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Frases de Hilda Gomes Dutra Magalhães

83 frases

Cada um de nós somos fotos invisíveis de outros tempos, de outras vidas, de outras culturas, que se vão desenhando no nosso presente, atualizando jeitos, faces e vozes." (Corina, 2007)
Meu pai... Ah, meu pai. Meu pai era assim: um homem deitado numa pilha de travesseiros. Lembro-me ainda de que ele era uma imensa pessoa, vermelha e inchada, espirrando sangue e chamando pela neném. Jeruza tinha dez meses e então traziam-na para o quarto. Mal via papai, a menina…
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Meu pai... Ah, meu pai. Meu pai era assim: um homem deitado numa pilha de travesseiros. Lembro-me ainda de que ele era uma imensa pessoa, vermelha e inchada, espirrando sangue e chamando pela neném. Jeruza tinha dez meses e então traziam-na para o quarto. Mal via papai, a menina abria a boca no mundo e os dois enchiam o quarto de choro e sangue até quase se afogarem. Era um rio de borbulhas quentes e fétidas. uma vez, fui surpreendido pelas suas águas e só não me afoguei porque alguém me puxou pelos cabelos e soprou-me os lábios. Duvida? Não tem problema, livro aceita tudo. E que importância tem se, quase trinta anos depois, resolvo passar um rio de águas e borbulhas vermelhas bem no quarto de papai?! O tempo faz-nos perder coisas, mas dá-nos obter outras". (Estranhos na noite, romance, 1988)

E a brisa que nos afaga o rosto e os cabelos é a mão do futuro, com jeito de presente, empurrando-nos gentilmente para o vazio do tempo, pelo qual, um dia, seremos engolidos, nós e todos os que nos conhecem, dando passagem a um novo mundo que, surgido de nós, será, um dia, também…
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E a brisa que nos afaga o rosto e os cabelos é a mão do futuro, com jeito de presente, empurrando-nos gentilmente para o vazio do tempo, pelo qual, um dia, seremos engolidos, nós e todos os que nos conhecem, dando passagem a um novo mundo que, surgido de nós, será, um dia, também engolido. É a lei da reescrita, na dança do tempo, no véu do vento, no tecido da vida."

O escritor já nasce escritor, cresce escritor e não morre nunca. É uma entidade escorrente. Às vezes, dá a impressão de ser uma folha, um balde, uma borboleta. Mas ele nunca se confunde com as outridades: é o escritor! Não pergunta muito, ele sabe até onde perguntar, porque suas…
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O escritor já nasce escritor, cresce escritor e não morre nunca. É uma entidade escorrente. Às vezes, dá a impressão de ser uma folha, um balde, uma borboleta. Mas ele nunca se confunde com as outridades: é o escritor! Não pergunta muito, ele sabe até onde perguntar, porque suas perguntas não se reduzem a perguntas. Não responde tudo, o que não significa que ele minimiza as pessoas. É que ele entende a eficácia que é o silêncio." (Estranhos na noite, romance, 1988)

A festa vai começar nas horas redondas do tempo. Confraternização dos aprendizes. E as pessoas se abraçam, Luíza, Ulisses, Beatriz, Iracema, Moacir, Capitu, Lóri, dianas, apolos, júpiteres, primeira vez se vendo, chineses renascidos em vitória. Na noite estranha, surreal quanto a…
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A festa vai começar nas horas redondas do tempo. Confraternização dos aprendizes. E as pessoas se abraçam, Luíza, Ulisses, Beatriz, Iracema, Moacir, Capitu, Lóri, dianas, apolos, júpiteres, primeira vez se vendo, chineses renascidos em vitória. Na noite estranha, surreal quanto a própria terra, a harmonia dos plurais. Festejar é o destino de todos. O canto e a felicidade são nosso fim." (Herança, romance, 2002

