VERSOS E AMARGURA
.
Se de mim retirassem os enganos
Em mim apenas acertos restariam
Seria um poeta de versos levianos
Que como bolas de sabão se esvaziam
Prefiro ser alguém cujas conjecturas
Correm o risco de trazer amarguras
Do que ser um ser vivo sem opinião
Prefiro que me calem com mordaças
Do que ao me ouvirem achem graça
Por repetir os gracejos da multidão.
.
Prefiro ser chamado de subversivo
Do que receber afagos dos opressores
Porque tais afagos só são oferecidos
Aos fracos em troca de favores
Com os quais traem a sua dignidade
E ganham uma falsa felicidade
Como troféu para a covardia
Prefiro ter a honra da clausura
Nos frios porões da ditadura
Do que a desonra na democracia.
.
Se de mim retirarem os versos
Ainda me restarão os pensamentos
Que voarão na amplitude do Universo
Montados nas costas do vento
E baterão à porta de Deus
Que atendendo ao apelo meu
Mandará uma forte tempestade
Formada por poesias agudas
Que caindo regarão as mudas
Que aflorarão como liberdade.
FOLHAS SECAS DE OUTONO
.
Caiam folhas secas de outono
Sobre a terra avermelhada
E no mais repousante sono
Num mundo livre sem dono
Suspirava a moça apaixonada.
.
Ela viu chegar um lindo cavaleiro
Montado num cavalo branco
Ele a arrebatou por inteiro
E sobre o animal faceiro
Saíram a passear pelo campo.
.
Milhares de pássaros entoavam canções
Os jardins estavam floridos e perfumados
Não existiam as quatro estações
E ela sentiu muitas palpitações
Quando percebeu que o cavalo era alado.
.
Lá do alto ela via as serras
E as nuvens que as cobriam
Via também escorrendo pela terra
Alimentando as plantas e as feras
As águas que nos rios corriam.
.
Ao pousar sobre uma colina
Nos braços ele a tomou
E olhando para cima
Viu-se refletida na retina
Do homem que a conquistou.
.
Ela não resistiu aos encantos
E se deixou beijar pelo amante tão hábil
Mas acordou em prantos
Ao perceber que foi o vento brando
Que jogou folhas secas sobre os seus lábios.
A ORAÇÃO DA FLOR
.
Ó Senhor criador das flores
Agradeço-Lhe pelos favores
Com os quais tem me abençoado
Pelas abelhas que levam o meu pólen
Pelos homens que me colhem
Quando estão apaixonados.
.
Pelo Sol que me traz luz e calor
Pela chuva que com gotas de amor
Nutre as minhas raízes
Pelo vento que me massageia
E pela romântica Lua cheia
Que se reflete nos orvalhos felizes.
.
Que eu possa enfeitar os cabelos
E também afastar os pesadelos
Perfumando o ar dos que dormem
E que mesmo sabendo que no vaso
Minha vida terá curto prazo
Eu me alegre com o sorriso do homem.
.
Ó Senhor me use como enfeite
Para trazer beleza e deleite
Aos campos e jardins
Faça de mim um instrumento
Que desperte no homem o intento
De também despertar emoções sem fim.
CHIBATAS MODERNAS
.
Que o fluido do trabalho
Seja o suor e não a lágrima
E que nas mãos haja calos
Ao invés de marcas trágicas
Causadas pela aplicação
De condições que não
Preservam o trabalhador
Transformando o que deveria
Ser uma fonte de alegria
Numa grande usina de dor.
.
Que o trabalho seja uma ponte
Para conduzir quem se dedica
À conquista do horizonte
Onde o seu ideal habita
Mas que jamais seja um muro
Entre o presente e o futuro
Por isso eu proponho
Que o trabalho sempre seja
Garantia de alimento para a mesa
E de estímulos para os sonhos.
.
Que haja líderes e não feitores
Com novos métodos de tortura
Que fazem dos trabalhadores
Vítimas de uma escravatura
Na qual disfarçados escravos
Se julgando livres são alvo
Da ambição desmedida
Da minoria abastada
Que com invisíveis chibatas
Produz visíveis feridas.
PÁTRIA PÁRIA
14/04/2021
.
