POEMA PARA NÃO SER ENTENDIDO
a polícia fez uma visita
por causa
de areia e pouca brita?
e este mato ao meu lado
impregnado
com cobras e lagartos
que cresce assim desenfreado?
cadê a viatura, seu polícia?
eu quero a roçadura
e não quero só notícia
FRAÇÕES HUMANAS
o tempo se sucede em frações humanas
sem volta, envolto em revolta, ele avança
e não se cansa das medições mundanas
de feições lineares e intenções circulares
ascende paulatinamente a outros lugares
TERRAPLANISTAS
eles têm um plano
tão plano como a mente
que perdeu a curvatura
planificar a pobre Terra
e enterrar a nossa esfera
eliminar o meridiano
e soterrar o paralelo
mas haja paciência!
depois do cogumelo
acabar com a ciência?
cadê o fundamento?
não existe coerência
e falta embasamento
é triste ver o sapiens
voltar ao neandertal
parecem todos aliens
em meio ao carnaval
ESTE MUNDO ME ENCOLHE
é certo que muito está errado
não importa onde se olhe
quer pra frente
quer pra trás
quer pro lado
neste mundo que me encolhe
normal é quem escolhe o diferente
é igual a toda gente, mas atrás
um ser pungente e dissimulado
TRISTE FIM
verde grama que adorna o triste jardim
aqui no fim o drama contorna e assiste
à dama com jasmim que torna e insiste
enfim em ver de novo que a rama orna
ESCURIDÃO
Perdido na escuridão da minha própria mente
perambulo entre meus infinitos pensamentos.
Nada vejo e nada ouço, mas sinto a presença.
E assim vagueio, desprovido de sofrimento.
Mesmo que inerte em tal febril momento
anseio um alento para esta travessia.
Em vão, procuro sua cálida alegria.
Sequer uma centelha de esperança.
Nada alcança ou acalma esta alma.
Caminho sem destino certo
e desconheço se está perto.
Tudo parece assim distante
e ainda foge num instante.
As palavras se consomem.
Os versos somem.
Chego, enfim
a este fim.
ESPELHO
olho para o espelho
e nada vejo, nenhum reflexo
um mundo negro, complexo
o plexo circunflexo
e dele, nenhum conselho
de ninguém conexo
pois tudo é reflexo
desse mundo desconexo
ONE SMALL STEP FOR MAN
uma bota e a notável marca
marca fundo a humanidade
pr'além deste pequeno mundo
pra outra realidade
pisa em solo macio cinzento
e aprofunda o conhecimento
no silêncio de tal momento
nasce um grande sentimento
ao vento que não existe
deixa sulcos na história
mas a glória é questionada
e faz do grande um grande nada
ao descrente da vitória
a conquista é ilusória
e a chegada daquele homem
é como história de lobisomem
PARA ALÉM
depois que nós morrermos
dizem pobres, ricos e enfermos
ainda viveremos
uma incrível eterna idade
para além da dor e da saudade
uma vida de longa amenidade
e se isso é a tal verdade
nunca nesta vida saberemos
LÁBIOS DE CARMIM
Tosco e demente, sou enrosco.
Fora da mente, um pobre indigente.
Sei que não sou ninguém,
talvez um alguém diferente.
Mas nada salva este grande desencanto,
nem mesmo o mais puro santo,
tampouco algum sacrossanto.
No entanto, quero seu encanto.
Desejo seu ser inteiro,
e ser inteiro só para você.
Mas sou e mais estou aos pedaços.
Não tenho como dar-lhe uns abraços.
Pela vida, esburacado como queijos,
nem mesmo esses posso tê-los.
Não tenho como dar-lhe belos beijos.
E de nada adianta esta reles esperança,
que maltrata, atormenta e nada alcança.
Entrego-me ao esperado e triste fim,
sem beijar seus doces lábios de carmim.
