GARUPA
O que é que está esperando?
Sobe logo na minha garupa
Bora sair mundo afora...
Por que ficar protelando?
Aquilo com que se preocupa
Esquecido será na aurora
Quero apreciar a paisagem
Refletida em seus olhos castanhos
Ver o vento bagunçar seus cabelos
Quero testar sua coragem
Percorrendo caminhos estranhos
Provocar arrepio em seus pelos
Quero acender a fogueira
Cantar versos que eu mesmo compus
Ao som do velho violão
Vou te deixar bem faceira
Dançando à vontade a meia luz
Celebrando a nossa paixão
Quero deitar a relento
Contar cada estrela cadente
Imaginar outros mundos distantes
Quero viver o momento
Decidir pra onde ir, de repente
Viajantes errantes, amantes
Dispensar GPS ou mapa
Abrir trilhas em seu coração
Saciar-me direto da fonte
Da estrada do amor quem escapa?
Quantas milhas até a razão?
Não há placas que o norte aponte
Colher flores à beira da estrada
Mergulhar no primeiro riacho
Lambuzar-se com frutas do pé
Ver as cores de cada alvorada
Se me perco, em você eu me acho
E sem pressa, caminhamos a pé
Do Oiapoque ao Chuí
Do Pantanal ao Havaí
De Paris à Veneza
De Recife à Fortaleza
De Machu Picchu a Patagônia
Do sertão à Amazônia
Do Caribe às ilhas gregas
Dos Andes às Agulhas Negras
Ao final, o que importa
Não é o destino ou a jornada
Mas a companhia de quem
quer amar e ser amada
A Anatomia de um Abraço
Para quê tanto espaço
entre gente que se ama?
Vem cá, me dá um abraço
Deixe de fazer drama!
Seja ao luar no terraço
Ou ao sol deitado à grama
Não vai tirar nenhum pedaço
Vem pros meus braços
e se esparrama
Se lhe causo embaraço
Então, por que você me chama?
Tudo bem, eu me refaço
Pra manter viva esta chama
Não vale aqui queda de braço
Se desistir, você reclama
Se quer saber, também pirraço
Você conhece a minha fama...
Isso seria um erro crasso
Como atirar-se em mar de lama
Não vou vencer pelo cansaço
Prefiro amar como se ama
Nem um quadro de Picasso
Retrataria com primor
A anatomia de um abraço
A geometria de um amor
Dizem que isso está escasso
É no deserto encontrar flor
Posso provar-lhe passo a passo
Isso não passa de rumor
O que se faz com um abraço
Não tira só os pés do chão
Põe as batidas no compasso
E faz dos dois um coração
360 graus
Por entre as frestas da gaiola
Enxergo num raio de trezentos e sessenta graus
Meu canto é como festa de vitrola
Trilha sonora de amores contados em saraus
Lá fora aventuras, perigos... Frajola!
Mas cá dentro estou seguro destes elementos maus
Além de alimento garantido num cardápio de esmola
Ao menos sou poupado da fúria desse caos
De que me servem as asas
se privado sou de explorar o mundo à minha volta?
Estas grades me são travas
Não percebe que o meu canto é um pranto de revolta?
Deixaram a porta aberta...
Talvez por um descuido ou até para me testar
Agradeço pela oferta
É a chance com a qual sempre estive a sonhar
Ao abrir as minhas asas
Ensaiando meu mergulho céu afora
Sofro apenas quedas rasas
Fraturando meu orgulho de outrora
Dou-me conta de que nada adianta
dizer sim a esta oportunidade
Se o espanto que secou minha garganta
foi notar que as asas me foram cortadas
Nada mais nesta vida me acalanta
De que serve esta tal de liberdade?
Mas as asas um dia voltam a crescer
foi o que um anjo sem asas me garantiu
Fez a chama da esperança reacender
Minha alma de alegria até sorriu
Ato falho
Ei! Não adianta mais disfarçar
Finalmente descobri quem você é
Ou você acha que ainda me engana?