Debruçados nos peitoris
Das escancaradas janelas
Gritavam: ‘O meu País
Não será uma Venezuela’
E aquela gente enfurecida
Colocou um genocida
Como líder da Pátria
E agora todos calados
Veem o Brasil transformado
Num indesejado pária.
.
Por temerem que o Brasil
Virasse uma nova Cuba
Elegeram o imbecil
Que encantava turbas
Mas bastou ele assumir
Para o povo descobrir
Que abusou da sorte
Porque com o cetro na mão
Quase transformou a Nação
Numa Coreia do Norte.
.
Essa gente brasileira
Que gritou na minha orelha:
‘A nossa bandeira
Jamais será vermelha’
Hoje em dia se constrange
Ao ver que foi sangue
Que as quatro cores cobriu
E agora pagamos o preço
De ver o mundo ter medo
De virar um Brasil.
DEIXE-OS NUS
15/01/2019
.
Deixe-os deitados nas redes
No aconchego das ocas
Sonhando com as verdes
Folhas de mandioca
Deixe-os correr pelados
Com os pés enlameados
Com o húmus da floresta
Deixe-os caçar e pescar
E com destemor se armar
Com seus arcos e flechas.
.
Deixe-os exercer a fé
Com seus místicos rituais
E acreditar que o pajé
Tem poderes sobrenaturais
Para que irmanados fiquem
Ligados ao grande cacique
Que criou todas as tribos
Deixe-os sempre isolados
Para não serem transformados
Em civilizados indignos.
.
Deixe-os ser o que são
Donos da terra onde todos
Compartilham o pão
E fazem do corpo
A única vestimenta
Que orgulhosa ostenta
Cocares, braceletes e brincos
Eles são herdeiros da salvação
Por viverem em comunhão
Por isso deixe-os ser índios.
MITOMANIA
04/02/2019
.
Moralistas sem moral
Capitalistas sem dinheiro
Caridosos que não sabem qual
É a carência dos companheiros
Religiosos sem disposição
Para amar sem discriminação
Quem pensa diferente
E patriotas que se alegram
Quando os políticos entregam
Nossas riquezas a outras gentes.
.
Intelectuais sem opinião própria
Filósofos que só citam sábios mortos
Governos civis que calçam botas
Donzelas puras que fazem aborto
Somos membros de uma espécie
Que nunca amadurece
E assim não adquire supremacia
Porque somos seres doentes
Que vivem constantemente
Infectados com a mitomania.
.
Neste mundo a mentira
Recebe animados aplausos
Da plateia que faz fila
Para subir no palco
E com abraços calorosos
Elogiar os mentirosos
E dar-lhes os parabéns
Por serem os ídolos
Daqueles tolos indivíduos
Que adoram mentir também.
O CELEIRO
04/06/2018
.
A supressão de direitos
E a limitação do saber
Formam o mecanismo perfeito
Para se exercer o poder
Dos fortes sobre os fracos
Que lambem os pratos
E buscam no fundo das panelas
Algum resto de comida
Enquanto oferecem as sortidas
Ceias para quem os flagela.
.
O trabalho mesmo remunerado
Pode significar servidão
Quando ao trabalhador é negado
O direito de obter do patrão
Ganhos justos e carga horária
Que transformem a rotina diária
Em degraus para que ele cresça
E deixe de vestir-se com trapos
Enquanto para o patrão abastado
Ele cose lindas roupas de seda.
.
Que o agasalhado produza agasalho
E o alimentado produza alimento
Para que a força do trabalho
Seja garantia de alento
Para todas as classes
Que esperam que a sociedade
Um dia ainda seja
Celeiro de bem-estar e justiça
Ao trocar o egoísmo e a cobiça
Pela distribuição de renda e riqueza.
A TRILHA EXTINTA
.
Certa vez um passarinho
Ficou reparando o caminho
Que via de cima da encosta
Mas ele não entendia
Por que o mato sumia
Deixando a terra exposta.
.
Indagou um pássaro adulto
Que conhecia o mundo oculto
Dos humanos e de outras feras:
Sr. pássaro sábio e nobre
Por que o mato não cobre
Aquele caminho de terra?
.
