, o apontador segue em auxílio à barbárie a metralhadora arguida pelo furor de sua própria ira interna embrutecida na contramão da vida, orienta seu caminho. A alça de mira em 'colundria' com a massa de mira, ambas corrompidas pelo gatilho ligeiro da expertise militar que dá vida aos projéteis lançados lentamente ao ar, feito plumas ao vento higieniza toda a humanidade existente naquele lugar, 'desaprisionando' o grito aprisionado no peito que o enche de adrenalina para guerrear e também o comove, o entristece e o faz chorar. Depois dos gritos de medo e pedidos de clemência, o tiro de misericórdia. Os olhos se fecham e o brilho latente da retina se encerra assim como se encerra a luminescência dentro de uma lâmpada, quando se queima. Faz-se um breve silêncio entre o instante imediatamente posterior ao disparo fatal e o instante em que já sem vida, o corpo percorre o trajeto da queda de sua própria altura e encontra o chão duro e ressecado pelo sol forte que o castiga diariamente. O som ensurdecedor do silêncio que se propaga após a queda do corpo no chão à sua frente o faz perceber que a guerra que luta agora, nunca foi a sua própria guerra foi sempre a guerra de outros, justificada por motivos que ele jamais soube explicar. E que os sujeitos por ele subjugados são na verdade, tão inocentes quanto ele próprio. E em meio a tantas agruras, ele percebe que a criança que ergue as mãos em sinal de rendimento o faz por não ter escolha, por não ter também uma metralhadora, ou um fuzil com mira a lazer e pente de munição letal reserva, como a que traz consigo pendurada no ombro esquerdo em um coldre de couro desbotado e sujo de sangue. O que ele não percebe é o quanto essa batalha lhe faz mal o quanto cada corpo caído no chão, sujo de sangue e de terra vai pesar em sua consciência quando enfim parar de puxar o gatilho sem pensar no porque o faz.

Profissão poeta Pensei em viver de poesia mas nunca ouvi falar que ser poeta era profissão
Continuar lendo

Profissão poeta Pensei em viver de poesia mas nunca ouvi falar que ser poeta era profissão e nem que escrever versos pudesse ser ofício de alguém. E se ser poeta e escrever versos compusessem uma profissão - a de ser poeta - quanto ganhariam? Qual seria sua remuneração? Ele teria os mesmos direitos trabalhistas que os outros trabalhadores? Teriam direito a fundo de garantia por tempo de serviço, vale transporte com seis por cento de desconto em folha, vale refeição e alimentação, plano de saúde e dentário, participação nos lucros da empresa e festa para funcionários no natal? A ele pra que serviriam esses benefícios? E se tivesse direitos exclusivos devido ao estresse do exercício de seu ofício quais seriam? Subsídio lápis, subsídio papel com linhas e margens, auxílio borracha? Já imagino até a cena: O poeta na linha de produção de poesias os milhares de versos se entrelaçando na esteira e ele pensativo, tentando dar conta de todo aquele volume de ideias encaixotadas seguindo em sua direção, uma a uma incessantemente. Todas aquelas palavras desconexas, se acumulando no chão ao caírem da esteira formando à revelia de sua vontade poesias sem sentido em poemas disformes, sem métrica, sem rima. Mas pra quê rima, métrica, forma, título...se a poesia pode ser livre? Se você pode ser livre também! Livre dos rótulos, das formas conformadas e das fôrmas sociais. Arrumei um emprego informal! Agora sou poeta, mas não em tempo integral, só quando quero. É verdade que não tenho carteira assinada, nem INSS mas ando feliz a beça com esse meu novo ofício.

O assalto Preciso falar com você! Foi assim que começou aquela conversa.
Continuar lendo

