FALÁCIAS DE AÇAFRÃO
A poesia caminha avança sobre o calvário desfeita em nó
Maldito este círculo tão apertado perfumado de mortos
Oh morte que estiveste só por horas, dias, meses e anos
Cama de pés gelados, braços esticados com mil demónios
Falácias brotam no sangue, coração de renúncia e inquietação
Asas decepadas num sonho para impedir o voo no falatório
Excesso de vozes repetidas na alma, na mente, no corpo doente
Vagam pelo espaço desfeito no tempo sugam o mel do feitiço
Sonhos de fogo coberto de sangue, afrontando os nossos anjos
Na calada da noite, no próprio abandono, sente-se as garras de dor
O rufar dos tambores clamor de uma poesia feita de esquecimento
Oh ânsia que despertas o açafrão acorrentado, geleia do nosso ouro.
HÁ DIAS E DIAS
Há dias que a morte é lenta como os mantos de lã
Há dias cinzentos que a fome engole o sossego
Há dias que o rosário é negro e dilacera o peito
Há dias que a prece é a revolta aguçada dum estalo
Há dias que são alinhavados por linhas escuras
Há dias que os punhais massacram as veias de sangue
Há dias que só Deus sabe os passos que dei, os erros que fiz
Há dias que a noite afugenta as sombras com o som do sino
Há dias que o poema está escondido, vestido de púrpura
Há dias que a mentira cede e é tocada com um dedo no espelho
Há dias que o nosso silêncio é simplesmente um dia de festa
Há dias que o teu riso, o teu beijo é o melhor do mundo
Há dias que o cheiro a canela, alecrim, alho, gengibre, é amor
Há dias que o delírio é penitente, nas ondas que cantam embriagadas.
DEUS MEU
Que angústia está meu Deus
Que me tolda o pensamento
Que vil aperto que me afoga
A mente nas lágrimas que verto
Rude dia, tormento este o meu
Das tristes lágrimas que não verto
Não sei que dor agreste é esta
E que demónios eu combato
Despenho o vazio que possuo
Encerro a dor reverto em alegria
Ah meu Deus eu só lamento.
AMO-TE NOS SABORES
Amo-te .....
No risoto de farinheira
Ou nos peixinhos da horta
Olhando para os teus lábios
Anseio o seu salgado sabor
Amo-te....
No perú com frutos secos
Ou lombo de porco assado
Assim descubro o gosto do teu amor
Sem limites dos teus braços
Amo-te.....
No arroz de pato
Ou no camarão frito com molho de côco
Quero os teus lábios junto aos meus
Para sentir o doce sabor dos teus
Amo-te.....
Nas farófias com banana
Ou na tarte de creme de amêndoa
Quero a suavidade do teu corpo
Na intensidade do meu, teu desejo
Amo-te.......
Nas pescadinhas douradas e amejõas
Quero os teus lábios na entrega das noites de velúpia
Amo-te.......
No pão de ló de Ovar ou pudim de pão com maçã
Quero os teus lábios com gotas de amor
De muito sabor sedutor
Amo-te.......
No cabrito assado com cebolinho e alecrim
O sabor dos teus lábios deixa a saliva
Doce de alegrias maduras
Amo-te.......
No bolo de canela e erva doce
Ou no molotof de limão
Quero sentir o teu toque no meu corpo
Da tua maneira louca
Amo-te.........
No risoto com queijo brie cogumelos e legumes
Quero viajar nos teus lábios sentir o teu doce sabor
Amo-te........
Na torta de Laranja ou no bolo de fécula de batata
Quero provar do teu abraço e fazer-te o meu esplendor
Amo-te..........
Na açorda de marisco ou nos choquinhos à algarvia
O teu corpo incendeia o meu ser, arde no sabor dos teus lábios.
Amo-te e depois.......gosto de ti mais nada.
VELHA MORTALHA
Mar velho feito em mortalha
Que na fria carne rasgada
Embalsamas todas as dores
Entre os murmúrios tristes
Voz escura na calada garganta
Nas tramas obscuras da queda
Ondas serenas de maremotos
Nos carinhos remotos em fúria
Lágrimas tuas em gritos roucos
Tormentas tolas numa ambrósia
Vagos espaços nas lentes perdidas
Os arcanjos cantam proclamam amor
Pobres vidas perdidas nos enigmas
Velha mortalha feita no profundo mar
Entre os portões de ferro nos sonhos
Transladam o delírio no fim risonho
Velho mar que embalsamas a mortalha
Dos erros das tristezas em murmúrios
Voz calada nas tramas obscuras da vida.
PODRIDÃO IMPOSTA
Chovia com força vidros
Vermelhos de sangue
Partiam todos os cristais
Soltos da velha janela
Tentava caminhar
Sem ser cortado no vermelho
Sangue de tinta
Entre as escritas letras pretas
Prosa sem medo
Sem o dever de suportar a dor
O cervo tremia do caçador
Predador ansioso da mente
Caçador de sonhos,
Perdido na vastidão das almas
De mãos sujas de barro
Lenços de asas que fazem voar
No novo cinismo rompendo o ócio
Na partida já pronta
Desmorona no queixo caído
Na barba desfeita do despeito
Entre o seio da incredulidade
Desespero da fome à noite
Lágrimas soltas de sangue
No sacrifício dos versos obscuros
Sangue no chão, onde o mal
Germina envenena e contamina
Infiltraram-se assim escravizando
As palavras, as letras
No vento gelado de intenções maldosas
Choviam punhais
Que nos feriam rasgando a carne
De poemas já livres
Da maldade, da podridão
Que era imposta nos nossos dias.
PEDAÇOS
Flores laços de cetim
Queimadas em cinzas
Afogo-me nas palavras
Enterro-me no trabalho
Nas telhas dos sonhos
Já não almejo o perdão
Sou repleta de erros
Mato todas as lágrimas
Nas letras que me sugam
A vida da minha mente
No meu obscuro corpo
Já sem sons da saudade
Ao ver a tua bela nudez
A minha alma se deleita
Na nossa louca insensatez
O vazio gritou palavras
No silêncio sem sentido
Gemidos de mim, de nós
Afogo-me no teu corpo
Enterro-me nos teus braços
Sou repleta de imperfeições
Amo as flores de cetim
Já não almejo o perdão
Mato todas as lágrimas
Nas palavras feitas de amor.
FOME TENHO
Tenho fome
- Fome -
De tudo.....de todos
Do que és.....do que foste
Do que tu pensas
Dos que ficam
Dos que partem
Das coisas boas
Do silêncio.....do barulho
Do fogo....da água
De mim.....de ti
De te ter comigo
Do presente.....do futuro
Do deserto.....da serra
Do campo.....dos lobos
Do amor.....da paixão
Da paz .....de viajar
Fome de viver, de amar.