Lá embaixo os seres sem asas
Constroem as suas casas
Distantes umas das outras
E quando sentem saudade
E querem rever suas amizades
Caminham pela planície toda.
.
Durante as caminhadas
A terra vai sendo amassada
Impedindo que o mato cresça
E as flores que crescem
Nas margens agradecem
Pois querem que o amor prevaleça.
.
Então o pássaro pequenino
Entendeu por que via um menino
Chorando sentado numa trilha
Que agora estava todinha
Cheia de capim e ervas daninhas
Que cobriam suas panturrilhas.
.
Provavelmente aquela criança
Tinha alguém na vizinhança
Que costumava fazer-lhe visitas
Mas aquele mato comprido
Indicava que o seu amigo
Deixou de pisar na trilha extinta.
PAPEL DE MUSA
.
Minha adorada e inspiradora musa
Preciso urgentemente da sua ajuda
Porque a escrever a intuição me compele
Quero abordar o nosso amor sem limites
Mas por ter acabado o meu papel sulfite
Terei que escrever sobre sua pele.
.
Sobre esta testa escrevo
O maior dos meus desejos
Com letras garrafais:
‘Este local é exclusivo
Como lousa e abrigo
Deste poeta e de ninguém mais’.
.
Nestas bochechas rosadas
Deixo as seguintes palavras
Gravadas com simetria:
‘Aqui só tem permissão para beijar
Aquele que sabe me transformar
Em tema para as suas poesias’.
.
Nestes seus lábios carnudos
Com verbetes minúsculos
Deixo um recado meu:
‘Afaste-se destes lábios doces
São dela, mas é como se fossem
Deste amante que neles escreveu’.
.
Neste aveludado pescoço
Sem querer provocar alvoroço
Escrevo ousadamente assim:
‘É aqui onde está o segredo
Para romper da minha musa o medo
E fazê-la se entregar para mim’.
.
Entre estes lindos seios
Escrevo com certo receio
De ser malcompreendido:
‘Estes são os dois culpados
Por eu ficar descontrolado
Diante da minha libido’.
.
Sobre esta barriga
Branca, macia e lisa
Escrevo delicadamente:
‘Não se aproxime deste lugar
Porque é aqui que brotará
A minha secreta semente’.
.
Nesta sua área mais íntima
Registro uma declaração mística
Escrevendo a seguinte mensagem:
‘Este é o meu tapete voador
No qual me acomodo com amor
E levito em emocionantes viagens’.
.
Nestas coxas torneadas
Deixo para sempre gravadas
Estas palavras nas partes internas:
‘Adoro os abraços dos seus braços
Mas eu perco as forças e me desfaço
Ao receber abraços das suas pernas’.
.
De repente ela abre os seus olhos lindos
E percebe que no seu corpo despido
Não existe nem sequer uma letra
Mas isso não a entristece
Porque em pleno êxtase reconhece
Que fiz dos meus lábios uma caneta.
APELO À NOITE
.
O Sol mergulha no horizonte dourado
E logo respingos de luz tornarão
O infinito céu estrelado
E sob a influência da Lua estarão
Os casais apaixonados
Envoltos pelo romântico clarão.
.
Já é tarde
Preciso deixar o meu corpo dormir
Para que o meu espírito acorde
E vá visitar os lugares longe daqui
Os quais os meus olhos não podem
Em hipótese nenhuma invadir.
.
Abrace-me doce noite e sussurre os seus segredos
Através da suave brisa de outono
Me envolva com a escuridão livre dos medos
E cante os seus silêncios no abandono
Para que eu me desprenda do meu corpo terreno
E, conduzido por suas mãos, suba no palco dos sonhos.
MAIS DO QUE PÃES
.
Existe uma força espiritual
Que religa o cordão umbilical
Permitindo que a mãe receba amor
Enviado pelo filho grato
Que aceita que apenas no parto
A mãe possa sentir alguma dor.
.
O colo se transforma no ventre
Que oferece abrigo quente
Para o filho que amadureceu
Ninho em que encontra guarida
Oferecido pela mãe querida
Que nem percebe que ele cresceu.
.