Que perda de tempo argumentar
Testar meus limites, minha boa fé
Sua máscara é feita de porcelana
Não me venha com um sorriso sem graça de quem acaba de ser exposto
Nem me importo com o que diga ou faça Basta olhar a expressão do seu rosto
Ato falho! Um a um, fui percebendo
os sinais que você emitia
Que trabalho foi dar zoom e acabar vendo que você não era aquilo que dizia
E eu pensando que você era apenas uma pessoa de bom coração
Cada peça num quebra-cabeça de cenas foi desfazendo a minha ilusão
Abri a porta estreita da minha vida
Pra lhe oferecer hospedagem
Sem a menor suspeita, dei-lhe guarida
por pura empatia e, camaradagem
Chega de conversa! A casa caiu!
Então, confessa! Por que me sorriu?
Quem bolou todo este arranjo
Pra esconder de mim que você não passava de...Um anjo.
Como esperar que mentes tão rasas saibam identificar um anjo sem asas?
Infância Violada
Não passava de criança
Que sonhava ser herói
O que trago na lembrança
Eu que sei o quanto dói
Era só uma menina
Que sonhava ser princesa
Mas que teve a triste sina
de ser pega indefesa
Foi tão feio, tão nojento e tão vil
Erguer meus olhos puros e infantis
Mirar na cara do meu algoz senil
Ultrajado em seus míseros ardis
Enojado de seu semblante imbecil
Laçado feito um passarinho infeliz
Lá se foi minha pureza
Antes nunca que tão cedo
Quem saiu em minha defesa?
Só restaram culpa e medo
A vergonha e a tristeza
Hoje moldam meu enredo
Não havia a quem contar
Ninguém me daria ouvido
Com quem mais posso contar
se até eu de mim duvido?
E se eu quisesse evitar
Não teria acontecido?
Haveria culpa em mim
Por tão funesta atitude?
Se houver, diga que sim
faz de conta que me ilude
Sem flores em meu jardim
Espinhos me fizeram rude
Minha sede não tem fim
Faltou água em meu açude
Quem sabe mesmo assim
Num lampejo de virtude
Antes de chegar o fim
algo acorra e tudo mude?
E se perceba até que enfim
Que eu resisti o quanto pude
Jet Lag - 26/05/2016
Esperando a torre liberar a pista
Ansioso pra poder desembarcar Turbulências noutros céus enfrentei Finalmente, estou pronto a pousar
Cada voo para mim é uma conquista Liberdade é poder os céus cruzar Reticências vida afora eu desejei
Vez por vez meus destinos celebrar
Muito acima de aonde chega o alpinista Sem lugar para fincar minha bandeira
Sou piloto, o comandante, não turista
Entre as nuvens deixo um rastro poeira
Mas no chão já não sou o mesmo artista Sofro agruras que qualquer mortal carregue
Sigo sendo um sonhador, idealista
Sempre vítima do efeito jet lag
Meu relógio segue à risca outro tempo
Não se atrasa, nem querendo se adianta
O que importa é estar sempre atento
Mesmo quando o almoço vira janta
Quem suporta viver em tantos fusos
Troca o dia pela noite, troca noite pelo dia Seus sentidos se tornaram tão confusos
O crepúsculo vira aurora, e um novo dia se inicia
Déjà vu
Que cores são estas que tingem o entardecer?
Que doce nostalgia inspira este dégradé?
Uma estranha impressão brota do íntimo Algo que alguns chamam Déjà vu
Não há como não se sentir ínfimo
Quando o universo abre seu baú
Apesar de minúsculos
Não somos apenas grãos de poeira
Para além de ossos e músculos
Somos alma e peneira
O cosmos inteiro é a mina
Da qual a consciência é o garimpeiro
Cada estrela examina
Em busca do mistério derradeiro
Mas quem nunca sentiu
Como se já não houvesse tido a lição? Quem nem ao menos previu
Qual seria a próxima sensação?
Quem sabe seria esta a mais preciosa pepita?
