A partir dos doze, comecei a sonhar outras coisas: sonhos. Mas eram pequenos desmaios. E já estão tão distantes de mim que não são mais meus. Gostaria mesmo era de pisar um carpete peludo, todo azul e rolar por vinte anos." (Estranhos na noite, romance, 1988)
Frases de Hilda Gomes Dutra Magalhães
83 frases
Cada século apresenta no máximo dois ou três grandes originais. O resto não é plágio, mas redundâncias de um gênio". (Estranhos na noite, romance, 1988)
O corredor que me leva do portão até a área dos fundos da casa, onde está minha avó, nunca me pareceu tão longo. A casa, com a pintura ainda intacta, parece falar por si mesma, vencendo minha ansiedade pela sua força, pela dimensão de suas paredes, pela altura de seus telhados no…
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O corredor que me leva do portão até a área dos fundos da casa, onde está minha avó, nunca me pareceu tão longo. A casa, com a pintura ainda intacta, parece falar por si mesma, vencendo minha ansiedade pela sua força, pela dimensão de suas paredes, pela altura de seus telhados novos. Mas eu sei que, um dia, estas paredes estarão velhas e descascadas, como também se escurecerão suas telhas cor de terra. Entrarei por seus cômodos e verei que eles próprios parecerão cansados, sem elegância nenhuma. Sentirei saudades de minha avó e dos dias que se foram. Estarei velha e me sentarei, desta vez sozinha, para me lembrar de Corina e das conversas que tivemos." (Corina, 2007)
Chorei três dias e três noites. Vó Margarida enchia meus ouvidos de algodão. O quarto era infinitamente escuro e frio e eu usava carapuça de babadinhos. Mas não durei mais do que sete dias. Mãe Rosa chorou uma lágrima meio azul, comeu uma pratada de sopa de galinha, roeu bem os o…
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Chorei três dias e três noites. Vó Margarida enchia meus ouvidos de algodão. O quarto era infinitamente escuro e frio e eu usava carapuça de babadinhos. Mas não durei mais do que sete dias. Mãe Rosa chorou uma lágrima meio azul, comeu uma pratada de sopa de galinha, roeu bem os ossinhos e dormiu um dia e uma noite. Então me colocaram numa caixa de sapatos, vestidinha de anjo. Enterraram-me no fundo do quintal." (Estranhos na noite, romance, 1988)
Acaso pensam que lua e sol jamais se encontram? É só porque existir dói: é preciso ser plenamente humano ou mais que isso. Não inventaram o remédio para a morte, ainda não..." (Estranhos na noite, romance, 1988)
O filósofo especula o sentido da vida, o psicólogo compreende o funcionamento da psique humana, o historiador desvenda as razões e desrazões da História, o ator os representa na palco, mas o escritor é o único capaz de apreender a alma humana e registrá-la de forma estética no pa…
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O filósofo especula o sentido da vida, o psicólogo compreende o funcionamento da psique humana, o historiador desvenda as razões e desrazões da História, o ator os representa na palco, mas o escritor é o único capaz de apreender a alma humana e registrá-la de forma estética no papel." (Corina, 2007)
O escritor já nasce escritor, cresce escritor e não morre nunca". (Estranhos na noite, romance, 1988)
Gritos de palavras desmoronando. Retomo a caneta, o livro. Terei cochilado novamente?! As palavras ainda despencam abismo abaixo. A frase fica sofrivelmente incompleta, o que poderia fazer para restaurá-la? Sinto uma pequena pontada no cérebro, nos rins ou no coração. Quantas pí…
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Gritos de palavras desmoronando. Retomo a caneta, o livro. Terei cochilado novamente?! As palavras ainda despencam abismo abaixo. A frase fica sofrivelmente incompleta, o que poderia fazer para restaurá-la? Sinto uma pequena pontada no cérebro, nos rins ou no coração. Quantas pílulas já terei tomado? As palavras continuam a cair no vácuo, a caneta impotente. O escritor é um árduo caçador de palavras e ideias. São caças ariscas e perigosas, ma o escritor sabe que não pode fugir a elas. É um perigo quase suicida ser escritor! Às vezes, as caças fogem pelos saltimbancos e são encontradas na Austrália ou no Pólo Norte a duzentos pesos o quilo. Ou não são encontradas nunca, vão para a Atlântida." (Estranhos na noite, romance, 1988)
Para o mundo, não acabamos quando morremos, mas quando morre o último dos seres humanos que fizeram parte de nossa vida, levando com eles as derradeiras ressonâncias de nossa existência. Minha tetravó índia, o seu mundo, as pessoas com quem conviveu, os conflitos, os erros e os a…
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Para o mundo, não acabamos quando morremos, mas quando morre o último dos seres humanos que fizeram parte de nossa vida, levando com eles as derradeiras ressonâncias de nossa existência. Minha tetravó índia, o seu mundo, as pessoas com quem conviveu, os conflitos, os erros e os acertos, tudo: palavras, nomes, grandes atos, mesquinharias, dúvidas, certezas, gargalhadas, o que era importante e o que não era: tudo foi engolido pelo tempo. Resta-nos um enorme espaço amarelado, onde o passado se confunde com a eternidade e o Nada, e de onde surgem, como que por encanto, nossos bisavós, seres meio míticos, meio inteligíveis, representantes de um tempo que não vivemos". (Corina, 2007)