Abro os olhos, o coração aos pulos. A vela quase toda queimada dentro do pires. A caneta presa à mão, com desespero. O caderno caído. As palavras... As palavras haviam escorregado, escorregado, até caírem da margem direita, irremediavelmente perdidas. Estendo as mãos, consigo peg…
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Abro os olhos, o coração aos pulos. A vela quase toda queimada dentro do pires. A caneta presa à mão, com desespero. O caderno caído. As palavras... As palavras haviam escorregado, escorregado, até caírem da margem direita, irremediavelmente perdidas. Estendo as mãos, consigo pegar algumas que ainda não haviam despencado no abismo. Sinto sede. Preciso engolir as palavras." (Estranhos na noite, romance, 1988)

Descobri na segunda página que escrevendo o livro sou um semideus. Aliso as pessoas, abraço-as, sou-lhes um beijo furtivo ou espezinho-as vagamente, esmago-as quando quero. É o meio mais palpável de amá-las, odiá-las, matá-las sem que eu sofra qualquer prejuízo por isso. Todas es…
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Descobri na segunda página que escrevendo o livro sou um semideus. Aliso as pessoas, abraço-as, sou-lhes um beijo furtivo ou espezinho-as vagamente, esmago-as quando quero. É o meio mais palpável de amá-las, odiá-las, matá-las sem que eu sofra qualquer prejuízo por isso. Todas essas catástrofes juntas e o mundo nada sente, continua igual, esta é a minha mágica e meu desespero." (Estranhos na noite, romance, 1988)

Ouço os passos de mãe Rosa, incessantes, invadindo a noite desdentada. Passos de mãe Rosa. Ainda quando morrer, ficarão os seus passos. Mãe Rosa na sua labuta alegre durante os dias intermináveis, os passos noturnos de rumos imprevisíveis e inacabáveis... Não saberia quantas vida…
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Ouço os passos de mãe Rosa, incessantes, invadindo a noite desdentada. Passos de mãe Rosa. Ainda quando morrer, ficarão os seus passos. Mãe Rosa na sua labuta alegre durante os dias intermináveis, os passos noturnos de rumos imprevisíveis e inacabáveis... Não saberia quantas vidas ou quantos desesperos ocultam esses passos."

Ser escritor deve ser algo mais que um simples espirrar de palavras. Aliás, tenho algo de escritor: terríveis olheiras, minhas olheiras estão pavorosas. Um jeito esquisito, jeito de anjo ou desesperado. Tenho alguma coisa que é quase ódio, quase orgulho de mim mesmo." (Estranhos…
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Ser escritor deve ser algo mais que um simples espirrar de palavras. Aliás, tenho algo de escritor: terríveis olheiras, minhas olheiras estão pavorosas. Um jeito esquisito, jeito de anjo ou desesperado. Tenho alguma coisa que é quase ódio, quase orgulho de mim mesmo." (Estranhos na noite, romance, 1988)

Ali, absorvida no viverbrincar, as meninas fazem parte de um outro universo, quase posso senti-lo. A impressão que tenho é que, se estender a mão, toco na finíssima bolha que forma esse mundo só delas. Olho-as novamente e, no meio da tarde, aquelas meninas como que parecem mágica…
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Ali, absorvida no viverbrincar, as meninas fazem parte de um outro universo, quase posso senti-lo. A impressão que tenho é que, se estender a mão, toco na finíssima bolha que forma esse mundo só delas. Olho-as novamente e, no meio da tarde, aquelas meninas como que parecem mágicas, ancestrais. São todas alices em seu país de maravilhas. Ali, brincando, o tempo não existe para elas." (Corina, 2007)