O assalto Preciso falar com você! Foi assim que começou aquela conversa. Parado subitamente por um larápio que espreitava-me na esquina quase tive de submeter-me a seus desmandos. Eu distraído como sempre e ainda meio sem saber do que se tratava nem me importei com aquele rapaz vestindo terno em corte italiano e cheirando a nicotina ordenando-me que parasse. Pare ai, pare ai... Preciso falar com você! Um segundo antes de entender do que se tratava, ainda olhei no visor do celular tentando ver as horas - estava muito atrasado para o trabalho - mas não queria ser mal educado com ele. Então, de imediato ponderei: - Eu te conheço de onde? - E o meliante permaneceu em silêncio, apesar de ter dito que precisava falar comigo. Continuei andando enquanto ele se aproximava rápido - ainda não havia apreendido a sua real intenção - até ele sacar de um dos bolsos do paletó um objeto envolto em papel ofício, um simulacro de arma talvez! Antes mesmo de ser alcançado por ele, apressei o passo e me despedi dizendo até logo. Ainda não havia entendido a real intenção daquele meliante até ouvir de sua própria boca que eu havia sido sorteado em um concurso e ganhara um prêmio portentoso na empresa xis ao utilizar meu cartão de crédito de bandeira internacional. Nesse exato momento percebi tratar-se de um golpe pois, não tinha cartões de créditos há anos.

Acordo entre cavalheiros Decidiu-se, arbitrariamente, naquele dia: - Que a palavra não seria mais censurada de modo algum,
Continuar lendo

Acordo entre cavalheiros Decidiu-se, arbitrariamente, naquele dia: - Que a palavra não seria mais censurada de modo algum, nem por um decreto lei. - Que os olhos não se fechariam nem mesmo se a cabeça abaixasse ou fosse forçada a abaixar-se pontilhada por uma espada de gume afiado. - Que as mãos só se estenderiam ao aperto, se esses, sinceros fossem, inevitavelmente! Sob pena de se negarem mutuamente ao afeto contido no entrelace das mãos caso não os fossem. - De forma alguma haveria perdão, pois, não há o que se perdoar quando não existe o pecado. - E mesmo quando o outro por ventura parecesse distante, ainda assim, haveriam predicados para homenageá-lo. - E mesmo se o outro se fizesse distante, por vontade própria ou por decisão alheia à sua vontade haveria que se, habilmente, apreender-lhe os motivos de sua ausência acolhendo-lhe sem questionamentos, disponibilizando-lhe de forma imediata pão fresco para saciar-lhe a sua própria fome e a de seu exército, água boa para cessar-lhe a cede e a de seus compatriotas e leito confortável para quedar-se em descanso. - Decidiu-se racionalmente que não se dividiriam mulheres durante as transas, a menos que fosse vontade delas, e se assim quisessem, seria feito. Decidiu-se também, que as mulheres seriam tratadas feito rainhas e a elas seriam dadas todas as condições de igualdade nas decisões permitindo-lhes a liberdade necessária para escolhê-los, e não o contrário, cabendo a eles apenas aguardar serem escolhidos e honrados com tal graça. Por fim, decidiu-se, que devido a tal acordo celebrado entre cavalheiros findava-se ali, a guerra, travada antes e até o presente momento, pela incompreensão e bestialidade masculina em seus momentos mais idiotizados de afirmação de suas masculinidades tardias pautadas em um machismo socialmente contraído e totalmente retrógrado. - Decidiu-se em comum acordo entre cavalheiros e celebrar-se-á em pacto de honra com a cessão de um fio do bigode de cada celebrante e um risco de sangue na lâmina da verdade, que todos os acordos por hora celebrados serão mantidos, fazendo-se cumprir tal decisão sem meios termos, sem meias verdades e de maneira irrevogável. Publique-se, divulgue-se, cumpra-se.

Com o passar dos anos a gente descobre que: - odiar é menor que não odiar - não odiar é menor que ser indiferente
Continuar lendo

Com o passar dos anos a gente descobre que: - odiar é menor que não odiar - não odiar é menor que ser indiferente - ser indiferente é menor que amar - amar é maior que tudo antes descrito. E quando a gente chega a descobrir isso, significa que amadurecemos e que estamos prontos para amar incondicionalmente a nós mesmos e ao outro.

Veste as tuas asas/ voa com liberdade Poesia é asa
Continuar lendo

Veste as tuas asas/ voa com liberdade Poesia é asa que se adquire a qualquer tempo na vida se se tarda não há com o que se preocupar Educação é liberdade que só se adquire com algum tempo vivido mas convém se apressar Sê-te esperto veste as tuas asas enquanto ainda podes e voa com liberdade.