Método de escrever: falo de mim mesmo até quando falo dos outros. Quando fico cansado, páro. Não releio o que escrevo. Para não ter vômitos. Por não ter tempo. (...) Engulo as vírgulas como se fossem purê de batatas. A tais alturas, pouco interessa escrever bem, interessa escreve…
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Método de escrever: falo de mim mesmo até quando falo dos outros. Quando fico cansado, páro. Não releio o que escrevo. Para não ter vômitos. Por não ter tempo. (...) Engulo as vírgulas como se fossem purê de batatas. A tais alturas, pouco interessa escrever bem, interessa escrever. Depois, é muito difícil saber o que é escrever bem". (Estranhos na noite, romance, 1988)
Como calcular a real importância do escritor? Valeria mais que um padeiro? Que um médico? RECEITAS DE MÃE ROSA. Não, não. O escritor e o idiota são uma coisa só. O mesmo espanto, a mesma confusão de significados." (Estranhos na noite, romance, 1988)
Procuro o bistrot, mas nem ele é bar e nem é cuiabano, e depois a poeira do Egito me agride, exigindo que eu aperte muito os olhos para bem olhar. Cairo exibe suas formas sem graça, austeras, feias, a cidade plena de fantasmagorias que as luzes nas cumeeiras dos prédios sem vida…
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Procuro o bistrot, mas nem ele é bar e nem é cuiabano, e depois a poeira do Egito me agride, exigindo que eu aperte muito os olhos para bem olhar. Cairo exibe suas formas sem graça, austeras, feias, a cidade plena de fantasmagorias que as luzes nas cumeeiras dos prédios sem vida não conseguem dissimular. O mar de novo me espera, nessa enorme noite das horas sem canto, das horas sem dobras, das horas em aro, no mediterrêneo de todos os pesadelos, de todos os pecados e de todos os sonhos, meu barco bem que é azul e branco da cor dese meu céu." (O último verão em Paris, crônicas, 2000)
Gira o mundo e o mundo gira, e se nauseada estou, se o buffet está preparado, se a festa já começou, de que adianta se a torre agora faz farol bem no meio de Paris, se no Mediterrâneo é meia-noite, se o dia é cinza, se as vagas são fortes e a noite, longa? Abro uma champagne e, n…
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Gira o mundo e o mundo gira, e se nauseada estou, se o buffet está preparado, se a festa já começou, de que adianta se a torre agora faz farol bem no meio de Paris, se no Mediterrâneo é meia-noite, se o dia é cinza, se as vagas são fortes e a noite, longa? Abro uma champagne e, nessa noite de turbulência e festa, do mesmo escuro são noite e mar. No meio do ocenao, de magia é esse balanço que estremece o líguido gelado e efervescente no fundo da taça, de céu e inferno feita a noite de esquecimento, esse décor mediterrâneo no centro de todos os mundos, de infinitas profundezas, texturas e escuridões." (O último verão em Paris, crônicas, 2000)
Nessa longa noite do esquecimento dickeana, esse sol que me alumia é fora de hora, e é lento e é morno, mas, de qualquer modo, bem que esquenta, se eu quero." (O último verão em Paris, crônicas, 2000)
O que pode me dizer essa profundeza de líquido e de nuances que se apagam na fluidez do olhar? Tento mais uma vez recuperar, em vão, a resposta no ecran cristalino, mas perdido para sempre está o texto, sugado que foi pelo buraco negro. Tento redescobrir os vestígios do texto que…
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O que pode me dizer essa profundeza de líquido e de nuances que se apagam na fluidez do olhar? Tento mais uma vez recuperar, em vão, a resposta no ecran cristalino, mas perdido para sempre está o texto, sugado que foi pelo buraco negro. Tento redescobrir os vestígios do texto que se perdeu, mas, ante a mudez do computador, eis-me jogada na Idade Média, sem cartilha e nem estilo, a correspondência em atraso, ai, ai, ai... preciso reaprender os rumos que o lápis tem: "Paris, 30 de março de 2000"...(O último verão em Paris, crônicas, 2000)
Nessa longa noite do esquecimento dickeana, esse sol que me alumia é fora de hora, e é lento e é morno, mas, de qualquer modo, bem que esquenta, se eu quero. Procuro o bistrot, mas nem ele é bar e nem é cuiabano, e depois a poeira do Egito me agride, exigindo que eu aperte muito…
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Nessa longa noite do esquecimento dickeana, esse sol que me alumia é fora de hora, e é lento e é morno, mas, de qualquer modo, bem que esquenta, se eu quero. Procuro o bistrot, mas nem ele é bar e nem é cuiabano, e depois a poeira do Egito me agride, exigindo que eu aperte muito os olhos para bem olhar. Cairo exibe suas formas sem graça, austeras, feias, a cidade plena de fantasmagorias que as luzes nas cumeeiras dos prédios sem vida não conseguem dissimular. O mar de novo me espera, nessa enorme noite das horas sem canto, das horas sem dobras, das horas em aro, no mediterrêneo de todos os pesadelos, de todos os pecados e de todos os sonhos, meu barco bem que é azul e branco da cor dese meu céu." (O último verão em Paris, crônicas, 2000)