Só pode compreender o escritor quem conhece a linguagem da brisa, a textura dos senões e a (im)permeabilidade das palavras. Por isso o escritor ouve muito mais do que fala. E, ao ouvir, e sobretudo ao olhar, ele capta a alma, a essência das pessoas. Percebe o que talvez nem elas…
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Só pode compreender o escritor quem conhece a linguagem da brisa, a textura dos senões e a (im)permeabilidade das palavras. Por isso o escritor ouve muito mais do que fala. E, ao ouvir, e sobretudo ao olhar, ele capta a alma, a essência das pessoas. Percebe o que talvez nem elas próprias saibam: descobre, quantas vezes mesmo sem querer, suas máscaras: entrevê suas hipocrisias, sente seus segredos, perscruta suas misérias." (Corina, 2007)

Sou e não sou escritor. Escritor é todo aquele que já fez uma frase de pura literatura ou imaginou tê-la feito. Entre estes e os consagrados, pouca ou nenhuma diferença existe. Cada frase é o mesmo desafio para todos, e cada livro é um grito suicida do qual nunca se sabe se se sa…
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Sou e não sou escritor. Escritor é todo aquele que já fez uma frase de pura literatura ou imaginou tê-la feito. Entre estes e os consagrados, pouca ou nenhuma diferença existe. Cada frase é o mesmo desafio para todos, e cada livro é um grito suicida do qual nunca se sabe se se salva" (Estranhos na noite, romance, 1988)

Volto de uma longa viagem pelas ondas da memória, pelas vagas do tempo. Uma longa viagem, através da qual conheci um pouco mais de mim e dos que me rodeiam. Vi ruínas, aprendi rastros, pontos e estrelas. Jamais viajei sozinha: sempre encontrei heróis e heroínas, aparentemente mum…
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Volto de uma longa viagem pelas ondas da memória, pelas vagas do tempo. Uma longa viagem, através da qual conheci um pouco mais de mim e dos que me rodeiam. Vi ruínas, aprendi rastros, pontos e estrelas. Jamais viajei sozinha: sempre encontrei heróis e heroínas, aparentemente mumificados, protegidos por ventos de areia. Meu livro é meu souvenir e quero que Corina seja a primeira a lê-lo." (Corina, 2007)

O crítico é um investigador, um Sherlocky Holmes. Bem que gostaria que ele descobrisse quem era o defunto do Seminário, o que eu apalpei no corpo do Cristo. Mas ele é um tonto. A culpa não é dele, é daquela luneta que ele usa, como se fosse astrônomo, como se caçasse estrelas. O…
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O crítico é um investigador, um Sherlocky Holmes. Bem que gostaria que ele descobrisse quem era o defunto do Seminário, o que eu apalpei no corpo do Cristo. Mas ele é um tonto. A culpa não é dele, é daquela luneta que ele usa, como se fosse astrônomo, como se caçasse estrelas. O que eu conheci era de artes plásticas. E tinha a sensibilidade de um hipopótomo! Mas eu queria um crítico assim: que pusesse Tomé na cadeia por causa de Faropa, que torpedeasse o navio de Padre Souza, lógico que ele vai para Roma num cruzeiro! E que fizesse tudo aquilo que eu não fiz. Por exemplo: não deixar mãe Rosa envelhecer." (Estranhos na noite, romance, 1988)

A poesia nada salva. Nem mesmo ao pobre poeta. Nem a si própria. (...) O que salva o mundo é a bomba, é o dinheiro! A bomba e o dinheiro matam ou salvam o mundo. A Poesia não tem a força do átomo. Não mata. Não pode salvar também! Nem como catarse serve, nem como realização pesso…
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A poesia nada salva. Nem mesmo ao pobre poeta. Nem a si própria. (...) O que salva o mundo é a bomba, é o dinheiro! A bomba e o dinheiro matam ou salvam o mundo. A Poesia não tem a força do átomo. Não mata. Não pode salvar também! Nem como catarse serve, nem como realização pessoal. Cada frase é o rascunho da próxima, cada livro é o rascunho de um outro, cada escritor é o rascunho de um novo escritor! E todo livro é divino e repugnante!" (Estranhos na noite, romance, 1988)