Perceber que na vida nada é estreia
Que embora graciosa e finita
De retornos infinitos é a nossa odisseia
Assim, cada encontro é um reencontro
E dizer “eu te conheço de algum lugar”
não é uma mera cantada
Cada conto reforça um ponto
E até desencontros nos levam ao mesmo lugar
ainda quando se altera a estrada
Não seremos outros jamais
Nossa essência permanece
Nem seremos os mesmos nunca mais Nossa existência esvanece
Não se trata de remake ou recapitulação Cada cena, cada take, celebramos a ação
Mesmo graduados pra além do tempo e do espaço
Estamos destinados a viver no grande abraço
Cada afeto vivido no mundo
Cada teto chamado de lar
Em contato com um ser que é fecundo
Para sempre o acompanhará
Trégua
Chega o momento em que
o que se quer é uma trégua
Hastear bandeira branca,
Cessar fogo, acordo de paz
Sobra o lamento de que
o que se impõe é uma régua
Exigências de quem banca
Dita o jogo, faz e desfaz
O melhor procedimento é que
se ande a segunda légua
Mesmo com a justiça manca
O pedagogo sabe o que faz
Pode até parecer covardia
Um desprezível pedido de arrego
Então, diga por que outra via
Se poderia garantir o sossego?
E se eu te disser que vitória
se conquista é na rendição?
Se eu te disser que a história
Não passa de uma versão?
A de quem venceu no grito
Que impôs suas verdades
O dito pelo não dito
Ditadura de vaidades
Quem ergueu bandeira branca
Não se rendeu por render
Sua esperança não se estanca
Jorra sob o manto do poder
Se infiltra nas engrenagens
Percorre caminhos sutis
Flui quieta pelas margens
Incólume entre os hostis
Mais forte que tanques de guerra
É o sonho teimoso de um povo
Que o ciclo de ódio encerra
Gestando em si um mundo novo
Gemidos da criação
A terra treme
Os mares rugem
Nossos tesouros viraram ferrugem
De nossa cidade restaram escombros
Nossa coragem tornou-se assombro
Os ventos são Seus mensageiros
anunciando “tudo é passageiro”
Desta mudança, o que virá?
Nossa lembrança, como apagar?
Não é o fim dos tempos
Como alguém sugere
Seus pensamentos não há quem altere
A natureza está gestante
A hora do parto virá num instante
Tragédias são as contrações
a despertarem os corações
Em sua defesa quem clamará?
e com gentileza a conduzirá?
Os seus gemidos se intensificam
nossos anseios se multiplicam
Afinal… o que será?
Nosso futuro não será abortado
Todo este mundo será restaurado
Estou seguro, Deus não volta atrás
Em um segundo, Ele pode, Ele faz
Mas Ele conta com aquele que crê
que em meio a tragédia é capaz de ver
Disposto a trabalhar
sem duvidar
que o Renovo virá
e não tardará
o Renovo virá
Não tardará
O Supremo Obstetra
o parto fará
Novo céu, nova terra
à luz trará
O Amor entre os povos
triunfará
A Justiça do Reino
se implantará
No pain, no gain
Te encontrei quando cheguei
Mas você não era minha
Assustado, estrebuchei
Sem saber logo o que vinha
Não demorou até que alguém
lhe apresentasse enfim a mim
Quer saber, nem lembro bem
se falou grego ou latim
Desde então, vira e mexe
Não importa onde esteja,
Você sempre aparece
Como taça na bandeja
Por uma noite apenas
Ou por dias a fio
Umas vezes, só acenas
Outras, pareces no cio
Vai chegando devagar
Como quem nada pretende
Cá estou a ofegar...
Quem me ouve não entende
Tudo fica tão intenso
Nem respeita minha pressa
Mesmo frágil, sempre penso
Quem tão ágil que lhe impeça?