Mães, mãezinhas, mamães
Merecem mais do que pães
Ou joias cheias de brilho
Precisam apenas ser amadas
E no colo suavemente embaladas
Como se mães fossem seus filhos.
PAÍS MORIBUNDO
14/09/2019
.
O Brasil em agonia
Vê-se caído ao chão
Com pouca democracia
Inflando seu pulmão
E em suas veias tensas
A liberdade de imprensa
Enfrenta bactérias de censura
Que acirram os ânimos
E destroem os gânglios
Aumentando a temperatura.
.
Perde-se numa hemorragia
A seiva da solidariedade
Que deixa com anemia
O corpo da sociedade
Que vomita a disposição
De lutar pela recuperação
De um País moribundo
Que respira por aparelhos
E vê o sangue vermelho
Coagular feito chumbo.
.
O coração das multidões
Sofre com a arritmia
Que provoca palpitações
Mescladas com bradicardia
E o País doente implora
Para que alguém sem demora
Evite o choque séptico
É quando surge um médico
Trazendo como remédio
Um frasquinho de choque ético.
LATIFÚNDIO
.
O primeiro dono da Terra
Abriu mão de fazer escritura
Apenas a distribuiu em glebas
Para a subsistência das criaturas
Que plantavam para comer
E comiam para viver
Cuidando dos pedaços de chão
Chão que alimentava os animais
E que com ricos mananciais
Fazia germinar os grãos.
.
Como vassalos do suserano Deus
Tinham que cuidar da terra recebida
Permitindo a todos os irmãos seus
O livre acesso às bênçãos Divinas
Como trabalhar para alimentar o corpo
E exercitar a fé no verdadeiro dono
Das terras cheias de minérios nobres
Deus dava tudo e não exigia nada
Mas das Suas criaturas Ele esperava
Que na terra não houvesse pobres.
.
Os que receberam as terras como dádiva
Nelas fizeram semeaduras de prantos
Pois com a cobiça produziram lágrimas
Que caindo regaram os campos
E como água salgada não nutre o solo
Nas plantações de dor só vingou o ódio
Que até hoje alimenta as guerras
Pela posse da terra pessoas se consomem
Mas a terra não pertence ao homem
É o homem que pertence à terra.
PLÁGIO
.
O artista que cria
Música, arte, poesia
Ilumina a escuridão
Mas aquele que copia
Segue a lanterna que alumia
Mas que está em outra mão.
.
Quem copia não inova
Apenas aguarda coisas novas
Vindas dos artistas criativos
Para furtá-las sem escrúpulos
E assim mantém minúsculos
Os seus neurônios inativos.
.
O plágio é recurso do incapaz
Que se esmera sempre mais
Em tomar o que não lhe pertence
Mas para quem é plagiado
Não vale a pena ficar indignado
Porque só se copia quem está à frente.
.
Deixe que os que plagiam
E que assim se saciam
Sigam copiando tudo
Porque chegará o momento
Em que olharão para dentro
E não encontrarão conteúdo.
.
.
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
.
A gente entra no veículo
E já vai ligando o GPS
Para não dirigir em círculos
Evitando ter mais estresse
E a voz do guia virtual
Nos leva até ao final
Do trajeto sem reclamar
Assim não decoramos mapas
E deixamos nas estradas
A capacidade de memorizar.
.
No momento das compras
Diante das vitrines tentadoras
Ao invés de fazer contas
A gente usa calculadora
Pra ganhar tempo e dinheiro
E passar o dia inteiro
Com nada pra se preocupar
Assim a gente ri à beça
Mas sem conta de cabeça
A gente desaprende a calcular.
.
O professor pede um texto
E com preguiça de escrever
A gente inventa um pretexto
E vai no ChatGPT
E assim nos livramos
De ter que ficar juntando
Conhecimento e habilidade
Então tiramos nota dez
Mas perdemos de vez
A nossa criatividade.
.
A gente vive cercado
De recursos modernos
Nada disso é pecado
Que nos levará ao inferno
Mas se não nos precavermos
No futuro próximo seremos
Vítimas do avanço tecnológico
E por termos deixado de pensar
Veremos robôs a nos examinar
Nas jaulas dos zoológicos.
.
Eduardo de Paula Barreto
20/04/2023
.