Reflexo Vejo um sujeito que se veste do meu corpo e ergue as mãos ao rosto
Continuar lendo

Reflexo Vejo um sujeito que se veste do meu corpo e ergue as mãos ao rosto como se eu fosse. E assim como um verme 'imundo' que se arrasta nos rincões da imensidão desse ou de outros mundos, vive a replicar-me. À frente do espelho, o miserável acena-me com um pisco nos olhos, provoca-me revidando o meu descaso frente à tua presença. Como uma doença incurável, incansável segue a afrontar-me vida afora sua impertinência me incomoda. Mas,por algum motivo,vejo muito dele em mim e, por isso, já não olho mais no espelho já não anseio olhar. Não por medo do reflexo dele, onde me vejo e sim, por medo da face do sujeito oculto nas sombras que não vejo refletida quando me tiram o espelho.

Do banco da praça vejo um bairro inteiro Eu quero é poder estar em uma praça construída aqui mesmo no bairro
Continuar lendo

Do banco da praça vejo um bairro inteiro Eu quero é poder estar em uma praça construída aqui mesmo no bairro e me sentar em um banco qualquer ao lado de uma estátua de bronze qualquer - homenagem póstuma a um desconhecido qualquer - que ao menos 'sabe' porque está lá. E observar os pássaros em festa sobrevoarem afoitos os jardins cercados com arame colorido para mendigar meia dúzia de grãos de milho que alguém jogou ali enquanto flores exuberantes caem das árvores a todo tempo como se compusesse um lamento em lágrimas e pétalas. Eu quero é poder viver o tempo que me resta e apreciar a vida calma nas manhãs agitadas do vai e vem das pessoas apressadas pelos inúmeros caminhos possíveis na periferia. E poder viver mais uns cem anos só para ver concretizar amanhã todos os planos que hoje apenas não passam de sonhos e ver surgir ao longe o fim, solução para toda essa tristeza que hoje toma conta de nossos corações e nos cega diante de tanta aspereza, desumanidade e ausência.

Desculpa mãe! Sempre quis ser mais presente. Não pude até te perder e perceber que a única coisa que realmente importava na vida era estar perto de ti, o máximo de tempo possível. Perto da única amizade verdadeira que antes jamais tive. Sempre quis ser um filho bom, não pude po…
Continuar lendo

Desculpa mãe! Sempre quis ser mais presente. Não pude até te perder e perceber que a única coisa que realmente importava na vida era estar perto de ti, o máximo de tempo possível. Perto da única amizade verdadeira que antes jamais tive. Sempre quis ser um filho bom, não pude por conta de umas questões paralelas aí! Mas quis a vida inteira ser um bom filho, repeitar os mais velhos, ouvir-te sem questionar. Agora você se foi e eu estou aqui, vivendo estes dias tão tristes. A dor que me consome agora, também me paralisa. Olho ao redor e sinto os teus cheiros... Lembro-me daquela comidinha gostosa que você preparava. Lembro de seu perfume, aroma de gordura e alecrim. Lembro-me de seus trejeitos inesquecíveis e da covinha em sua bochecha. Lembro dos teus olhos já quase sem brilho, esmaecidos pela vida. Lembro de quase tudo sobre você. Faz muito tempo, mas me lembro. Como poderia esquecer? Tenho a sensação de que não vou aguentar sua ausência! Sinto sua falta todos os dias e, às vezes, tenho a sensação de que não vou aguentar. Durante a noite as crises são piores, você está em tudo, nem adianta cobrir a cabeça com o cobertor. Sinto tanta saudade de você! Sei que já sou homem e que tenho de ser forte, mas veja seu neto como está, veja o quanto cresceu em tão pouco tempo! Você sempre quis ter um neto, lembra-se? ... Desculpa mãe! Volta pra casa! Volta.