MÃO
a mão que gentilmente afaga
é também aquela que esmaga
a que cura a triste chaga
a que o fraco embriaga
a que salva, se não naufraga
a que crava a afiada adaga
mas nunca aquela que apaga
pois, o que pela mão está feito
não há saga que desfaça, ou dê jeito
A CULPA
ah, a culpa humana
tão ferrenha quanto insana
a mais cruel das punições
a inviolável das prisões
assola o hospedeiro
e corrói o corpo inteiro
te leva ao fundo do teu poço
te afoga no raso, e arrasa teu fosso
sem remissão, a loucura é o vil destino
a absolvição existe, não é um desatino
mas não queremos aceitar a culpa
quando menos dolorosa é a desculpa
e assim vivemos
uma vida que não vemos
vazios de quaisquer culpas
num eterno cio por estúpidas desculpas
DESUMANO HUMANO
É deprimente pensarmos na semelhança
entre a mente humana de agora
e a mitológica Caixa de Pandora (na verdade um jarro).
Na perseverança do homem
o jarro já se via derramado
e apenas a esperança
nele ainda contida
segurava-se em cada lado.
A boca do homem
é a boca do jarro
e delas saíram
todos os tipos de escarro.
A crítica humana
quase sempre anestesiada
é demasiada desumana.
Com pouco tato
destruímos a firmeza moral de um bom caráter
por um único ato.
A hombridade
que leva anos para formar-se e consolidar-se
desfaz-se de imediato
aos olhos do humano nato.
Temos o julgamento e a condenação prontos
antes mesmo do fato
e tampouco nos pautamos
pelo sensato.
Basta uma pequena e infeliz ação
para devolvermos em pesada e desproporcional reação.
Não foi assim que Newton
o gênio
não obstante humano
nos ensinou.
VERSOS DE FIDELIDADE
Atento, ao meu amor estarei presente
Agora e sempre, e assim, com todo zelo
Enquanto em face deste grande encanto
Que meu pensamento tanto se encante
CONCRETO
sinto na pele
o toque
frio
tenaz
concreto
meu corpo sucumbe
mas não o coração, que sem noção insiste
tampouco a mente, que brava mente resiste
na sensação de um tempo estagnado
não mais suporto esta pressão
que só aumenta e atormenta
tempo, por que não passa?
venha logo e me leve deste inferno
por que esta eternidade?
será esta sua última maldade?
ah, não mais importa
pois agora eu realizo
meu iminente e certo fim
neste eminente instante
que, de agora em diante, será eterno, constante
minha mente inebria-se
e se entrega ao coração
que pulsa lentamente
e mantém a mente tão lenta quanto vazia
solto meu último suspiro
e, assim, não mais respiro
esmagado, morro sozinho
sob o peso do concreto
quisera eu não houvesse peso
quisera eu fosse abstrato
MINHA VIDA
que a sua ausência
nunca me visite
e que passe longe
longe do meu mundo
que a sua presença
seja minha amiga
e assim nunca duvide
que você é minha vida
GIRASSÓIS
neste mar de girassóis
eu corro e rodopio
por este todo amarelo
tanto giro e tanto rodo
que de tanto tonto
caio e letargio
desmaio em arrepio
POEMA SAR(CÁUSTICO)
ah, essa vida
bandida confusa
matreira e atrevida
quase sempre obtusa
me joga num vaso
daqueles sem flores
e revela o descaso
imerso em odores
sem terra, nem chão
afundo em meu mundo
sugado no vão
do seguinte segundo
eis a descarga
que a vida me deu
tão triste e amarga
assim me fo…
NEM TÃO INCOMUM
meu senso não é comum
pois o comum destoa
deste incomum que sou
dos incertos pensamentos
tal qual dos sentimentos
todavia
nem tão incomum eu sou
se assim eu fosse
seria o que queria
e escreveria
o mais belo soneto
a mais linda poesia
“a folha branca
pede-lhe a inspiração:
mas, frouxa e manca,
a pena não acode ao gesto seu”
assim bem disse, e quis
um espanto de Assis
não o santo, mas o poeta