LONGE DE MIM
Distante de mim
lá longe, perto do fim
havia um homem
Próximo da morte
quando perto da via
todavia distante
enfim
No próximo instante
tão longe da sorte
e já perto de mim
jazia aquele homem
De tão sujo, imundo
ninguém apareceu
era o fim do meu mundo
o homem era eu
POEMA MELANCÓLICO
também quero um poema com um quê bucólico
mas não conheço cantos e seus passarinhos
nem mesmo cores e suas lindas flores
tampouco encantos e seus vastos campos
o que me leva, sem demora, ao poema melancólico
pois conheço a dor que dilacera e apavora
a escuridão que traz o medo mais que a solidão
e os desencantos desta vida, em cada canto dividida
O ser humano é beligerante por natureza. Tudo é uma batalha constante, por alguma coisa, e tudo é incerteza. O que muda é o nível da luta, que aumenta, conforme o interesse incrementa. E, contra nós mesmos, vivemos em luta incessante, cujo fim será a morte determinante. Lutamos para nascer, para viver e, lá no fim, para simplesmente não morrer.
RM DE UM "SER VICAL"
em transição crânio-cervical normal
percebe a leve artrose atlânto-axial
pelos osteófitos marginais difusos
realiza como tudo isso é confuso
ainda que fisiológica a retificação da lordose
observa artrose interfacetária com esclerose
o disco C2/C3 encontra-se bem posicionado
mas percebe o abaulamento C3/C4 acentuado
o complexo disco-osteofitário C4/C5
comprime o saco dural com afinco
há redução da amplitude dos forames neurais
de fato, são detalhes tão pequenos, estruturais
o complexo disco-osteofitário C5/C6
comprime o saco dural dele, não de vocês
com redução da amplitude dos forames neurais
e novamente, mais problemas cervicais
o complexo disco-osteofitário C6/C7
também comprime o saco dural. Muito legal!
há redução da amplitude dos forames neurais
mas, neste caso, é moderada, e nada mais
a conclusão é espondiloartrose cervical
e discopatia multissegmentar... nada mal!
IRIDESCENTE
fechados
quando meus olhos pressiono
percebo, em tal ato
um mundo abstrato e manchado
pois neles impressiono
visões iridescentes
em indefinidas cores frias
e imprecisas cores quentes
muito atrás de minhas íris
que tons castanhos mostram
quando se mostram a esse mundo estranho
recebo tristes e definidas cores
tanto quanto amargos sabores
em igual horror de odores
deste mundo indecente
VERSOS SERENOS
portanto, pouco a ser dito
pois tanto o quero escrito
tanto que a fera se revolta
se, entretanto, nada volta
meu urso hiberna e sonha
nesta oca caverna tristonha
à espera de um clima ameno
quando sairão versos serenos
MAIS FORTE
é tanto tempo
e pouco espaço
e no entanto
é neste contratempo
que eu forjo o aço
e deste
me faço
mais forte, porém mais frio
mais duro, mas oxidável
e sigo assim
inexorável
rumo a um desconhecido norte
em busca da boa sorte
para que tudo
volte ao prumo
muito antes
contudo
do possível fim
ou ainda
da esperada morte
SONHO MEU, SONHO MAU
Acordo.
De fato, não sei.
Talvez ainda durma.
Nada parece certo.
Não me sinto desperto.
Mas estou na cama,
deitado.
Nem mesmo estou coberto.
E agora sinto frio,
tão forte,
superficial e também profundo.
Um intenso calafrio,
que me gela e cala tudo,
exceto o caloroso frio.
Na velha cama,
tão velha que já reclama,
quero ferozmente levantar.
Em total prostração,
nem ao redor consigo olhar.
Tudo que ouço
é a lenta respiração.
Neste corpo-calabouço
nada resta em esperança.
Do imóvel arcabouço,
tento a mão... sequer alcança.
Em matutino desatino,
cerro os olhos e raciocino:
Seria um sonho meu,
ou seria um sonho mau?