Sempre me tira do sério
Faz-me suar e até gemer
Dos meus lábios, impropérios
Sem juízo, sem querer
Em busca de alívio
Xingo, uivo, esperneio
Não lhe quero em meu convívio
Nem mesmo que a passeio
Pra perdê-la de uma vez
Hei de perder meus sentidos
Sem a minha lucidez
Meus botões são iludidos
Fora isso, só um jeito
Livrar-me do que lhe provoca
Assim sendo, dito e feito
Ou ser comida de minhoca
Certas vezes você vem
muito bem acompanhada
mas humilde, fica aquém
sua presença é ofuscada
Tô pra ver quem lhe detém
Quem lhe ganha na jogada
Sim, já sei: No pain, no gain!
Indolor é fazer nada
Cê dedura o que há escondido
Que me devora sem alarde
Não sei nem o que teria sido
Se me contasse bem mais tarde
Sinto ter lhe desprezado
Não ter lhe dado ouvido
De quanta coisa fui poupado
Sem nem ter me apercebido
Que ingrato sei que fui,
toda vez que me atingiu
Pois sensato é quem conclui:
Coisa pior de mim fugiu
Não me julgue por ciumento
Mas detesto lhe ver com alguém
Ao ouvir o seu justo lamento
Por respeito minha voz se detém
O que pra mim é insuportável
É ser a causa de você estar ali
Por mais que incomparável
Seja a alegria ainda por vir.
Posso até lhe suportar
Com você ir mais além
Mas me recuso lhe causar
Nem por mal, nem para o bem
Viva e deixe viver
Já sabe a desculpa que dará a si mesmo?
Como lidar com a dor de ter deixado a vida escapar?
Quanto tempo perdeu atirando a esmo?
Não ouse pensar que você vai se safar
E se quem você foi um dia viesse de súbito lhe visitar?
Que surpresa teria ao verificar no que você se tornou?
Se aquela criança lhe fitasse os olhos sem desviar
Vergonha ou orgulho teria do sonho que lhe forjou?
Não me venha com esta de que a vida é uma questão de sorte
Não escolhemos os sonhos, são eles que nos elegem
E o pior pesadelo não tem a ver com o medo da morte
Mas descobrir que não fez jus aos princípios que à vida regem
Viva e deixe viver, eis um princípio a que me refiro
Ame e deixe-se amar, é sem dúvida aquele que eu prefiro
Se tiver que se arrepender, então, faça-o sem paranoia
Arrepender-se para valer não é lamento, mas metanoia
Expansão da consciência. Desistir? Uma pinoia!
Quanto mais na companhia de quem ama e lhe apoia
A propósito, qual foi mesmo a última vez
que você fez algo pela primeira vez?
Viver dói
Viver dói.
Existir, nem tanto.
Já a morte é só um susto.
Bancar o herói?
Fingir não ter espanto?
Que suporte então o custo.
Querer corrói.
Cede ao toque do encanto
Mesmo quando se é justo.
Desejar me mói.
Me destrói o tanto quanto
Até que encontro o que busco.
Ofegante
Ofegante.
Busco ar, porém em vão.
Num instante,
Sinto disparar o coração.
Tenho pressa.
Corro contra o tempo.
Que me resta?
Soltar-me ao vento.
Fôlego.
Na jornada sigo sendo peregrino.
Trôpego.
Cambaleio rumo ao meu destino.
Sôfrego.
Da vida só provei o aperitivo.
O que quero?
Justo aquilo de que me privo.
O que espero?
Desta vida sou apenas inquilino.
O amor nunca falha
Não se enaltece
Nem se vangloria
Se é o que permanece
O que mais nos importaria?
O amor não tem pressa
Não se esconde
Nada há que o impeça aqui, ali,
não importa onde
Tal qual um rio flui sem parar
Nunca se esgotará
O amor sustém
O amor provê
Muito além do
que se possa ver
O amor protege
Sempre espera
Quando emerge
O amor tudo supera
O amor são os braços que vão lhe embalar
Não lhe abandonará
Se o meu coração me trair
Nele não puder confiar
Se o céu sobre mim cair
Nada é maior que o amor
Maior que o amor
O amor está aqui
pois sobreviveu
Ele é o sentido que
o mundo não percebeu
O amor é um rio que flui sem parar
O amor são os braços que vão lhe embalar
O amor lhe solta pra você voar
Não lhe desapontará