O mesmo escuro engolindo o barquinho de papel, luminosidade de sonho resistindo ao tempo e à história, erramos todos nesses iguais mares gregos, mergulhados nas águas de todos os deuses, de todas as vertigens, de todas as profundezas, de todos os azuis e luminosidades, levando de…
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O mesmo escuro engolindo o barquinho de papel, luminosidade de sonho resistindo ao tempo e à história, erramos todos nesses iguais mares gregos, mergulhados nas águas de todos os deuses, de todas as vertigens, de todas as profundezas, de todos os azuis e luminosidades, levando dentro de nós todas as vagas, todos os mares, todas as tempestades e todas as armadilhas, todos os cantos e desencantos, mas que posso fazer se não temos nem as amarras de Ulisses, menos ainda sua astúcia, se contraio nessa maresia de milênios todas as quedas e todos os limites do susto e do riso?" (O último verão em Paris, crônicas, 2000)
Essas ondas que batem no casco, com seu riso encantatório, anulam, machucando os ouvidos, as franjas do tempo e dos dias". (O último verão em Paris, crônicas, 2000)
Entre uma cena e outra, o abismo do tempo que passa e a necessidade de reconstrução de um projeto sem nome. A ausência do texto de novo me incomoda, procuro o texto que passa, a profundeza da estrutura reclamando a sua presença, cadê o texto que estava aqui? O escuro escondeu, ai…
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Entre uma cena e outra, o abismo do tempo que passa e a necessidade de reconstrução de um projeto sem nome. A ausência do texto de novo me incomoda, procuro o texto que passa, a profundeza da estrutura reclamando a sua presença, cadê o texto que estava aqui? O escuro escondeu, ai, ai, ai..."(O último verão em Paris, crônicas, 2000)
Refeito o texto, o texto refeito, nunca o mesmo, jamais o mesmo, lembrança remota daquele que o escuro engoliu, que a Idade Média abafou, que o ecran apagou, um grande vácuo que a presença da lembrança exige preencher. Como reconstruir a emoção que se perdeu, se, depois de esvazi…
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Refeito o texto, o texto refeito, nunca o mesmo, jamais o mesmo, lembrança remota daquele que o escuro engoliu, que a Idade Média abafou, que o ecran apagou, um grande vácuo que a presença da lembrança exige preencher. Como reconstruir a emoção que se perdeu, se, depois de esvaziada e diluida na imensa tela azul, nada mais resta do que susto, fragmento e vácuo? Se a única coisa que realmente vale a pena é esse passo pleno que vejo, tingido de todas as cores, de todas as raças, de todas as pessoas, cruzando as ruas de Montparnasse?" (O último verão em Paris, 2000)
Vai, Atlântico, nos devolva o canto e leve essa nau, dessa vez para o rumo certo, pois, ai, ai, ai, quem tem um machado afiado, madeira de lei, precisa de quê?, quem tem um manoel dado a barros, precisa de quê?, quem tem pernas dadas à dança, pés com vocação para bola, precisa de…
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Vai, Atlântico, nos devolva o canto e leve essa nau, dessa vez para o rumo certo, pois, ai, ai, ai, quem tem um machado afiado, madeira de lei, precisa de quê?, quem tem um manoel dado a barros, precisa de quê?, quem tem pernas dadas à dança, pés com vocação para bola, precisa de quê?"
Os quatro globos estão enfim colocados no lugar. Firmes como de resto todos os outros quadros da exposição, firmes como pode ser o grito assustador de paredes, mas sabemos, cada um de nós, que eles tremem, imperceptivelmente tremem, e, no dia seguinte, alguma coisa fatalmente est…
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Os quatro globos estão enfim colocados no lugar. Firmes como de resto todos os outros quadros da exposição, firmes como pode ser o grito assustador de paredes, mas sabemos, cada um de nós, que eles tremem, imperceptivelmente tremem, e, no dia seguinte, alguma coisa fatalmente estará fora de lugar". (O último verão em Paris, crônicas, 2000)
O mar de novo me espera, nessa enorme noite das horas sem canto, das horas sem dobras, das horas em aro, no mediterrêneo de todos os pesadelos, de todos os pecados e de todos os sonhos, meu barco bem que é azul e branco da cor dese meu céu." (O último verão em Paris, crônicas, 20…
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O mar de novo me espera, nessa enorme noite das horas sem canto, das horas sem dobras, das horas em aro, no mediterrêneo de todos os pesadelos, de todos os pecados e de todos os sonhos, meu barco bem que é azul e branco da cor dese meu céu." (O último verão em Paris, crônicas, 2000)
Nada mais contraditório do que ler Camus num domingo assim tão pleno." (O último verão em Paris, crônicas, 2000)