Chapéu de Palha Naquele dia, ele foi ao Mercado Central por acaso. Gostava tanto do lugar, que sempre desviava de seu destino inicial.
Continuar lendo

Chapéu de Palha Naquele dia, ele foi ao Mercado Central por acaso. Gostava tanto do lugar, que sempre desviava de seu destino inicial. Marcava um compromisso no centro (Rua da Bahia, Afonso Pena, Maleta...) sei lá! E, inconscientemente, quase sempre, descia do ônibus na Rua Paraná. Só pra passar em frente ao Mercado, talvez até entrar, ficar por lá um pouco. O que ele sabia sobre o lugar e muitos ao menos ideia fazia, é que não se tem controle do tempo quando se está por lá! Com todos aqueles cheiros, ruídos, pecados existentes os sentidos se alteram e ao passar por qualquer daqueles portões, você está condenado ao atraso. Inevitavelmente, sua atenção é atraída e sequestrada pelo design das cores nas coisas e você passa a ouvir os gostos dos cheiros destas coisas, por todos os lados que olhe. Basta ver as vitrines das lojas, tem tudo lá! De damasco da Síria, a temperos da Índia, tem bacalhau dos mares de Portugal e até máscaras de tribos da África. Todo o mundo está aprisionado por lá. Vê só o tamanho do problema de quem vai? Mas naquele dia ele estava angustiado! Quinta-feira meio nublada pra ele. Chegou ao Mercado ali pelas cinco da tarde, tinha um compromisso marcado para as sete da noite. Enquanto caminhava pelos corredores, tomado por toda aquela magia que envolvia-lhe os sentidos, olhando maravilhado toda aquela sinfonia de lojas, mercadorias, pessoas... Sentiu sua vida (passar) escapando rápido e bem diante de seus olhos. Num desses relances, ao olhar para baixo, viu seu reflexo circunspecto no ladrilho típico plantado no chão, característica marcante do lugar. Feito um refrão, linear e simetricamente orquestrado via as peças de cerâmica diferenciar a cada passo dado, mesmo que para qualquer outro elas parecessem exatamente iguais. Naquele dia ele não estava em busca de nada em específico. E mesmo que nada procurasse, foi atraído por um chapéu de palha em miniatura, desses com as pontas sem trançar (desfiados), igualzinho aos de tamanho natural; estava lá jogado em um balaio, exposto sobre uma caixa de madeira no corredor. Ele até já tinha visto outras vezes desse objeto, mas dessa vez era diferente... Estava envolto por uma aura de circunstâncias, e se tornou o objeto mais evidente de todo o Mercado naquele dia. Havia tanta poesia em fluxo, que sua forma e simbologia, faziam lembrar Minas Gerais. Tomado por um impulso de morte, incontrolável, sacou do bolso sua carteira e pediu a moça que embalasse logo umas dez unidades. Chegando a sua casa, ainda conseguia ver a beleza e poesia de antes. Mas parecia que algo estava diferente, a aura, havia desaparecido! Foi nesse exato momento, que ele descobriu que o brilho que comove as pessoas não está nas coisas postas nas vitrines ou dependuradas arrogantemente à frente de nossos olhos, e sim na singularidade do lugar e no sorriso que brilha dos olhos de quem trabalha lá. Por isso, é tudo tão irresistível! Por isso, as cores e cheiros e sons e gostos e tudo o mais são tão mais evidentes.

Fígado com jiló, cebola e mágoas superadas Ando tão cansado de tanta coisa sentindo saudades de tanta gente
Continuar lendo

Fígado com jiló, cebola e mágoas superadas Ando tão cansado de tanta coisa sentindo saudades de tanta gente de tantos lugares que gosto, que é como se eu estivesse preso em algum espaço/tempo do meu passado. Já não consigo achar graça no presente. Toda essa gente ao meu redor... Novos amigos, colegas de trabalho e até salafrários, a corroborar com essa minha nova inquietação. Já pensei em me mudar para o centro ou qualquer outro lugar onde não haja tanto engenho de maus pensamentos ou pensamentos engenhosos na mente a engendrar. Pensei em me desfazer de tudo isso, morrer, me casar... Dizem que morte e casamento se confundem em algum momento, não sei precisar. Perdido! É como estou me sentindo agora. Sem saber pra onde ir e sem querer ficar. Pra complicar um pouco mais... Esse nariz entupido, me atrapalhando respirar e essa febre que não passa, fazendo meu corpo todo arrepiar. Já não consigo dormir sem remédios e as minhas noites se tornaram um grande tédio sem o brilho da cidade como plano de fundo, as manhãs custam a chegar. Fundo... Bem no fundo, é onde estou agora. Sinto saudades da felicidade (Mercado Central), bons tempos aqueles! Todo aquele caos, organizado no mesmo lugar e aquele clima de feliz cidade, no agir das gentes. Todos aqueles cheiros e ruídos confusos, confundindo-se no ar confundindo os sentidos da gente e aguçando nosso paladar. E o brilho intenso nos olhos das pessoas? Perdidas nos labirintos mágicos do lugar. E os balcões de bar, sempre tão vivos! Tornaram-se (Point) pontos de se fazer novos melhores amigos por um dia inteiro sem exagero, quem já foi lá sabe que não é mentira! O dia pode estar ruim, mas basta ir, abrir uma cerveja e se entrosar com a moçada... Não há tristeza que permaneça benta no peito ou angústia que seja alimentada. Tudo vira festa, promessa futura de um novo encontro para mais uma cervejada em português, inglês, francês, italiano, espanhol ou na língua da embolada típica dos fins de tarde, após tomar-se umas e outras. ‪#‎MercadoCentral‬ ‪#‎Felizaniversário‬ ‪#‎Muitashistóriasaseremcontadas‬ ‪#‎faculdadedavida‬

Nas curvas da noite Na geografia de teu corpo, aprofundo-me! Feito cientista, estudo tua anatomia.
Continuar lendo

Nas curvas da noite Na geografia de teu corpo, aprofundo-me! Feito cientista, estudo tua anatomia. Sinto-me um calouro com um mapa às mãos. Descubro curvas - por onde ando - segredos impressos, versos poéticos poemas inteiros. Quanto mais arrisco-me tanto mais confundo-me! Desbravo a ti, feito um bandeirante desbrava a terra nova. Monto campana em teus olhos - que de tão brilhantes - reflete todo o meu pecado. Embriago-me em teus lábios padeço em teu riso, sorriso doce feito a lua de dezembro. E tu, andas por ai... A esquivar-se de mim, a negar-se um estudo mais aprofundado. Trabalho científico, coisa séria, com os riscos e tudo o mais. Nas planícies de teu território, tens domínio pleno sobre mim. Permitas uma observação in loco, és um meu estudo de caso. Conforma-se em meu corpo! Embarco na tua viagem navego por tua ternura e aporto em tua ilha. Já não podes fugir, estou em todos os teus sonhos. Delírio: Deliro por ti, deliras tu também, por mim. Adeus às armas! Mastro firme fincado à terra bandeira içada aos quatro ventos corpo cansado da intensa batalha suor banhando a testa. A guerra chega ao fim, a noite padece Nasce o sol, surge o dia.

Por deus, o que vocês estão fazendo? Lá por dentro, resolvi mudar! Assim como muda de tempos em tempos o curso dos rios
Continuar lendo

Por deus, o que vocês estão fazendo? Lá por dentro, resolvi mudar! Assim como muda de tempos em tempos o curso dos rios sequei por fora e agora não corro mais tão vigoroso para o mar. Sigo a espera das águas de março dos moinhos de vento dos temporais fora de época do milagre, que já não consigo mais ser. Agora, apenas escorro pouco a pouco sem pressa por entre as frestas das diversas pedras no caminho. Em inconformidade com o mundo escorro dos olhos da menina - ainda adolescente - procurando um sentido só seu e sem a interferência do caos externo ao redor. Aqui por dentro sigo inundado, tantos tsunamis (maremotos)... Vagueio pelos subsolos da vida sem me assustar. Aqui por dentro não falta nada, tudo está em excesso e até a felicidade quando resolve aparecer, transborda. Só que agora, as lágrimas que caem dos olhos não são mais de felicidade, de tristeza ou algo assim... A vida endurece uma pessoa! Os olhos antes tão doces e inocentes trincaram. A dor rachou o peito e fugiu de lá de dentro. As palavras desencantaram dos lábios murcharam feito palavrões e caíram da boca feito dinamite. O frio não incomoda mais o corpo, já tão surrado e a pele está endurecida feito couro de búfalo. A vida humana agora não tem qualquer valor. As guerras varrem territórios inteiros transformam sujeitos em refugiados, extinguem os seus direitos afogam as crianças no mar. Os valores humanos perderam seu sentido os poemas passaram a ser escritos com fuzis granadas de mão e metralhadoras ponto cinquenta. As armas usadas agora são a crueldade o fundamentalismo (religioso) e a covardia desenfreada. Por deus, as crianças são anjos! Anjos. O que vocês estão pensando?